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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

31
Jul25

Eu só preciso do mar

Carina Martins

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Ontem, o Bruno tentou animar-me, afinal, foi o meu dia de anos, e eu tentei parecer feliz por ele, mas, no fundo de mim há uma parte de mim que precisa de fingir se está tudo bem, e não dizer-lhe sempre o estado em que estou agora obriga-me a parecer bem e a fazer o possível para estar bem. Eu falo com o Bruno sim, muito abertamente, enquanto o blogue for desenvolvendo vocês vão perceber que saiu-me a lotaria depois de tantos azares, eu sou muito complicada e nunca pensei que fosse ter alguém com quem partilhar a minha vida, mas a nossa relação é muito honesta, muito simples.

Há cerca de duas semanas fui espairecer, precisava de chorar, coloquei uns fones, o calor é enorme e por isso sabe-me muito bem sair de casa com os cães mais a partir das 20h/21h, fui apanhar ar, isso é vital para mim já que trabalho tantas horas ao computador. Fiz o caminho habitual, deixei os cães cheirar, parar, o passeio era para eles também, na zona onde vivo são a grande maioria pessoas de idade, e confesso-vos que eu gosto disso, gosto da calmaria, cresci num bairro complicado, com drogas, tiros, policia, conflitos, violência, e sabia que precisava de sair dali mal começasse a trabalhar. Viver num lugar com pessoas que passam a vida a cuidar dos jardins, a cozinhar, a passar o tempo com os netos ou simplesmente a estar ali é uma das coisas que gosto, podem pensar que sou uma pessoa envelhecida mentalmente, mas não é isso. Comecei a sair á noite com 13 anos, envolvi-me com malta pesada quando era miúda, grande parte disso era por levar porrada todos os dias do meu pai e ver a minha mãe a ser agredida á minha frente, rebelei-me, quis juntar-me aos revoltados como eu, áqueles que tinham dores escondidas atrás de capas de valentões, foi a única fase da minha vida em que tive verdadeiros amigos.

Não, nunca usei drogas, nunca fiz mal a ninguém, limitava-me a estar com eles, e com o tempo, ganhei um estatuto, comecei a ser a protegida, aquela em quem  ninguém podia tocar, isso aconteceu porque começaram a reparar que eu era uma preza frágil, baixinha, muito magra, dócil, sorridente, frágil mentalmente, com medo até da minha própria sombra. Claro que o bullying fez parte da minha vida, claro que de vez em quando apareciam miudas ou miudos a quererem bater-me por coisa nenhuma, o grupo lá do bairro onde eu vivia começou a ver isso e a ficar revoltado, eu tinha duas realidades, na escola era a feiosa, com o cabelo frizado e roupas feias, na minha rua eu era tratada como uma princesa, e sim, essa realidade de inicio confundiu-me como adolescente mas depois percebi como o conceito da beleza era tão subjectivo. Mas de qualquer forma, os miudos do bairro vinham de lugares como o meu, pais violentos, muitos deles na droga, muitos deles também tinham pais que batiam nas mães, que tinham vicios, negócios duvidosos, e por aí fora, mas eram miúdos que como eu tinham crescido muito depressa, cuidavam dos irmãos, trabalhavam, estudavam, e tinham problemas de gente adulta, problemas que a maioria dos adultos "normais" não tem. Foi por isso que os "bullys" da escola começaram a ter medo de se meter comigo e recuaram, de repente ninguém mais me podia tocar, e eu que muitas vezes não contava nada a ninguém para evitar confusões acabava por ter sempre alguém que visse e lhes fosse meter aos ouvidos. 

A Sara era uma amiga, achava eu, até ao dia em que decidiu juntar-se a um grupo de outras raparigas, com mais dinheiro, mais populares, mais obcecadas com rapazes... Um dia do nada criou-se um murmurio que eu andava a falar mal dela, e pronto meio caminho andado para ser espancada a porta da escola, ou andar sempre com uma sombra atrás de mim, isto durou meses, eu ia para a escola e sabia que ia apanhar, já não queria saber, entre levar porrada em casa e na escola, nunca nada seria mais assustador do que o meu pai bater-me... Claro que a Sara nunca estava sozinha e juntava sempre um "valente" grupo para me ameaçarem, até que um dia a Sara deixou de aparecer na escola, eu só soube uns dias depois que a Marta a tinha encontrado numa das discotecas que íamos e tinha tido uma pequena "conversa" com ela, uma daquelas que fez com que uma ambulância estivesse a porta da discoteca meia hora depois, tenham calma, a Sara está bem, já se passaram mais de 20 anos, levou apenas uns pontos na cabeça e nunca mais foi se quer capaz de olhar-me nos olhos.

Todos sabemos que os adolescentes são maldosos uns com os outros, mas muito poucos aqui sabem o que é viver num bairro pesado, voltando ao meu raciocinio, eu posso parecer uma mentalidade envelhecida, mas na verdade vivi muito durante esses anos, foi uma montanha russa, mudanças, reviravoltas, histórias pesadas, tristes e outras felizes. Cansei-me por isso cedo de sair á noite, hoje o que gosto é de estar na praia, ver o sol nascer de preferência, os fins dão-me angústia e ver o sol a pôr-se para mim tem sabor a final, se sair é para conhecer um lugar no meio da natureza onde possa estar com os cães, fazer um piquenique, sentir o vento no rosto e ouvir os passarinhos, gosto de música mas o meu gosto musical não ajuda, não há discotecas tipicas com anos 80, as que existem passam eletrónica, pelo menos que eu conheça, e francamente também já não tenho pachorra para ficar em lugar nenhum até as 2h da manhã. O ribombar da musica nos ouvidos enquanto tento adormecer na cama foi algo que nunca me deu prazer.

Voltando ao momento então lá estava eu a passear os cães, a rua tranquila, silenciosa, o recolher das pessoas dentro de casa e a noite para mim, livre para eu poder pensar,  achava eu, tinha acabado de fazer algo muito dificil do qual ainda sou incapaz de falar abertamente sem me desfazer em lágrimas, por isso ia a chorar, aquele choro tranquilo, calmo, sem soluçar, apenas triste, pensava no quanto as coisas andam viradas do avesso, no egoismo das pessoas, na maldade, quando de repente eu e um senhor que estava mais a frente e quase era atropelado deparamo-nos com um animal a fazer derrapagens bem a nossa frente, havia um TVDE que teve que fazer inversao de marcha rapidamente e acho mesmo  que ele chamou a policia, eu que ja estava nervosa fiquei sem reacçao, a olhar para ele, incredula, sem perceber, qual era a intençao de andar a fazer manobras perigosas numa localidade cheia de crianças e idosos, o senhor com os seus 70 anos começou a acelerar até casa dele e eu que fiquei estatica por alguns segundos de repente lembrei-me que tinha que proteger os meus cães e por isso entrei por uma rua que dava um atalho para minha casa. Não tive a reacção instintiva de tirar a matricula, apenas senti aquele momento como um soco no estomago, e depois do choque, depois de estarmos seguros, aí sim sentei-me numa calçada encolhi-me e começei a soluçar, foi a vontade mais forte e mais impulsiva que tive ali de repente de morrer, porque precisamente ali enquanto vagueava e pensava na merda de mundo em que vivo de repente cruzo-me com um adolescente que achava que era mais homem por assustar meia duzia de pessoas. Na minha rua existem caes de rua que toda a gente alimenta, e só pensei na sorte que foi ele nao ter apanhado ninguem no caminho, mas mal consigo explicar o que senti naquele momento, desespero, desesperança, tristeza profunda, perdi as forças...

Nesse dia cheguei a casa lavada em lágrimas e dei um abraço ao Bruno daqueles apertados, daqueles que pedem em tom desesperado "por favor tira-me deste lugar", chorei e soluçei até ficar cansada, adormeci com uma ultima frase: estou cansada deste mundo de merda, estou  cansada de pessoas, eu nao pedi para estar aqui.

Ontem, no dia dos meus anos, nem os presentes que ele deu-me entusiasmaram-me e isso surpreendeu-me, não estava a espera de não sentir absolutamente nada, hoje já tenho algum entusiasmo em experimentar as coisas que ele me deu, mas ontem, nada fazia-me genuinamente sorrir. Não quis restaurantes caros, não quis absolutamente nada, a unica coisa que me deu animo foi por fim o momento em que pudessemos ir a praia com os cães, ver o mar e espairecer.

Sempre foi o mar, quando estava no bairro corria até á praia sempre que o meu pai me batia, e ficava ali a ouvir as ondas, a sentir a areia nos pés e a observar o mundo, as gaivotas, a natureza, isso acalmáva-me, manteve-me aqui.

 

 

30
Jul25

Happy birthday Mr president

Carina Martins

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Ja não tenho a pretenção de ser importante na vida de ninguém, nem um ego que o lamente, já não quero nem faço questão de receber um abraço ou de ouvir "eu lembro-me de ti", cheguei áquele ponto da minha vida em que até prefiro passar despercebida e não ser lembrada, notada ou acarinhada. Não me amem, mas também não me odeiem, nunca vos dei razões para isso, só deixem-me em paz.

Mas algo em mim sente a necessidade de colocar isto cá para fora, talvez porque saiba que não é normal: O meu pai esqueceu-se do meu aniversário, outra vez, o ano passado lembrou-se apenas quando dava-lhe os parabéns pelo aniversário dele, meses depois,  este ano, não faço questão de passar por isso outra vez, e se querem que seja sincera, hoje já não sinto absolutamente nada sobre isso.

Talvez uma parte de mim tenha morrido, o ano passado ainda senti-me triste, não sozinha, não abandonada, apenas triste, este ano não senti absolutamente nada. 

29
Jul25

Finais

Carina Martins

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Eu nunca mais quero ter um cão, e a resposta é: porque eu amo demais, e isso não seria um problema num mundo ás direitas, mas neste mundo, isso é um problema, sem sombra de duvidas.

Sei que a vida ainda vai reservar-me muita dor, e ultimamente, ando tão triste que sei que o meu blog torna-me intragável, mas esta é a unica forma que eu tenho de colocar tudo cá para fora.

Estava a dizer que sei que a vida ainda vai reservar-me muitas dores, mas eu estou cansada, já passei por demais, por mais cliché que isso possa soar. 

Não conto mais a minha história, não assim, toda despejada em meia duzia de parágrafos, ninguém iria acreditar, ás vezes nem eu acredito que estou aqui viva par a contar, mas de tudo o que passei, eu era feliz, eu era incrivelmente feliz se os animais e o sofrimento delas não fizessem parte disso, eu passava  por tudo, absolutamente tudo outra vez, se eu pudesse retirar todas as dores que já sofri por tentar remediar a maldade humana com os animais.

Quando era criança tinha um pastor alemão em Angola, que foi morto a tiros por rebeldes, porque sim, porque lhes apeteceu, mas desse anjo eu não tenho memória, talvez eu tenha ficado inconscientemente com ele na minha cabeça, porque existiu o Simba anos depois.

Mas antes do Simba há os gatos, e vou ser sincera, eu sou uma pessoa que adora todos os animais, todos, sem tirar nem por, e amei todos os gatos que tive, mas os cães são diferentes, eu realmente acho que são anjos na terra que foram colocados aqui para mostrar-nos o que é o amor. Por isso quando era miuda, tinha os gatos que iamos adotando da rua, mas sempre sonhei em ter um cao, quando tivesse uma casa só minha, eu sabia que um cão dava mais trabalho, mas também sabia que pelo menos para mim, ele iria dar mais alegrias, é aquela sintonia de alma que eu sempre soube que um dia existiria.

Uma vez vi um filme que explica que foram os cães que nos escolheram, e se isso for verdade só torna tudo mais triste, porque com certeza quando um lobo no estado mais puro se aproximou  de um ser humano pela primeira vez, jamais imaginou que a humanidade um dia fosse a pior ameaça para a vida dele.

O meu primeiro cão foi o Mickey, estava numa situaçao de abuso, so podia sair de casa até ao meio dia, era obrigada a trabalhar do meio dia as 2h da manha, sem pausas, nao podia frequentar ginasios, ter amigos, relacionamentos, a pessoa que abusou de mim controlava cada aspecto da minha vida, o que eu comia, o que eu bebia, a que horas eu saia, quando e que eu ia ao medico ou a mercearia, absolutamente tudo, e o Mickey foi o meu primeiro amigo que em meio a tantos traumas que passei teve a sorte de nunca passar por nenhum, passeava-o de manha, sentia o ar puro na pele por breves momentos e voltava para a minha reclusao sem saber que podia fugir, era como o elefante preso por uma estaca, a minha prisao tinha sido trabalhada na minha cabeça por anos a fio, eu simplesmente tinha medo, muito medo.

O Mickey continua comigo até hoje, tem 13 anos, está saudável e super vivaço.

Um dia, livrei-me dessa prisão, fugi, com o Mickey nos meus braços claro, quem me conhecesse minimamente tentaria atingir-me a fazer-lhe mal, e eu nunca me perdoaria se isso acontecesse, fugi e aguardei atrás de uma casa em ruinas que a policia aparecesse e decidisse o que iria fazer, devo te-lo magoado porque apertei-o com força, tive tanto medo que ele ladrasse que tive medo de o sufocar, mas ele nunca chorou ou ladrou, esperou comigo e recomeçou a minha vida comigo.

Nesse mesmo ano decidi adotar o Simba, eu não fazia a minima ideia da crueldade por trás da venda de animais, fui buscá-lo a uma petshop, deu-me pena ve-lo ali dentro de uma box á venda como se fosse uma coisa, foi um alivio retira-lo dali, dei-lhe treinos, a melhor comida, toda a atenção do mundo mas o Simba veio a ser um cão ansioso e agressivo, nunca comigo, mas muito protector comigo, ninguém podia chegar perto de mim e acho que de certa forma ele absorveu os traumas que eu tinha vivido e dos quais ainda estava a curar-me, fiz de tudo, gastei todo o dinheiro que podia até ficar sem nada, a Polícia quis ficar com ele e eu burra disse que não, ele tinha um porte que impunha respeito, era lindo, dos cães mais bonitos que já vi, quando o passeava toda a gente olhava para nós, um dia o Simba morreu, ironicamente foi atacado por outro cão, tinha feito tantos treinos de obediencia com ele que ele mal se tinha defendido, estava a ficar docil, tranquilo, quando tudo parecia estar a entrar nos eichos, ele morre, de um momento para o outro.

Passei semanas, acho que foram quase dois meses a chorar, mal consegui trabalhar a primeira semana e as pessoas nao ajudavam com o discurso de merda "é só um cão", na verdade isso enojáva-me e pensava para mim que daria a minha vida por ele e jamais o faria por alguém que tivesse conhecido naquele lugar. Como a minha dor nem se quer era compreendida, nao comia, limitava-me a chegar do trabalho, enfiar-me debaixo do duche e chorar até que os meus olhos ficassem inchados, até que eu ficasse cansada o suficiente para poder dormir, tinha engolido as minhas lagrimas pelo dia a fora e chegar a casa era poder sofrer sem ser criticada por estar a chorar por "apenas um cão", no dia seguinte não era nada que uma maquilhagem nao pudesse disfarçar, juntava-me aquelas pessoas vazias e fazia o meu trabalho, vazia por dentro.

Costumo dizer que foi com o Simba que as minhas lagrimas por fim secaram, eu nao era capaz de chorar a anos, e o Simba aconteceu-me ja a quase 10 anos, desde então aconteceram-me mil e uma coisas, a perda da luta pela minha mãe, o desaparecimento da minha irmã, amigos que me apunhalaram pelas costas, fracassos e recomeços, e nunca, nunca verti uma lágrima que fosse desde então, a dor existia, mas uma parte de mim tinha morrido quando o Simba morreu.

Um dia, estava a ir para o trabalho, e com os tostoes contados, cheia de problemas para resolver, deparo-me com 4 caes bebes a beira de uma estrada movimentada, carros que estacionam e ignoram-nos, eles choram desesperados, assustados, nitidamente, entro em panico e penso: o que e que eu vou fazer, daqui a pouco entro ao trabalho. Nao estava de carro, usava transportes nessa altura, a primeira coisa que vi foram os carros de compras e começo a recolher os caes porque em questao de segundos eles podiam ser atropelados, uma data de pessoas que com certeza deviam ter menos problemas que eu ignoram os pobres bichinhos (ironia), os meus problemas eram muitos, ainda estava a ser ameaçada pelo meu abusador, seguida, andava sempre com medo, o meu trabalho nao pagava as contas que acumulavam-se dia apos dia e vivia numa casa onde mal tinha espaço para levantar os braços e espreguiçar-me... Mas como dizia, coloquei os caes num carrinho  de compras, entro em panico porque o quarto bichinho foge para um descampado enorme e nunca mais lhe consegui meter a vista em cima, percorro 15 minutos a pé sobre a calçada com um carro de compras, a chorar compulsivamente, antes disso uma gaja que sai de um mercedes que os tinha acabado de ignorar diz-me "ah coitadinhos" apenas olhei para ela incredula e virei as costas. Chego a casa, peço ajuda ao Bruno, cedo-lhe a chave do pequeno anexo onde vivia e peço-lhe para comprar raçao, e taças, faço o video mais rapido que posso (na altura ainda usava facebook) onde estou literalmente um caco e desesperada, talvez tenha sido isso que tenha chamado a atençao das pessoas porque o video tornou-se viral.

Vou trabalhar a correr desesperada com um problema em maos porque se a minha senhoria descobre que eu tenho 3 caes em casa há a grande probabilidade de me pôr para fora porque convencê-la a aceitar que eu mudasse-me com o Mickey já tinha sido um problema gigante, não consigo deixar de pensar como podia estar o 4º da ninhada que não consegui apanhar a tempo, sozinho, no meio do mato, onde possa estar a mãe deles, provavelmente desesperada também, se é que viva. Instantaneamente as pessoas começam a abordar-me no trabalho a dizerem que viram o meu video, quando chego a casa na manhã seguinte contacto associações desesperada, sem ter dormido e de todas as vezes bato com a cara na porta, "estamos cheios, lamento, não podemos fazer nada", até que por fim passados uns 3 dias uma associação contacta-me e diz que andava atenta a essa ninhada a algum tempo e nunca os conseguiam apanhar, se não tivesse visto provavelmente não acreditava, mas eu própria não tinha conseguido resgatar um dos bebés e provavelmente só consegui resgatar os outros porque eles estavam nitidamente esfomeados, a associação começa a trabalhar para encontrar uma FAT porque finalmente alguém por fim entende que eu não tenho a menor das condições para ficar com os cães.

Passados alguns dias, por fim o senhor encontra uma FAT, veio recolhe-los em lágrimas, a dizer que tinha conseguido resgatar a mãe e o outro cão, desabafa e chora e diz-me que está cansado, e apesar de na altura eu ter 20 e poucos anos e ele ter idade de ser meu pai, eu revejo-me nas palavras dele e só quero dar-lhe um abraço, duas almas que se encontram no meio da tristeza.

Choro por uma semana de cansaço, dor e angústia, não dormia á uma semana, os cães eram muito bebés, tinham pouco mais de um mês, choravam muito, trabalhava como um cão e tinha a cabeça desfeita, felizmente os pequenitos foram rapidamente adotados, apenas uma familia compreendeu o meu apego e decidiu ir enviando fotos, as outras seguiram vida e decidiram ignorar-me, agitei os ombros e suspirei, eles estão bem, é o que importa...

A minha sogra que tinha e tem uma casa enorme, nunca foi capaz de ter um animal em casa, viu-me a dormir no meio das fezes de cão, sem tempo para dormir, sem tempo para respirar, numa luta para resolver a situaçao e assistiu a tudo sem dizer uma palavra, nessa altura eu ainda não sabia as barbaridades que ela tinha feito á pseudo-tentativa dela de gostar de animais, que tinha comprado uma cadela para um mes depois colocar num canil de abate (porque na altura isso ainda era permitido) e tudo porque a cadela nao tinha nascido ensinada a nao ladrar e a fazer as necessidades no sitio certo... Limitou-se a dizer-me que eu era boa pessoa, e eu sorria de cansaço, fazer o certo ás vezes é o mais duro mas pelo menos consigo deitar-me á noite de consciencia tranquila.

Entretanto ao longo destes anos, o meu coraçao foi gelando por cada animal que vi abandonado, morto, á beira de uma estrada, por um imbecil qualquer que estava com pressa e achou que chegar a horas ao trabalho era mais valido que salvar a vida que ele tinha acabado de colher, afinal "é só um cão"....  Um anjo com um coraçao maior qu a maioria das pessoas descartado ali como se fosse lixo, um ser inocente que viu o pior lado do ser humano, e porquê, para quê?...

E entretanto á quase 3 semanas foi o Thor, e o Thor foi o que por fim destruiu-me, de todas as vezes que resgatei animais o Thor foi aquele que sempre soube que seria o meu cão, um dia pela manhã, decidi ir fazer uma surpresa ao Bruno e comprar um pequeno almoço diferente, e o Thor literalmente sai de debaixo de um carro á beira de uma estrada movimentada, quase sem voz, a chorar e a olhar-me nos olhos, passados tantos anos o Thor fez-me perceber que afinal as minhas lagrimas nao secaram, porque mal começo a escrever isto começo a chorar, outra vez. Nitidamente fraco, esfomeado, cheio de sede, a primeira coisa que faço e perguntar nas bombas e no supermercado perto de mim se alguem tinha perdido um cao, se alguem sabia de alguma coisa, ele dormia nos meus braços, assim que peguei nele ao colo ele adormeceu.

Monto um espaço para ele longe dos meus cães porque sei que vai ser complicado sobretudo porque o Mickey já é sénior lidar com um cão que tem pouco mais que dois meses e que vai ser nitidamente enorme, compramos-lhe comida, damos-lhe agua, ele farta-se de comer e beber e adormece por horas a fio, nitidamente exausto.

Dias depois fico a saber, por uma senhora que a algumas semanas atras fazia segurança num supermercado e tinha sido agredida por ciganos por te-los apanhado a roubar, que o Thor pertencia a essa mesma familia, e que eles tinham se desfeito de toda uma ninhada, obviamente que aí fiz questão de nao sair com o Thor para a rua para lugar nenhum, pois eles podiam ate agredir-me mas posso garantir que nao voltavam a ter o Thor,  para o voltar a matratar. E sim, voltar é o termo certo,  porque o Thor assim que abriu os olhos na manhã seguinte, assim que eu levanto as mãos para fazer-lhe festinhas e falar um pouco com ele, assusta-se e começa a ganir, fiquei com a ligeira sensação que ele pensou que eu ia-lhe bater, mas ele ainda ia descobrir que isso é algo que jamais alguma vez nesta vida eu seria capaz de fazer.

Descubro que está cheio de carraças, pulgas, feridas, como ainda nao lhe podiamos dar banho passo com umas toalhitas que nunca tinha usado para os meus cães e começo a retirar carraça por carraça, uma associaçao por fim responde aos meus apelos, com eles como intermediarios levamos o Thor ao veterinario, ele esta saudavel, dao-lhe um anti parasitario para tirar as carraças e tirar parasitas internos que ele possa ter, e começamos a saga de procurar um lar para o Thor sabendo que quanto mais tempo eu ficasse com ele mais despedaçado o meu coraçao ia ficar. Felizmente o Bruno como trabalha com redes sociais e é totalmente o oposto doque eu sou, conhece imensa gente e começa a receber imensas respostas, a associaçao começa a ter uma postura suspeita e começa a sugerir que deixemos o Thor no abrigo deles, acabamos por descobrir que o abrigo onde o Thor iria temporariamente era uma prisao onde ele mal ia poder andar e brincar, e tambem que a associaçao nao esta a fazer o minimo esforço para responder as pessoas que querem ficar com o Thor, percebemos que a eutanasia é algo que recorrem pela calada e que é uma daquelas tais associaçoes de fachada que é por tudo menos pelo bem estar animal, o triste de tudo isto é que o Bruno já tinha feito voluntariado para eles, e nós já tinhamos feito umas quantas doações...

Fazemos nós o nosso próprio termo de adoção e então de repente, dar o Thor, senti-lo desvanecer-se nos meus braços foi a pior sensaçao que tive em anos, obviamente que apesar de tudo mais uma vez com a tremenda sorte que eu tenho, as pessoas nao nos enviam fotos, nao querem saber da dor dos outros, portanto, tenho aprendido a lidar com o meu mundo desfeito aos poucos, curando a dor entre lagrimas, com o cheiro dele ainda entranhado nos peluches e nos ossinhos que el deixou por aqui, resta-me rezar para que ele seja amado, porque de resto, estou cansada...

No meio de tantas historias tristes, esqueci-me de vos contar a historia da minha princesa, a Khaleesi, acho que todos temos o cão das nossas vidas e a Khaleesi, é a minha cadela, ela acompanha-me para todo o lado e entristece comigo, anda triste e custa-me, ve-me todos os dias a chorar e aninha-se no meu colo para comfortar-me, a Khaleesi ensinou-me que os rafeiros são os cães mais especiais do mundo, o Thor também é rafeiro, mas foi a Khaleesi que me ensinou que não preciso de ter cães de raça, que também eu sou uma espécie de rafeira nesta sociedade virada ao contrário, ela também foi resgatada de uma situaçao má. O engraçado é que pela altura em que ela foi adotada eu nao queria mais nenhum cão, o Bruno conseguiu convencer-me, ele queria ter aquela experiencia de ter um cao dele desde bebé, quando ele conheceu-me o Mickey já tinha 3 anos. Decidimos então que tinha que ser uma fémea, para fazer companhia ao Mickey e para que eles se dessem bem, a Khaleesi foi abandonada juntamente com a mãe e os irmãos por outra familia de ciganos, ela tinha 3 semanas quando foi resgatada, a mãe estava desnutrida e já não tinha leite, tiveram que fazer biberão todos os bebés e a mãe cheia de nós, bichos e nitidamente traumatizada... Fomos até á associaçao e devo já dizer que não acho que um termo de adoçao e as perguntas que nos fizeram tenham sido exageradas, numa sociedade doente como a que temos, todos os cuidados que tivermos sao poucos, e mesmo assim nunca há certezas, foi assim que fizemos com o Thor também.

Na altura em que a adotei eu já tinha mais condiçoes, viver com o Bruno e partilhar despesas com ele ajudava, tinha um trabalho fixo que estava longe de me fazer ter uma vida super comfortavel mas estava bem, fomos então á associaçao em Braga, fizeram-nos todas as perguntas, ainda nao sabiamos que queriamos a Khaleesi, uma das voluntarias aparece-nos com toda uma ninhada nos braços e deparei-me com o acto cruel da vida de ter que escolher, uma parte de mim dizia, fica com a mae, ninguem a vai querer, mas o Bruno queria uma bebé e por incrivel que pareça mal a voluntaria chegou a nossa frente com a ninhada nos nossos braços todos os outros cães nos ignoraram e a Khaleesi pulou para os meus braços e começou a lamber-me, eu e o Bruno olhamos um para o outro e concluimos que tinhamos acabado de ser escolhidos.

Na altura viviamos no interior, assinamos o termo para ficarmos com ela mas como tinhamos ainda uma viagem para fazer ao Porto pedimos que a associaçao ficasse com ela por uma semana ate voltarmos de ferias, voltamos e fizemos a loucura de ainda fazer uma especie de voluntariado e ir entregar um cao bebe a nova familia dele, que ficava no Porto, ou seja, peguei na Khaleesi ao colo que voltou a lamber-me, que segurava nos meus ombros com as unhas com todas as forças como quem dizia: por favor nunca mais me deixes, e fiz a viagem toda com ela no banco de trás e com o cãozinho pronto tambem para começar uma nova vida. Eu tremia, ainda contrariada mas ja com o coraçao desfeito em 4, pensava para mim que nao estava disposta a sofrer outra vez mas ja estava feito, eu ja a tinha nos meus braços.

Gravamos todos os momentos dela, fizemos fotografias, videos, porque sabiamos que tudo o que é bom nesta vida geralmente dura pouco, curamos os traumas dela, alguns, outros ficaram, e mostramos-lhe que era possivel ser amada e feliz, e até hoje ela esta conosco, feliz.

A Khaleesi é aquele ser especial que cuidou do Thor mal ele chegou a casa, parece que o instinto materno dela activou-se em segundos e de repente ela percebeu que aquele ser fragil e traumatizado tinha sido ela a alguns anos, quando a avo do Bruno morreu, a Khaleesi uivou e aninhou-se a ele enquanto ele chorava, e todos os dias enquanto trabalho, ela aninha-se nos meus pés, e nunca um unico cliente se quer percebeu que ela estava ali.

Um dia eu vou morrer, um dia nenhum de nós estará aqui, e não penso muito nisso até porque quero que os meus pequenos sejam felizes por muitos mais anos, mas no dia em que deixar de os ter não quero mais cão nenhum, quero guardar as memorias dos melhores amigos que tive nesta vida, dentro de mim, tendo a certeza que sao a coisa mais preciosa do mundo, num mundo que nao esta preparado para eles, porque eles sao demasiado nobres para um ser humano que faz tudo menos amar.

29
Jul25

Devaneios

Carina Martins

Hoje foi um bom dia de trabalho, tenho o comforto de ao menos saber que consigo colocar comida na mesa e ter uma vida acima da média. Não trabalho 8 horas, 10 ou 12, trabalhar por conta própria seja qual for a área requer muitos sacrifícios, ás vezes começo as 7h da manhã e ás 23h ainda estou a falar com clientes.

São 16h agora e parece-me que hoje tenho tudo organizado para tirar o resto do dia, mas não sei fazer nada para além de trabalhar, e calo o sofrimento a aceitar qualquer trabalho que me mantenha ocupada e me impeça de pensar demasiado.

Vou forçar-me a praticar exercicio fisico para ver como o meu estomago reage, a depressão tem feito o meu estomago andar sempre embrulhado, sinto que se quiser vomitar agora faço-o em poucos segundos, a minha alma não digere o mundo e o meu corpo não digere a minima coisa que eu tente colocar no estomago, quão irónico.

Devo parecer uma pessoa intragável por aqui, que pena que não existe um histórico aqui para que pudessem perceber que nem sempre as coisas foram assim, devo ser demasiado nova para estar cansada do mundo, amanhã faço 37 anos e ainda sinto-me presa á cabeça de adolescente cheia de porquês.

Fechei o escritório depois de andar a sorrir a meia duzia de pessoas, a tristeza não é vendável, ultimamente sinto os meus olhos pesados, doridos, a cabeça pesada, o corpo cansado, mas a arte de fingir foi algo que sempre fez parte da minha vida, a arte de fingir que está tudo bem.

Podia dizer que tenho sorte, mas, trabalho como um cão, mas, como sou uma cara bonita, um corpo atraente atrás de uma alma cansada ninguém vai acreditar em mim, e pensam assim, que presunçosa, esqueçam, ser bonita aos olhos da sociedade traz-nos só ódio, desprezo e miséria, ás vezes podemos tirar algum proveito disso, mas 80% do tempo ser bonita significa ser odiada pelas mulheres e objectificada pelos homens.

Quando estudava e trabalhava procurava trabalho em áreas longe do atendimento ao publico, limpezas, escritorio, qualquer coisa, mas o que sempre me calhava em sorte era o atendimento ao publico, era demasiado bonita para trabalhar em limpezas, e pensava para mim, "boa, sou demasiado bonita para nao chegar a casa a chorar todos os dias", quem trabalhou com o atendimento ao publico sabe do que estou a falar não sabe?

Bem, não vou fugir do tópico, amanhã faço 37 anos, ninguém dá-me mais que 27, talvez o meu 1.58 de altura e o meu corpo magro contribuam para isso, amanhã faço 37 anos e não sinto absolutamente nada, viver tem sido demais, limito-me a passar pelos dias e tentar permanecer ilesa em meio ao caos, tenho um trabalho estável, já não tenho que lidar com as humilhações no trabalho, e isso traz-me muita paz, posso passar os dias em casa conectada ao computador com a Khaleesi nos meus pés, afagar-lhe o pelo e permanecer onde me sinta segura.

Fechei o escritório e tivemos o nosso momento, dizem que os cães não gostam de olhar-nos nos olhos, bem a Khaleesi olha muito para os meus olhos, e fiquei a afagar-lhe o pelo e a perguntar porque é que o mundo não podia ser puro, bondoso e inocente como ela é... Eu adoro a Khaleesi porque ela adora abraços, tenho mesmo uma conexão com ela, de todos os animais que já tive, ela é especial, segue-me para todo o lado,  e ontem quando fui dormir cedo ela estava pronta para abdicar de comer para ir dormir aos meus pés, aguentei-me um bocado, esperei que ela comesse enquanto de vez em quando ela virava-se para trás e tentava perceber se eu ia ficar ali á espera dela.

Demorei a fechar os olhos, ás vezes é mais forte que eu, fiquei agarrada ao telemovel á procura de um vestigio da minha irmã, a menina que criei como se fosse mãe dela, a menina a quem mudei as fraldas, adormeci e dei de comer e que hoje virou-me as costas porque diz-me que eu fui muito castradora na vida dela... Obviamente que sim, fui tao castradora por ter sido agredida no lugar dela, por ter- me roubado dinheiro e ter apenas dito: "podias apenas ter pedido", por ter querido toda a vida que ela fosse a minha melhor amiga, e ter sido tudo uma construçao da minha cabeça...

Fiquei ali uma meia hora a pesquisar, a tentar encontrar um facebook, um instagram, qualquer coisa, só para ver como estava o rosto dela agora, se ela já sorria, se estava feliz...

Amanhã faço 37 anos e tudo o que tenho dentro de mim é um buraco de quem foi porque quis e de quem a vida decidiu levar, as saudades sentem-se como socos no peito, murros no estomago, sim, sinto que estou a evoluir, vou ganhando mais vontade para fazer as coisas mas ainda me arrasto para todo o lado, com os olhos pesados, sem vontade de sorrir. 

Parabéns a mim, por mais um dia

 

28
Jul25

Ciclos

Carina Martins

Eu não consegui salvar a minha mãe.

A minha mãe é infelizmente um exemplo da violência doméstica, mas antes de chegar ao ponto em que estamos, deixem-me explicar-vos quem era a minha mãe. A minha mãe era uma mulher linda, de cortar a respiraçao, se eu não estivesse a falar de uma mulher que existiu no mundo a 30 anos atrás a maioria das pessoas pensariam que ela submeteu-se a procedimentos estéticos, rosto bonito, angelical, olhos redondos negros e grandes, pestanas fartas e curvas, um cabelo negro, longo e forte, pela naturalmente morena, alta, esguia, cintura fina, angelical, a mulher mais generosa que eu conheci em toda a minha vida. O problema é que a minha mãe caiu no mundo e foi preza, atraiu os piores seres humanos que farejam a ingenuidade de qualquer ser humano que se atravessasse a sua frente, sanguessugas que não contentes por espalhar o mal sugam a alegria de viver do mais bonito dos sorrisos, esta é resumidamente, a história de vida da minha mãe.

Violada pelo meu avô repetidas vezes em Angola e nas restantes tratada como uma escrava, sem poder viver a juventude, acurrentada aos afazeres domésticos de alguém que não cansa de ser servido, menosprezada e despejada mais tarde para um casamento arranjado com o meu pai, carregado de traumas por causa da guerra, levado de Cuba á força e obrigado a cumprir serviço, á primeira vista um homem contido, reservado, até timido mas com um sorriso bonito... Dentro de casa outra história.

A primeira vez foi em Angola ainda, o meu pai estava a pintar a casa nova, eu tinha 4 anos, a minha mãe ainda era bonita e tinha luz, e eu queria entrar nessa memória e arrancá-la dali e ser e a melhor amiga dela, guiá-la, fazê-la feliz, mas como dizia o meu pai pintava a casa, entretanto faz uma pausa para beber um café e deixa as latas de tinta abertas, azul do mar, eu gostei da cor e fiquei a olhar para ela deslumbrada, peguei num pincel e comecei a pincelar as paredes, a achar que agora estava tudo a ficar ainda mais bonito naquelas pinceladas incertas, foi essa a primeira vez que vi o esgar de raiva do meu pai, que vi aquele homem doce e contido transformar-se num monstro, ele agrediu-me, bateu-me, até o braço se cançar, a minha mãe começou a chorar desesperada e foi espancada logo em seguida, corremos para o hospital e a seguir para casa dos meus avós, que pouco tempo depois descartaram-se de nós como se fossemos lixo, "as desculpas do homem sao sinceras, coitado, ele esta traumatizado com a guerra".

Tiraste-me a minha mãe, e mais do que todas as vezes em que me agrediste, essa é a unica coisa que eu nunca te vou perdoar, eu conhecia o brilho da minha mãe, e vi o coração mais bondoso que alguma vez conheci despedaçar-se e partir-se para sempre, vi aqueles olhos ficarem tristes, as costas curvarem-se e a cabeça baixar para toda uma existencia passada a servir os outros.

O meu sonho sempre foi levar a minha mãe comigo, mal pude saí de casa e comecei a perceber o que era uma vida normal, mas a minha mãe não quis vir comigo, a minha irmã também não, apenas passados uns anos em que perdi o contacto percebi que eles tinham-se divorciado, e entretanto, já era tarde para tentar intervir porque ela já estava com outro homem miserável que mais uma vez arrancou a minha mãe dos meus braços.

É engraçado que todos os homens que fizeram parte da vida da minha mãe me odiavam, todos, um por um, tenho o coração perto da boca e á minha frente nunca mais, nem uma palavra contra a mulher que ela é, mas hoje, estou cansada, tenho 37 anos feitos daqui a dois dias, e sao 37 anos a lutar e a dizer a minha mae: vem viver comigo, ainda ha tempo. Ela ja nao tem saude, nem energia, nem coragem, nem vontade, a minha irmã não quer saber, ninguém quer saber, e eu adoeço, dia após dia.

28
Jul25

Domingos

Carina Martins

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"Anima-te" disse-me o Bruno ontem, em meio a algumas macacadas pelo caminho, ele está sempre feliz, não é um escudo, não é uma defesa, ele está apenas sempre feliz, o Bruno é uma pessoa boa e ama-me, mas faz mais ou menos parte do "rebanho", consegue abstrair-se das coisas e viver.

"Anima-te" diz-me ele e eu penso que não quero que ele seja como eu, ninguém que eu ame merece carregar esse peso, penso para mim "como se fosse fácil" mas não digo-lhe absolutamente nada, faço um sorriso forçado e sigo a sentir o vento que já se sente mais suportável ás 20h da noite á beira da praia.

Ainda há imensa gente na praia, as notícias "algas afastam turismo no Algarve" não me parece muito verídica já que são 20h e ainda vejo imensa gente no areal, nos restaurantes, nos passadiços... Imagino quão imcomportável estaria esta pequena praia a meio do dia, com o solo mais quente, gente aglomerada a morrer um pouco ao sol sem espaço para passar entre toalhas, o belo passatempo de nada fazer.

Desculpem-me mas se é para voltar a ter um blogue vou ser eu mesma, e de facto nunca percebi a lógica de ficar imóvel a tostar ao sol por todo um dia, sem um livro para ler, apenas o "dolce fare niente" que nunca foi algo que de facto apreciasse. As pessoas apenas estão ali, nem parecem reflectir sobre absolutamente nada, estão quietas, paralizadas, a apanhar sol para dizerem que estiveram no Algarve.

Por incrível que pareça não havia ninguém com uma coluna de música ligada ao máximo, que bom, ainda assim sinto a falta do inverno, ouvir o mar bravo, observar o movimento das ondas, as gaivotas, o silêncio... 

Seguimos caminho para o mesmo canto de sempre, descobrimos um lugar que nem toda a gente conhece e onde podemos soltar os cães para eles correrem livremente, todo ladeado de rochas por isso eles nem tem por onde fugir, seguro, tranquilo, mais nosso no inverno, quando não nos deparamos ninguém que tenha elegido o espaço para fumar erva...

A minha cadela foi resgatada de uma situação de abandono e violência e tem pavor a pessoas, por isso é que escolhemos estes espaços só para nós, para além de que não temos que lidar com a soberba humana de achar que os animais não fazem parte de um espaço natural, 15 minutos a sentir a areia nas mãos, a água fria do mar, a correr e a fazer de tudo para parecer feliz pelo menos para eles, é tudo tão curto para eles, quero-os felizes, ninguém tem que ser contagiado com a minha visão negra das coisas.

Há todo um areal extenso, enorme, onde os animais não são permitidos por norma e as pessoas podem estar, mas meia duzia de turistas seguiram-nos á descoberta e a nossa paz acaba num estalar de dedos, olham para nós antes de pular rochas a baixo para ficarem perto de nós, sorriem-me, mas desculpem, eu não devolvo, eu estou absolutamente cansada do ser humano no geral, e fizemos 15 minutos a pé para estar sozinhos, quando um grupo de acéfalos achou que podiam estar conosco sem nos conhecerem de lugar algum, obviamente que o ambiente estava intragável e acabaram por sair, eu sei que a praia é de todos, mas reparem, nós esperamos os concecionarios fecharem, tivemos o dia todo de folga e esperamos por uma hora precisa para que os caes se divertissem, percorremos 15 minutos entre rochedos e dunas para chegar aquele lugar para o momento para o qual esperamos o dia todo ser estragado por alemães curiosos, well done.

O Bruno disse-me, não prendas a cadela as pessoas tem que aprender a respeitar o espaço das outras, mas na minha cabeça imaginei a cadela morder um turista, ele a atacá-la e eu a transformar-me para defender a unica coisa em que ainda acredito na minha vida, a inocencia de um animal, é uma cadela de porte pequeno, 12 kilos, não tem porte para provocar grandes danos mas sou eu que quero salvaguardar o meu dia na medida do possivel, estou cansada, aliás, exausta de lutar.

Soltamos os cães novamente, deixamo-los desfrutarem de alguma liberdade, o Bruno entretido a fazer videos e eu a respirar ar puro e a observar a natureza, passado um pouco decidimos ir caminhando até ao carro á beira da água, para sentir o fresco da água do mar que sabe tão bem no meio deste calor, uma senhora sorri para nós, traz um cão ao colo envolto numa toalha, deve ter estado na água, há poucas pessoas de quem eu goste nesta vida, mas as que gostam de animais tem o meu sorriso de volta, deixo a Khaleesi socializar um pouco, o Mickey não é muito dado a socializar com outros animais, cheiram-se e estão ali as duas muito a medo, trocamos 3 dedos de conversa, agradáveis, a minha interacção saudável que não tinha em semanas, despedimo-nos e seguimos. Senti-me um pouco menos sozinha, alguns sorrisos são reais, poucos, mas ainda vai acontecendo...

Reparem, a minha depressão dura a uns 2 meses, voltou em força, não sou de me queixar de barriga cheia, cresci pobre, aprendi a dar valor a coisas pequenas, mas tantas coisas tem acontecido, e eu raramente consigo sorrir, mas na ausencia de sorrisos procuro por paz, migalhas de alguma calmaria que esse Deus de quem toda a gente fala ache que eu mereça...

 

27
Jul25

Dias

Carina Martins

Alguma vez sentiram vontade de morrer?

Eu já, inúmeras vezes ao longo da minha vida, algumas vezes tentei mesmo levar ávante, outras, limitei-me a viver com uma tristeza que transbordava e que muitas vezes culminava com ataques de choro e desespero.

Ultimamente, a unica coisa que acalma a dor que sinto, á noite, quando todos os pensamentos surgem, é pedir a Deus que me leve, que me leve numa noite de sono, sem que eu perceba, e prolongue o unico momento do meu dia que me dá alguma paz. Ultimamente tenho dormido mal, tenho pesadelos que só reforçam os pensamentos, as preocupações e as angústias que me deixam desperta até que as lágrimas me cansem, acordo cansada, sem vontade de tomar um banho, de me arranjar ou de fazer o que quer que seja.

Já não preciso de despertador para acordar, durmo pouco, acordo sobressaltada, são 6h da manhã e penso que podia aproveitar que ainda não há quase ninguém na rua para levar os cães a dar um passeio, com sorte, ainda há uma brisa fresca, ainda vou sentir o vento e ver o mundo sem que as pessoas despontem mais um dia para tornar tudo escuro e envolto em negrume.

Não acredito em Deus, e francamente tenho inveja de quem acredita, isso deve dar alguma motivação para viver, alguma esperança, mas é por não acreditar nele que lhe peço tantas vezes que me leve, afinal, é isso que ele sabe fazer não é? Levar os bons.

Também não acredito nas pessoas, e talvez tenha sido isso em primeiro lugar que me tenha feito deixar de acreditar em Deus, chamamos-lhe de forma arrogante, aos seres humanos, a espécie dominante, queria ver um homem enfrentar um leão sem artefactos, queria vê-lo a sobreviver no meio de uma selva, despido de lamborguinis, ferraris, roupas de marca, relógios de nixo, perfumes caros, despido sobretudo de soberba, queria vê-lo do alto do seu nariz a ser a espécie dominante.

O ser humano, aquele que se gaba de ser racional, de ter o poder de pensar, mas pensa? Será  que uma dona de casa pensa quando um dia numa ida ao shopping lança um esgar de raiva para uma miúda mais nova? Será que um homem que nunca deu um chute numa bola mas que é fanático por futebol pensa quando diz que o Cristiano Ronaldo é a pessoa mais importante do mundo, será que ele pensa no que diz enquanto a mãe dele que se sacrificou para que ele hoje tivesse uma vida estável convalece no quarto ao lado cansada e doente? Será que algum homem que assobia para uma adolescente que vai a falar ao telemóvel com a CPCJ porque a irmã fugiu da instituiçao pensa? Perdoem-me, mas raciocinio para que? Pensam? Ou apenas usam o minimo da capacidade de raciocinio para fazer o minimo no mundo?

Acordam, tomam banho, bebem café, lavam os dentes, vão para o trabalho, desempenham meia duzia de tarefas em modo automatico durante 8 horas, chegam a casa, se forem homens sentam-se, se forem mulheres continuam tudo em modo automatico, até chegar o momento de dormir, e ignorar, porque pensar cansa, e esquecer, o cao que atropelaram e deixaram á berma  de uma estrada, a colega que ficou a trabalhar a dobrar para poderem fumar um cigarro,  mas lembram-se de falar, sobretudo de falar mal, de falar da vizinha que discutiu com o marido outra vez, da colega que trouxe roupas impróprias para o trabalho, e assim dormem, poucos minutos depois, com vidas vazias, olhares ocos, corpos em modo automatico, almas apodrecidas...

Então talvez, só hoje, eu aventure-me a sair de casa e levar os cães que me mantém viva ao longo destes anos a passear, mas, respiro fundo, t-shirt larga, auscultadores nos ouvidos sem nada ligado porque isso significa que as pessoas pensam que eu não as posso ouvir, e os homens acham que nós temos que os ouvir quando eles despejam lixo em meia duzia de palavras sobre o nosso corpo, que na verdade, eles pensam que é deles, não sorrio, não olho nos olhos, não como fazia antes, coloco um escudo que me protege de um mundo negro, sinto o vento, vejo o sol a nascer e pergunto mais um dia a olhar bem no fundo dos olhos dos meus cães, onde está Deus porque eu não o vejo, acho que nunca o vi...

E talvez, só talvez, um dia eu perca a cabeça e grite para as pessoas, voces ganharam, o meu corpo é todo vosso para desdenharem, de voces mulheres que me olham feio, de voces homem que me querem á força, do homem que me violou, das pessoas que me quiseram forçar a ser mãe, do mundo que me quis dizer com quem eu deveria ter sexo, o meu corpo morto, desfalecido, vazio, é vosso, porque a minha alma já foi, algures perdida no tempo, tomem-no, fiquem com ele, não foi isso que sempre quiseram?

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