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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

20
Ago25

O estigma com a líbido feminina

Carina Martins

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Há não sei quantos anos, um gajo machista ao quadrado decidiu inventar que as mulheres tinham menos libido do que os homens, e colou, colou porque provavelmente quando esse boato foi lançado ao acaso as mulheres tinham de obedecer aos homens, levar porrada era normal, contraceptivos eram obra do diabo e empregadas a dias para quê, mais valia casar. Obviamente que colou até com as próprias mulheres porque que mulher quer ter relações sexuais nessas condições? Mas aos homens colou porque dava jeito, primeiro, porque elas não podiam dizer que não, depois porque assim eles tinham uma desculpa, não que precisassem dela, para traí-las sem consequências para nada.

Entretanto as coisas mudaram, mas num Portugal pequenino a grande maioria das mulheres ainda são, e muito, submissas; dentro da maioria das casas, são elas que cuidam de tudo, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, ainda trabalham para além de tudo isso porque os homens, coitados, são uns aleijados, ou então vêm com a desculpa dos trabalhos braçais e de força. Bem, eu nunca vi uma mulher usar-se do “pequeno” pormenor da gestação e do parto para aproveitar-se e ficar no sofá a ver a bola, porque isso seria claramente aquilo que um homem faria. Aos neandertais do século XXI dá-lhes jeito falar dos trabalhos braçais, da força requerida; se forem a reparar, a maior parte, ironicamente, não tem fôlego para subir um vão de escadas sem ficar exausta, tem um perímetro abdominal maior do que o de uma grávida graças à diária cervejinha, são os mesmos que mandam bitaites nos jogos de futebol sem nunca terem encostado o pé numa bola, ou cujo exercício físico mais extenso que fizeram foi empurrar o carro quando ele avariou. Dito isto, haja libido que sobreviva a um ambiente de terror destes.

Claro que lhes continua a dar jeito dizer que as mulheres têm menos libido; na maioria das famílias de “bem” e com uma grande reputação, os machos alfa (sarcasmo) fazem uma chamadinha 5 minutos antes de terminar o trabalho para darem um pulo ao motel mais próximo, pagam 200 ou 300 euros por uma hora, apesar de terminarem o serviço em 5 minutos, e vão para casa a dizer: “desculpa lá, Maria, trânsito, já sabes, agosto”. A “Maria” muito provavelmente sabe, mas até compreende que alguém cobre 300 euros ao “Zé”, já que nem ela tem vontade de lhe meter as mãos.

A “Maria” caiu no velho conto: estudar, namorar, casar, trabalhar e ter filhos; na família dela não se falava de sexualidade e ficou chocada quando uma amiga lhe disse que se masturbava. Respondeu com um: “Eu? Ai, eu não preciso cá dessas coisas.” A amiga riu-se, abanou a cabeça e seguiu, e a Maria respeitou as regras sociais, que são sempre mais impositoras para mulheres do que para homens.

A questão, aqui, agora fora de sarcasmos, é que, para a mulher explorar a própria sexualidade, até para os dias de hoje, é precisa uma certa dose de rebeldia, porque rótulos de “putas” até as Marias desta vida têm, basta respirar, mas nós, aquelas que decidiram ser livres e não seguir padrões, nós somos as loucas, as tresloucadas, para variar, claro. Tal como acontecia há 200 anos, um orgasmo feminino é comparado à histeria, e o primeiro vibrador não surgiu porque algum homem nos quis fazer feliz, mas sim porque ele o viu como a cura para a dita “histeria”.

Histeria é um termo usado muito frequentemente por homens e às vezes pelas próprias “mulheres”, aquelas que são contra o nosso próprio progresso, para descrever as nossas emoções, porque, claro, sentir é algo que é inerente às mulheres e, quando demonstramos que sentimos, estamos a ser “mulherzinhas”. Exemplos? Reparem num jogo de futebol (btw, detesto futebol, mas acho que é uma excelente maneira de reunir energúmenos e fazer-lhes um teste de QI): homens aos berros, aos uivos, a vaiar, com cervejas na mão, frustrados, alguns até choram, outros festejam aos pulos; tudo muito bonito e ninguém critica. Agora substituam a bancada e coloquem público feminino num concerto, exatamente com o mesmo tipo de comportamento. Já sabem o que vão dizer sobre isso, certo? “Olhem-me para aquela cambada de histéricas aos pulos, não têm uma loiça para lavar?”

Triste, certo?

Mas reparem nisto: enquanto as coisas estão longe de estar evoluídas, como tanto se diz, por outro lado têm surgido mulheres na nossa sociedade que há muito perceberam que serem felizes era mais importante e seguiram essa máxima, rejeitando imposições sociais, enquanto “homens” com H pequeno, do alto dos seus narizes, continuam a não querer ou a esforçar-se minimamente para satisfazer as mulheres, julgando que elas não precisam de ser satisfeitas. Esquecem-se de que todos os estigmas sociais têm um preço a pagar, e por isso, de facto, as estatísticas mostram que as mulheres traem cada vez mais!

Não consigo deixar de me rir pela ironia que isto carrega: ora, a soberba da ala masculina (não generalizando) é tanta que acham que as mulheres não traem porque não têm vontade; os programas de incentivo à natalidade continuam a distorcer as coisas e a tentar aparentar que as mulheres só fazem sexo por questões meramente de procriação (excitante… só que não); tudo o resto é pecado, mas silêncio, só para as mulheres.

Era preciso fazer um estudo social, porque estas aves raras que criam leis, que regulamentam x, mudam aqui e permanecem acolá, ou seja, o governo, esquece-se de que o fruto proibido é o mais apetecido; pelo menos é assim que se rege o desejo. Não podemos controlar as nossas vontades, desejos, não podemos controlar pensamentos vagos que nos surjam pela cabeça; podemos controlar o que fazemos com eles. O problema é que já não queremos controlar esses desejos, até porque era só o que faltava; os homens nunca o fizeram, porque é que nós haveríamos de o fazer?

Retiram a educação sexual das escolas — irónico. Quando eu tinha 13 anos, há muitos anos, mais precisamente há 24 anos, tive educação sexual, formação cívica e, de toda a inutilidade que é o nosso ensino, foram das poucas aulas úteis que tive; fizeram-me compreender muitas coisas. Não fiquei uma miúda depravada, perdi a virgindade com 22 anos, dei o meu primeiro beijo pouco antes disso; sim, de facto, tocava-me todos os dias (detesto a palavra masturbar, parece que só está associada aos homens), em segredo. Tive poucas amigas para falar sobre o assunto, mas sabia bem falar abertamente sobre o prazer feminino, sempre soube que tinha bastante libido, mas, para minha surpresa, muitas amigas minhas também. Mas, como dizia, é irónico retirarem a educação sexual das escolas, sobretudo quando as miúdas estão tão desenvolvidas aos 13 hoje em dia, algumas até parecem maiores de idade; quando sabemos que os miúdos começam a atividade sexual mais cedo e que a infância deles não foi nem nunca mais será, infelizmente, como foi a nossa: uma verdadeira infância e não uma entrada precoce na idade adulta. E os pais, ainda assim, querem retirar a educação sexual? Resta-me rir; nem me vou alongar muito nesse assunto, vou ficar à espera das consequências do facto de os portugueses serem todos uns púdicos daqui a uns 5 anos; acho que é tempo suficiente para voltarmos a falar deste assunto e comprarmos bilhetes para o circo.

Eu dizia que o fruto proibido é o mais apetecido, certo?

Ora, tirem o cavalinho da chuva, porque as mulheres traem, e muito, e cada vez mais; as mulheres são mais discretas, pensam mais com a massa encefálica e depois deixam o desejo comandar. E não é porque tenham menos desejo, sabem? É porque são inteligentes, porque percebem cada vez mais o seu potencial, a independência e os estigmas que lhes quiseram colocar forçosamente na cabeça. Relógio biológico, menos libido, instinto materno — desculpem-me, mas isso são tudo conversas de chacha inventadas por barrigudos de cerveja na mão, no seu sofá quentinho; é que uma mulher que acredite que tem opções dá muito trabalho, é preciso conquistar!

16
Ago25

Um coração bom que precisa de ser contrariado

Carina Martins

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Trabalhei o dia todo, estava aqui  pronta para escrever sobre um tópico completamente diferente, até que de repente noto uma mensagem da Gabi no meu telemovel, nomes diferentes para proteger toda a situação, abro a mensagem e vejo: "Hello girl, do you know anything about Daniela, she's not reading me since 1 August", e de repente, tenho vontade de ir a correr para a rua e pedir que alguém dê-me um estalo com a maior força possível, aquela miúda fez-me mal, ajudei-a de todas as formas possíveis e imaginárias, caí numa depressão, deixei de acreditar nas pessoas definitivamente, e de repente, dá-me uma facada nas costas e ainda assim, aqui estou eu, passados 3 meses, preocupada com alguém de quem francamente cheguei a ter medo.

Mas que grande estúpida que tu és Carina, que grandessíssima burra, pega já no teu coração e deita-o fora porque estás avariada, és demasiado boa pessoa para este mundo de merda, para estas pessoas alheias a tudo, mas desta vez não vais deixar, desta vez NÃO!

Depois de estar 30 minutos á procura da Daniela, desisti, respirei fundo e pensei: desta vez NÃO! Ela não merece, segue a tua vida, já perdeste um ano inteiro a tentar ajudá-la e ela cuspiu em tudo o que fizeste por ela! Larguei o computador, decidi não responder á Gabi, com uma pessoa como a Daniela todo o cuidado é pouco e infelizmente esta foi uma daquelas situações que me doeu tanto, que não quero se quer que ela se lembre que eu existo, que a Daniela esteja bem mas que esqueça o meu nome e que eu existi na vida dela, a dor ainda existe, esta ferida é uma das tais, que eu nem se quer vou deixar sarar, para que esta burra não se esqueça que neste mundo virado do avesso, não há amigos.

O meu coração bom ás vezes precisa de algum controlo

15
Ago25

Entre o Calor das Chamas e o Frio Humano

Carina Martins

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Os fogos fazem-me chorar, dá-me a ligeira sensação que este ano começaram mais tarde, certo? Vamos a meio de Agosto, vejo pessoas a lutar sozinhas, sem bombeiros em redor, penso no meu Simba quando era vivo, no medo que senti porque morrer queimado deve ser das piores coisas, e vejo a natureza a arder, obra do "ser humano" e apetece-me chorar, é das poucas notícias que ainda tem algum impacto em mim.

Olho para as florestas densas envoltas em vermelho e cinzas e penso em quantos animais não estarão desesperados por ali a lutar pela vida, o ser humano é um lixo, desculpem, mas é, sim, os incêndios acontecem por mão dos incendiários mas a preocupação ambiental dos portugueses é nula, eu lembro-me de fazer a reciclagem desde as campanhas de incentivo, devia ter uns 13 anos, mesmo sem ser ainda vegan, com essa idade comecei a reduzir na carne e no peixe, porque comecei a ter a noção do impacto da pecuária no nosso meio ambiente e obviamente também do sofrimento dos animais completamente desnecessário para satisfazer os nossos requintes de prazer.

Tenho 37 anos, e desde os meus 13 que levo uma vida consciente que tenho que proteger o planeta, a maioria das pessoas não ganha consciência uma única vez ao longo das suas vidas, limita-se a aceitar aquilo que foi imposto socialmente sem aprofundar absolutamente nada, sem questionar absolutamente nada, estudar, de preferência na área que os paizinhos escolheram, casar, ter filhos porque é o que dita a lei, comprar casa e ficar a pagá-la até morrer, e é isto, com umas cervejas e tascas pelo caminho enquanto a "Maria" faz a janta, no meio de tudo isso não há espaço para pensar, segue-se tudo em modo automático, ninguém é genuinamente feliz e quando digo que os portugueses têm um QI estupidificado, não quero dizer que as pessoas são naturalmente burras, quero dizer que as pessoas gostam de ser burras e por isso viram costas ao conhecimento.

Eu já me preocupava com os fogos mas desde que vivi no interior e vi de perto o medo, e senti o calor das chamas a aproximarem-se fiquei mais consciente, mais consciente ainda da chacina que é um fogo, pessoas que acham que podem chorar quando acabaram de deixar o cão acorrentado sem possibilidade de fugir, lágrimas de gente oca que só chora pelo próprio umbigo, chorem á vontade porque não comovem a mais pequena célula do meu corpo ou alma, choram porque sentiram medo mas esqueceram-se do medo, da dor, do abandono e sofrimento que causaram deliberadamente a outro ser vivo porque vivem na bolha de um espécismo de que vocês são os mais importantes, viva ao ser humano que é mais digno e importante, e vejam lá o tamanho da sua nobreza que foge com o rabo entre as pernas de um fogo sem dispender 5 segundos para desacorrentar um cão que não soube o que é liberdade a vida toda e que agora vai ter a sua alma livre não sem antes passar pela dor mais atroz. Viva o ser humano que julga-se tão importante e nem é capaz de sentir empatia pela dor alheia, a ciência criada pelo próprio comprova que os animais sentem dor, dor física mas também dor da alma, que bom que o ser humano é racional, mas esperem, onde está a aplicação da razão num puro acto de cobardia?

No reino animal, até as formigas, o mais pequeno dos insectos anda em bando, organizadamente, constroem filas, seguem pelo seu destino, umas quantas com comida as costas 3 vezes maior do que os seus pequenos corpos, entreajudam-se, não há hierarquias, não precisam porque entendem que o bem de uma é o bem de todas, fazem pontes com os seus corpos para outras passarem se for preciso, mantém-se vivas e unidas, e portanto, não posso chamar o ser humano de forma alguma de formiga, o ser humano não passa de uma maçã podre que foi crescendo e corroendo com o resto da árvore, e hoje é uma praga que está descontrolada. Porque aí está até as irracionais formigas sem ter a tão aclamada razão humana, entendem o básico dos básicos, entreajuda e empatia, enquanto que o ser humano é o único que até á própria espécie ataca e prejudica.

Há anos que vemos incendiários a colocar fogo ás florestas e qual é a pena de prisão? 2 ou 3 anos? Onde estão as pessoas mortas no combate ao fogo, a morte de centenas de animais, a destruição de espécies, mais um roubo da fauna e da natureza que nos dão o precioso oxigénio, onde está responsabilização por isso? Por famílias que demoraram anos para construir algum conforto e de repente vêm-se sem abrigo?

Para mim um incendário deveria levar pena perpétua, para mim a acusação é de tentativa de homício, pela tentativa de matar mais um pedaço de um mundo que pertence a todos mas do qual poucos cuidam, para mim, pessoas que deixam animais á espera da morte deveriam ser igualmente condenadas, e sim, eu já vi um fogo de perto, sei que dá medo, mas a minha própria mãe doente, sem mal conseguir caminhar foi capaz de pegar nos animais que tinha que não eram poucos, meter-se numa carrinha e fugir, portanto não há desculpas, eu não sei onde está a consciência e o raciocínio do qual esta gente tanto se gaba, porque eu era incapaz de encostar a minha cabeça na almofada á noite e adormecer sabendo que deixei alguém para trás para morrer porque não me apeteceu.

Na Serra da Estrela, lembro-me de o João arranjar forma de evacuar todos os animais, cavalos, cães, porcos, galinhas, cabras, todos evacuados, as pessoas uniram-se e conseguiram, há poucos casos, mas existem uns quantos casos de pessoas que não julgam do alto do seu nariz que o corpo delas é o único que sente e importa.

Estes fogos são culpa dos incendiários? Sim. Mas também alastram-se com esta facilidade tal devido ao aquecimento global, quando eu tinha 15 anos os verões não eram assim, e não eram mesmo porque da minha infância lembro-me eu bem, haviam picos de calor? Sim, mas não a estes extremo em que todos os dias tenho que ligar á minha mãe para lembrá-la de andar sempre com água fresca e a bomba da asma. 

Tal como já disse uma vez, o Mundo não é uma merda, uma merda são as pessoas que que o destróem e tornam esta vida pesada por conta sempre do mesmo, ganância, egoísmo e ás vezes apenas pura maldade.

13
Ago25

Levar o que não é bom

Carina Martins

Ontem liguei á minha mãe, e já que aqui é o lugar onde eu desabafo tudo o que me vai na alma, ontem, de entre milhares de vezes, desejei que ele morresse, sabendo que no fundo, bem no fundo do meu coração ele seria daquelas pessoas que não fariam absolutamente falta nenhuma para a humanidade, mas eu explico.

Ontem estava a falar com a minha mãe, e ela anda abatida, tem fases, eu sei que as minhas chamadas fazem-lhe bem, por tudo o que passámos juntas, eu sei que eu sou aquela filha, a tal, e talvez eu tenha o direito a dizer isto quando a minha irmã borrifou-se completamente para a saúde e vida da minha mãe quando em um dia prometia reunir-se comigo para debater uma forma de a tirar dali e no outro mudou de ideias e decidiu que isso dava muito trabalho, fiquei sozinha outra vez, mas não desisti. Ontem, ela estava abatida, a minha mãe não é uma pessoa saudável, está doente, cansada e deprimida, enquanto a animava e a fazia rir um pouco a voz dela foi melhorando, até ao momento em que o anormal do meu "padrasto" chama-a a ir fazer o lanche porque o gajo é aleijado (ironia).

Rapidamente a minha mãe começa-se a despedir de mim e prepara-se para mais um dia de longos 63 anos a servir palermas a quem o mais comum mortal chama de homem, um de entre outros milhares que veio com promessas e falas mansas, que prometeu ser diferente de todos os outros mas que tratou a mulher que eu mais admiro em toda a minha vida como uma escrava, como uma utilidade.

Á anos que tento tirar a minha mãe dali, e ela não quer, ás vezes quer mas rapidamente muda de ideias, ás vezes desabafa, mas em todas essas vezes eu peço do fundo da minha alma que se deus existe que o leve e que a deixe ser feliz.

12
Ago25

A minha sogra - sem clichês

Carina Martins

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Fazem-se piadas cliché com este assunto, as pessoas têm sempre algo a dizer sobre isto e, sobretudo para as mulheres, já percebi há muito tempo que é bastante comum terem tido um ou dois problemas "territoriais" com a sogra.

Quando falei sobre a minha sogra publicamente — não estou a falar de escrita, porque aqui a probabilidade de ser compreendida é maior — refiro-me às vezes em que me pronunciei sobre este assunto em pessoa; a vasta maioria das vezes fui mal interpretada.

Quando conheci o Bruno, vi inicialmente uma família estável, vi a minha vida a compor-se. Tinha acabado de sair de uma situação complicada. A primeira vez que os conheci, a minha cunhada, a Raquel, ficou deslumbrada comigo. Eu fazia aulas de body pump três vezes por semana na altura, vivia praticamente para o desporto, e ela não se cansava de dizer que adorava ter um corpo como o meu. Eu vinha nervosa, tinha precisamente acabado de sair de uma aula, portanto trazia um top e umas leggings. O Bruno estava todo contente por me apresentar aos pais, os pais pareciam felizes. Ouvi comentários do género: “Desta vez escolheste bem, ela é uma mulher, não é uma menina como a outra.”

A outra era a Tânia. Ela e o Bruno tinham namorado quatro anos até que ela o traiu — esta foi a história que conheci na altura. O Bruno não falava sobre isso porque sentia vergonha por ter sido traído e tinha terminado a relação dois meses antes de me conhecer.

Fomos ao casamento da prima do Bruno semanas depois. Eu nunca fiz questão de me casar, muito menos assim: luxuoso, com mais de 300 convidados, rios de dinheiro gastos num dia com pessoas que, na grande maioria, provavelmente nem os noivos conheciam bem — como eu. As red flags começaram a aparecer aí. Levei um vestido pérola com alças laranja coral, um decote em V, saltos altos a combinar. Obviamente que trazia umas sandálias rasas na bolsa, porque nunca me senti confortável em saltos altos; duas horas depois já as tinha calçado. Dei-me ao trabalho, em casa, de fazer uns ajustes ao vestido porque achava o decote demasiado aberto. Eu não tinha peito nenhum nessa altura, mas sentia-me desconfortável. Fechei o decote e estava tudo bem, mas topei a mãe do Bruno a comentar com ele que eu vinha demasiado decotada para um casamento. Esbocei um “oh”, encolhi os ombros e segui o meu dia, ignorando esse pormenor.

Eu tinha passado a manhã toda a maquilhar a família do Bruno, não cobrei um tostão por isso. Tenho formação nessa área e gosto mesmo de transformar as pessoas e dar-lhes um novo ar. Fiz-lhes o cabelo também. Elas ficaram todas contentes e seguiram caminho. As irmãs e a mãe do Bruno nunca foram muito de cuidar da imagem e, nesse dia, eu notei, pelo olhar, que se sentiam mesmo bem — e isso deu-me gosto genuíno. Já fiz amigas minhas perceberem que eram bonitas e que só não sabiam como usar essa beleza. Eu sempre fui assim, sempre gostei de evidenciar o melhor que as pessoas têm. Sempre que vi mulheres bonitas mas sem autoestima, gostei de lhes mostrar que podia ser diferente.

Esse dia foi exaustivo, mas feliz. Voltando à vida normal, foi aí que o conto de fadas começou a desmoronar. Eu tinha grandes expectativas. Sou filha de violência doméstica e a guerra em Angola separou toda a minha família — todos emigrados: Suíça, Londres, França e até Brasil. Os que permaneceram em Angola foram sempre os mais velhos; tentem dizer a uma pessoa de idade que tem de sair do país onde cresceu porque é perigoso… é difícil. A maioria não vai embora e prefere morrer ali.

Nunca tive um senso de família unida e feliz. Até certo ponto mantivemos uma normalidade: tirávamos fotos de família, passeávamos, divertíamo-nos — até o meu pai começar a descontar em mim e na minha mãe todas as frustrações. Por isso, via na família do Bruno a hipótese de ter uma família estável e feliz, onde me sentisse bem. Os pais do Bruno têm muito dinheiro, vivem bem, muito à conta da quantidade de casas que têm e alugam. Mas nunca me aproximei do Bruno a pensar nisso; aliás, eu nem sabia até alguns meses depois de nos relacionarmos e ver o estilo de vida que eles tinham.

Facilmente isso começou a ser um entrave. Quando perceberam que eu estava numa fase delicada da minha vida, que contava os tostões, comecei a ser vista como inferior, como um projeto de solidariedade. Embora nunca tenha aceite um tostão de ninguém, faziam questão de ir para restaurantes caros e convidar-me; eu tinha de recusar, pois não tinha como pagar. Eles ofereciam-se para pagar, mas eu dizia que não gostava de ostentar uma vida que não tinha e que, por isso, preferia ficar em casa. Eu e o Bruno começámos a fazer programas mais simples e dos quais, francamente, até gostava mais. Passávamos os fins de semana a conhecer Portugal, fomos aos passadiços do Paiva, comíamos lá, caminhávamos e conversávamos. A mim, a natureza sempre me fez muito bem — não tinha de estar preocupada com etiquetas e aparências, podia ser eu.

Desenganem-se: eu sei fazer de conta que tenho, eu só não gosto. Já fui colaboradora em eventos e tinha de socializar com homens que jantavam o valor da renda da minha casa. Sabia como falar, como me vestir, como me comportar. Muitos desses homens faziam-me propostas: “Vais ter uma vida de rainha, vou dar-te tudo o que quiseres, não vais mais precisar de trabalhar.” Mas, para mim, a privação de liberdade e a dependência financeira sempre me assustaram, então recusava educadamente.

Quando os pais do Bruno começaram a perceber que a minha família não cabia num postal, que o meu irmão tinha autismo, que a minha mãe se tinha prostituído e que o meu pai era um ex-militar traumatizado e violento, tudo descambou. Empatia? Zero. Eu abri a minha vida pela primeira vez em muitos anos, mas arrependi-me profundamente. Quando ouvi pela primeira vez a frase: “Desculpa, mas nunca poderemos conviver com o tipo de pessoas que constituem a tua família”, decidi que também não fazia questão de fazer parte daquela família. Afinal, eu não tinha nada de que me envergonhar. A minha mãe é a pessoa mais generosa e nobre que alguma vez conheci, e, se aquela mulher lutadora não era digna de frequentar a casa dos pais do Bruno, eu muito menos.

Convivia menos; ia para casa deles de vez em quando, para dizer que estava ali. O Bruno pedia-me desculpas e passou a frequentar mais a minha casa. Mas os poucos convívios que tinha em casa dos pais dele tornaram-se desgastantes. Quando a mãe dele descobriu que eu era pobre — pobre mesmo, naquela altura — começou a olhar para mim como uma empregada. Achou que eu tinha de passar a ferro, estender a roupa e ajudá-la a arrumar a casa. Eu rio-me porque vocês não me conhecem, mas, quando perceberem que eu não me encaixo em papéis redutores e muito menos machistas, percebem a resposta que lhe dei na altura: “Não consegues que o teu marido lave um prato e queres que a tua nora se torne na tua empregada? Boa sorte.” Nessa altura até a irmã do Bruno ficou envergonhada e começou a discutir com a mãe, e no meio da discussão soltou-se uma frase: “Tu estás a fazer exatamente o que fizeste com a Tânia”, a ex do Bruno. De repente todas as luzes se acenderam na minha cabeça e percebi: a mãe do Bruno tinha-lhes destruído o relacionamento.

Fui conversar com ele e, quando acabou de me contar tudo o que tinha acontecido, mantive uma expressão de espanto, perplexidade e choque durante algumas horas. Pediu-me desculpas e disse que não me tinha contado antes porque tinha medo que eu me afastasse. Não fiquei chateada, mas combinámos que dali em diante iria haver verdade, não importava o quanto doesse.

Ao que parece, a minha sogra tinha desprezado a família da Tânia exatamente como fizeram com a minha. Falo sempre da minha sogra porque o meu sogro mais parece uma sombra dela que a segue para todo o lado sem a questionar. Mas adivinhem: a família da Tânia também era humilde, sem posses, mas feliz. A gota de água foi os meus sogros terem ido a uma celebração em que os pais da Tânia faziam 30 anos de casados e se terem retirado zangados uma hora depois porque, pelos vistos, não estavam a ter a atenção que mereciam. Os pais da Tânia pediram desculpa ao Bruno, mas explicaram que nunca mais haveria convívios em que a minha sogra estivesse presente.

Poucas semanas depois, descobri aquilo que, para mim como pessoa, sempre foi um grande ponto para medir a humanidade — ou a falta dela, neste caso. A minha sogra tinha comprado uma cadela, ficou uma semana com ela em casa e, como o pobre animal não nasceu ensinado a fazer as necessidades no lugar certo, ela, com vergonha de a devolver à loja, foi deixá-la num canil de abate. Nessa altura ainda se abatiam animais a torto e a direito só porque sim. O Bruno foi à procura da Nokas no canil, mas ela já lá não estava. Perguntou aos responsáveis se ela tinha sido adotada e eles apenas responderam que não. Os animais foram a causa da minha vida e são até hoje; nunca senti tanto nojo de alguém até aquela altura — nem do próprio homem que abusou de mim quando tinha 9 anos. “A tua mãe é uma pessoa má, desculpa-me”, disse ao Bruno. Mas ele concordou e baixou a cabeça. Eu disse-lhe que não tinha de se envergonhar disso, que não era culpa dele.

A partir daí foram só descobertas. Um dia descobri que o Bruno não tinha parte da orelha, e que a mãe, quando ele era bebé, numa daquelas crises de choro que os bebés têm, arrancou-lhe a orelha à dentada, numa espécie de burnout. Descobri também que ela tinha tentado subornar o diretor da escola para que os filhos passassem com notas exemplares, que metade do prédio não lhe falava por atritos com questões territoriais, que as colegas de trabalho não lhe falavam porque ela andava sempre de baixa, pois o médico de família era uma boa cunha. Lá ia a minha sogra de férias para Espanha com a desculpa de uma depressão. Descobri que a família também não era perfeita e que tios, primos e até avós tinham deixado de lhe falar. Que amigos do Bruno se afastaram porque a mãe fazia questão de afastar dele qualquer pessoa que gostasse dele. Eram demasiadas red flags para ignorar.

Quando a mãe do Bruno começou a perceber o filho a distanciar-se, a passar cada vez mais tempo em minha casa, a preferir a minha “pobreza” ao luxo dela, em vez de levar uma lição para a vida — de que há coisas que não se compram — tentou comprar-nos uma última vez, oferecendo-nos uma casa ao lado da dela, conveniente para nos controlar. Automaticamente disse que não. Foi aí que eu e o Bruno arrumámos as nossas tralhas e fomos viver juntos, seis meses depois de estarmos oficialmente juntos. Por esta altura o Bruno já sabia tudo sobre mim, os podres e os bons. Por incrível que pareça, os dramas com a minha sogra ensinaram-nos que a verdade tinha de estar sempre em cima da mesa. Juntaram-nos mais do que aquilo a que se propunham — que era nitidamente separar-nos. Quanto a mim, era a primeira relação séria que tinha; tudo era novo, mas estava feliz.

Fizemos uma festa de despedida. A Jéssica e o Rui ofereceram-nos imensas coisas para a casa nova — um casal querido com quem até hoje mantemos contacto. Quando foi a parte de falarmos qualquer coisa, até porque íamos mudar de cidade e provavelmente não nos veríamos por muito tempo, disse que era uma fase nova da minha vida, que ia ser mais fácil para mim e feliz partilhar a vida com alguém. E aí começou a distorção da minha sogra, que disse que eu estava com ele pelo dinheiro. Encolhi os ombros e pensei: que dinheiro? Acabámos de te recusar uma casa.

Mudámo-nos por fim. Aí começou outra fase: eram dez chamadas por dia — não estou a exagerar. O Bruno começou a cortar e a avisar que estava a ser excessivo. Então, um belo dia, liga-nos a prima do Bruno a dizer que a minha sogra andava a dizer a toda a gente que o filho tinha morrido para ela. Não pudemos acreditar. Estávamos quase na faixa dos trinta e, portanto, é super normal que os filhos saiam de casa para casar e ter família. O Bruno ficou tão triste com aquilo que não falou com ela por um ano inteiro.

Quando retomámos contacto, ela fez-me um pedido de desculpas vazio. Quando terminou de falar, percebi que ela não tinha mudado e que, de facto, a máxima confirma-se: as pessoas não mudam. “Desculpa por tudo, eu excedi-me, mas o meu filho será sempre o meu filho, e eu serei sempre a mãe e ninguém me pode tirar esse lugar.” Fiquei incrédula. Mas isto é uma competição?, pensei eu.

Nesse dia estiveram em nossa casa na aldeia. Fomos ver os cavalos e animais da quinta de um amigo. A minha sogra veio às 8h da manhã e saiu às 3h da tarde. Para além de ter deitado o prato dela ao lixo, de ter visto o Bruno na cozinha e comentado “que homens não foram feitos para estar na cozinha”, imaginem uma snob que nunca soube o que é um aperto nesta vida estar na natureza, ver animais, lama e coisas menos dignas que animais fazem. Vejam só: a minha cunhada mais nova, que nessa altura tinha 11 anos, estava deslumbrada; até aos porquinhos fez festinhas. Por isso fartou-se de chorar quando foi altura de irem embora. Era suposto ficarem o dia todo, jantarem connosco, mas o conforto da casa dela chamava.

Quando viemos para o Algarve, então, aí as coisas escalaram. Para mim, o limite foi termos tido um azar e o carro começar a avariar. Acabámos por ter de o vender e comprar um chaço. Tudo bem, nunca liguei a aparências. Mas, entretanto, convenientemente, a minha sogra, que nunca ligou muito a carros, começou a enviar-nos fotografias em carros luxuosos, com frases do género: “Se fosses um bom filho, podias ter um destes.” Mais tarde, lembrou-se de que tinha ajudado o Bruno na compra do primeiro carro e pediu-lhe o dinheiro de volta — “já que já não estás comigo, não precisas ter nada meu”. Ela tinha, de facto, ajudado. O Bruno tinha 19 anos e pôs o que pôde do ordenado dele, que tinha juntado, e ela pagou o resto — dez mil euros. Ficámos a zeros porque eu ajudei-o a pagar, completamente a zeros.

A partir daí começámos a trabalhar como escravos para recuperar alguma estabilidade. Mas um belo dia decidi que aquela relação não me fazia bem. Tive uma conversa com o Bruno, disse-lhe que a mãe dele já me tinha feito mal, mas compreendia que ele era muito ligado à família. Percebi que tinha de cortar contacto de vez e foi o que fiz. Não falo com a minha sogra há mais de cinco anos. Ironicamente, eu gosto da família do Bruno. Tenho saudades sobretudo da irmã mais nova. Tantas vezes ficávamos tardes no quartinho dela, eu ensinava-a a maquilhar-se, dava-lhe conselhos. Tantas vezes servi de consolo para uma mãe totalmente inconsequente. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, da tarde em que, no meio de um convívio de família, a minha sogra reparou que a miúda, com 11 anos, que usava uns calções nesse dia, estava a ficar com estrias. A mim apareceram-me com 13. Ela decidiu gritar com a miúda à frente de toda a gente: “Olha-me para isto! Passas a vida a comer, agora ficaste com essa coisa feia no corpo.” Eu olhei para o Bruno incrédula, com uma expressão do género: mas o que é isto?! Fui falar com a Júlia, que estava farta de chorar. Trazia umas jeans e perguntei-lhe: “Posso mostrar-te uma coisa?” Ela disse que sim. Eu desci um pouco as calças e disse-lhe: “Apareceram-me com 13 anos. Eu sempre fui muito magrinha, mas como tenho tendência a ganhar peso na zona da anca, apareceram-me estrias de um dia para o outro e eu fiquei triste, assim como tu. Mas isso está fora do teu controlo, tu estás a crescer e é por isso que te aconteceu.” Expliquei-lhe que as estrias eram um reflexo da pele a esticar e a quebrar numa determinada zona do corpo. A Júlia sempre me viu como um exemplo de beleza e eu sabia que isso iria animá-la. “Como as tuas ainda estão roxas, passa este creme todos os dias que ainda podem sair.” A Júlia passou o creme religiosamente todos os dias e elas acabaram por desaparecer. Fartou-se de me abraçar e agradecer. Escusado será dizer que, desde o momento em que cortei contacto com a mãe do Bruno, a Júlia foi proibida de falar comigo. Falávamos às escondidas de vez em quando, mas sempre em tom triste — e isso foi o que mais me doeu.

Quando cortei contacto com a mãe do Bruno, fiz questão de lhe explicar o porquê, caso isso não fosse percetível. Escrevi-lhe uma carta enorme, despejei tudo o que me ia na alma e nem imaginam o bem que me fez. Foi terapêutico. Falei-lhe do Ano Novo em que juntei todos os meus tostões para comprar um vestido lindo na H&M, sem costas, em que ela se retirou da sala quando toda a gente começou a dizer o quão bonita eu estava e foi enraivecida chorar para o quarto. Falei-lhe das vezes em que a apanhei a olhar para mim no ginásio enquanto saía do balneário envolta numa toalha e ela me olhava com inveja. Enquanto escrevia, percebi que, resumidamente, tudo se tratava de ela disputar o meu lugar como mulher do Bruno — e fiquei chocada, porque de repente tudo fazia sentido. Foi aí que ele começou a contar-me coisas estranhas que lhe aconteceram na adolescência: como a mãe se esgueirava para o quarto de um adolescente sem bater à porta, apanhava-o a ver pornografia e fazia determinadas coisas (como é normal, julgo eu), e de ele, constrangido, pedir que ela começasse a bater à porta — mas ela nunca o fez. Como, algumas vezes, ela ter contado que tinha tido sonhos estranhos e impróprios com ele. De repente, a Tânia, a ex dele, a competição e o desprezo, os mesmos comportamentos que ela teve comigo, faziam todo o sentido.

Continuando pelo conteúdo da carta, falei na pessoa maldosa que ela era, sobretudo pelo desprezo pelos animais: “Na vida, sempre tive uma forma de ter certezas e confirmar a índole de alguém — e sempre o fiz a ver como essa pessoa tratava os animais. E tu és nitidamente má pessoa.” Como as filhas dela não sabiam que a Nokas tinha ido para um canil de abate, ela inventou que tinha dado o bichinho a uma colega do trabalho. Limitei-me a dizer: “Já é altura de contares o que, de facto, fizeste à Nokas.” Tinha de o fazer, tinha de a tirar daquela redoma de boa samaritana. A carta foi enviada para o WhatsApp da família que tinham criado e, por alguma obra de caridade, ela incluiu-me nesse grupo.

“Tu não amas o teu filho, tu não o queres feliz, tu queres que o Bruno esteja perto de ti, independentemente de qualquer coisa. E isso não é amor, é doença.” Terminei a dizer que a presença de alguém que me queria mal não me fazia bem e que, por isso, tinha de me proteger.

Obviamente que o Bruno vai falando com a mãe, umas duas vezes por mês, mas ele próprio afastou-se. Combinámos que ele não contaria absolutamente nada dos nossos planos e muito menos da minha vida pessoal. Muito antes de isso acontecer, ele tinha-me dito: “Eu jamais vou deixar que a minha mãe destrua este relacionamento. Até porque eu amo-te, e à Tânia não amei o suficiente para tentar.”

A minha vida melhorou a 200% desde que deixei de falar com ela — sem exageros. Hoje, a miúda que ela conheceu, que vivia a contar os tostões, é a pessoa que muitas vezes segura a estabilidade aqui em casa. Hoje tenho o meu próprio negócio, vivo bem e aprendi o peso que tem uma pessoa tóxica na nossa vida.

A minha sogra, fiquei a saber pelo Bruno, tentou fazer terapia. Depois de lhe ter sido diagnosticado um transtorno psicológico, ela desistiu, ofendida. Quem era o psiquiatra para lhe dizer uma coisa dessas, ao fim e ao cabo? Preferiu fugir à verdade. Continua a espalhar infelicidade por onde passa. A minha cunhada foi para fora mal pôde e a Júlia acabou agora mesmo de fazer 18 anos — o que significa que não deve faltar muito para ser feliz. Até hoje mantém a Laura como melhor amiga, em segredo, porque a minha sogra tentou afastar a Laura da vida da Júlia, pois, pelas palavras dela, “ela tinha de conviver com pessoas da classe dela”. O meu sogro vive em depressão e em modo alienado por medicação. É a velha máxima: os bons a fazer terapia para lidar com os maus. Sei que, provavelmente, pelo Porto, as pessoas me conhecem como a mulher mundana que levou o filho dela para a má vida. A minha sogra é mesmo assim: distorce as coisas ao máximo. Mas, tal como lhe disse antes de cortar de vez, ela é aquele tipo de pessoa que acaba por revelar-se com o tempo. E tenho para mim que estas pessoas acabam muito sozinhas — uma solidão da alma, aquela que cavámos nós mesmos e na qual tentamos puxar os outros pelo caminho. Os que não caem acabam por perceber, quando o buraco já estiver demasiado fundo, do que se safaram. Para pessoas como ela, ou cais buraco abaixo com ela, ou és um ingrato. E o Bruno, lá pelo Porto, é o filho ingrato que podia viver no luxo mas escolheu amar.

O que uma mãe assim sente pelo filho não é amor, é posse, e, pelo que o psiquiatra disse, neste caso é pior do que isso: é a idealização de um filho como o homem perfeito, o homem educado e que respeita as mulheres que ela tentou criar na base do machismo: “as mulheres é que têm que cuidar da casa, as mulheres têm que ter filhos, a Carina tem que te obedecer e tens que gerir o dinheiro dela”; o homem que saiu com carácter e que pensou por si próprio antes de ouvir o que ela tinha para lhe dizer, sem questionar. Ironicamente, o homem que foi ensinado que as mulheres são lixo e que a única que ele deve respeitar é a própria mãe, foi o homem que curou os meus traumas de violência doméstica e com quem reaprendi a amar e a permitir-me ser amada. A minha sogra apaixonou-se pelo próprio filho — o filho que saiu do molde que ela fez para ele e hoje se tornou um homem — e é uma mãe questionável, que tentou ditar-lhe que profissão ter, com quem casar, de preferência uma mulher submissa que ela pudesse manipular. Querer os filhos por perto é normal; o que não é normal é querê-lo perto a todo o custo: infeliz, miserável, fracassado, mas perto. Porque a posse é apenas isto: querer ter, querer possuir de toda e qualquer forma; já amar, às vezes, envolve a liberdade — e a liberdade é difícil de entender para quem não ama.

 

11
Ago25

Se calhar pus-me a jeito

Carina Martins

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Hoje, terminei o trabalho cedo e decidi ir até á frutaria comprar algumas coisas que me faltavam em casa, estava a tentar ligar á minha mãe pelo caminho quando um tipo com ar dos seus 20 e poucos e óculos de sol lembrou-se de me cumprimentar, eu nunca o tinha visto na minha vida, portanto não respondi. Pela postura percebi que ía insistir, dito e certo, arrancou do carro que estava no estacionamento e devagar quando chegou até mim perguntou se eu queria boleia, eu disse que não, perguntou uma segunda vez, eu desejei ter uma arma na bolsa mas em vez disso e comecei a digitar o numero da esquadra mais próxima, eles nao atenderam logo mas eu comecei a fingir que já tinham atendido, o gajo pirou-se e nem me disse mais nada.

Eu que ando cheia de pessoas e só saio de casa quando é absolutamente necessário suspirei e reforçei a minha teoria: sair só quando é necessário.

Á uns tempos estive a ver como funciona a lei em Portugal, gás pimenta não é permitido, digam isso a uma pessoa que viveu num bairro por 20 anos e quando era miúda era perseguida por ciganos com apetência a menores, obviamente que andava com o meu gás pimenta, a nossa lei é uma piada, mas preferia levar uma repreensão da polícia, pagar uma multa ou o que lá fosse a ser violada por um pervertido. Pelos vistos a lei prefere que andemos com uma navalha, isso já é permitido desde que não tenha mais que 10 centimetros de comprimento, eu não sou estúpida, dez centímetros causam danos, 10 centímetros matam, mas não sei manusear navalhas, não sou uma criminosa, sou apenas uma mulher que nunca se sentiu comfortável em andar sozinha na rua. Mas imaginemos só que eu era uma criminosa? A lei é fantástica, então, o gás pimenta que deixa alguém imobilizado por falta de visão durante alguns minutos é ilegal, mas perfurar alguém desde que sejam os benditos 10 centímetros está tudo bem, alguém confirma-me que  a lei foi feita por criminosos e para criminosos?

Mas a minha pesquisa pela lei não era por isso, ultimamente a zona onde vivo anda mais perigosa, ciganos que roubam casas e vá-se lá imaginar até animais domésticos, uma amiga do meu marido foi espancada por membros dessa gente de bem por apanhá-los a roubar, acolhi o Thor durante uma semana e descobri que o pobre bichinho tinha fugido de um acampamento deles, depois encontrei uma família para ele mas andava cheia de medo porque eles estão a poucos metros de mim e tinha medo que alguém me tivesse visto com o bichinho ao colo e lhes fosse meter aos ouvidos, sabem bem que esta malta nunca anda sozinha, quando ainda tinha o Thor um belo dia uma foi-me bater á porta, ouvi as batidas e escondi o bichinho no quintal que era o único sítio onde ninguém o ouviria, era uma cigana gordíssima mas suja e com um bebé no carrinho, daquelas que andam todas de preto, veio pedir dinheiro, tive o cuidado de abrir só o gradeamento da janela e não abrir mesmo a porta, mesmo assim abri pouco o suficiente para olhar para ela, falava com a gaja, dizia-lhe que nunca tinha dinheiro em casa e topei-a a olhar-me para dentro de casa e a observar tudo, a varrer tudo rapidamente com os olhos e portanto perguntei-lhe se precisava de alguma coisa, a gaja agradeceu e foi-se embora mas não gostei daquilo, passou-me vagamente pela cabeça que venham estas mulheres com a desculpa de pedir esmola para tirar a pinta á nossa casa e mandarem os maridos roubar.

As casas que tem sido assaltadas tem muros baixos, o que me vai safando é que tenho o muro de dois vizinhos ainda antes de conseguirem chegar ao meu, e os nossos muros são altos, portanto, dá-me um certo alívio mas mesmo assim tomamos todas as precauções. Estou a pensar seriamente em instalar umas câmaras de segurança no quintal, um dia aconteceu-nos algo muito estranho, chegámos a casa e demos de caras com um guarda sol bem robusto num quintal com um muro de 2 metros de altura, como é que aquele guarda sol tinha ido lá parar? Ok, estávamos num dia ventoso mas fomos bater á porta dos vizinhos e todos tinham os guarda sóis bem assentes no chão, temos uma casa que tem dois andares e ainda conseguimos ver do nosso quintal mas fica a uns bons 10 metros da nossa, não disse nada ao Bruno mas achei estranho.

Resumindo, o clima anda estranho, muito estranho por aqui, e começo sentir cada vez mais a necessidade de me proteger e resguardar, fui ver se havia alguma forma de obter porte de arma, bem, não havia, os bandidos não se importam muito com isso, e nós que levemos com o perigo de haver pouquissima polícia na nossa zona e fiscalização para esse tipo de coisas, só podia ter uma pressão de ar, mas pasmem-se, tinha que andar descarregada e dentro de um estojo, esperem lá que eu quando estiver com medo de um criminoso vou dizer-lhe: "dá-me um minuto, preciso de carregar a minha pressão de ar e tirá-la do estojo, se a policia vier, tu não viste nada disto porque eu não te podia mostrar"... Acabei por adquirir uma réplica bem realista de um 38, mas a frustração de não poder tê-la carregada faz-me rir da palhaça que me sinto neste sistema português.

Mas qual é a conclusão disto tudo?

Se calhar pus-me a jeito, a t-shirt larga e as calças de fato de treino que vesti hoje para ir á frutaria deveriam ser demasiado provocativas, eu é que já não sei vestir-me de forma decente, talvez da próxima leve burca, afinal os muçulmanos se calhar é que tem razão e mostrar a cara é demasiado chamativo, mas ironias á parte, que bonito, uma mulher vulnerável na rua que nem um gás pimenta pode usar, que nem a porcaria de uma pressão de ar pode levar carregada na rua, porque a lei, a lei está lá para os violadores, para os assediadores de plantão que só estão bem em causar-nos este espírito de insegurança, tirei a matrícula do gajo mas abanei a cabeça e pensei: para quê?....

09
Ago25

Sonhos e esperanças renovados

Carina Martins

 

Hoje, terminei bem o meu dia, estou aqui a preparar-me para dormir, já mais tarde do que o esperado, passei a noite anterior cheia de cólicas, mal dormi, não se pode dizer que tenha sido propriamente produtiva hoje graças a isso, andei a arrastar-me cansada, mas dever cumprido.

O Bruno foi ter com um amigo a um bar de Karaoke, eu detesto a zona em questão, muito mal frequentada, cheia de turistas bêbados que vêm em Portugal um pardieiro sem regras, portanto, novidade das novidades, decidi ficar em casa.

Mas recebi a melhor noticia que podia ter recebido, ele está bem, o Thor está bem, o pequeno que não me deixou dormir por uma semana inteira está bem, e afinal eu tomei a decisão certa, e isso é menos um peso nos meus ombros.

Entretanto, antes disso eu e o Bruno conversamos e fizemos novos planos, estou entusiasmada como não estava á muito tempo porque por fim convenci-o a tentar o remoto, era uma mudança e liberdade incrível que ele também pudesse trabalhar a partir de qualquer lugar no mundo como eu.

Tudo o que vos posso dizer é que tomei uma decisão, e se tudo correr bem, dentro de um ano, serei a pessoa mais feliz do mundo.

08
Ago25

Inconsciente

Carina Martins

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Hoje tive um sonho estranho, é a primeira vez de em muito tempo que acordei assustada e suada.

Eu ía de viagem com uma rapariga que me tinha oferecido um pack fantástico para promover supostamente a empresa de viagens dela, era para as Filipinas, estranhamente essa rapariga era a personagem principal, a psicóloga, da série "Diabo em Ohio" na netflix, e digo estranho porque eu gostei bastante da personagem em questão.

Talvez exactamente por isso no meu incosciente eu tenha transformado essa personagem numa pessoa manipuladora e assustadora, até porque, na minha vida, as pessoas que me pareciam mais confiáveis foram as que mais me desiludiram ou dano causaram. A Suzzane na personagem Diabo em Ohio era uma psicóloga generosa, empática, responsável e com os seus próprios traumas. O tipo de psicóloga que qualquer pessoa quereria ter.

Voltando ao meu sonho, eu chego ás Filipinas, no aeroporto, e começo a achar tudo estranho porque vejo raparigas lindíssimas a irem ter com a Suzanne a quem ela supostamente também fez essa oferta, no aeroporto o motorista recolhe todas as nossas malas que tinham todos os nossos pertences, vamos a caminho do suposto resort e como não conhecíamos nada não achámos nada estranho no caminho até ver que estávamos cada vez mais longe de qualquer centro turístico.

Chegamos então a um edifício enorme que mais parecia um shopping mas sem nada em redor, entreolhamo-nos todas, entramos no edifício e quando damos por nós temos uma arma apontada, o motorista vinha com uma metralhadora, ao entrarmos encontramos um homem com aspecto asqueroso e que por acaso foi das pessoas que mais mal fez-me na minha vida, tanto, que nem vou mencionar o nome dele aqui.

No próprio sonho por essa altura senti o meu corpo morrer, olhei para a Suzanne enquanto nos tiravam os telemóveis e ela não sentia qualquer tipo de remorço, culpa ou empatia, apenas encolheu os ombros e com um sorriso cínico disse-me: desculpa, mas uma pessoa tem que se safar como puder. Respondi com um "claro" sarcástico e o sonho acabou aí.

O ponto desta história é que não é totalmente mentira, á 12 anos passava pelo pior momento da minha vida, algo demasiado pesado para falar aqui, á 10 anos atrás apresentava uma queixa na polícia e pedia protecção pois tinha acabado de fugir, a polícia arromba a porta da minha casa onde todos os meus pertences de valor tinham sido recolhidos, dinheiro, computador, maquinas fotograficas, tudo o que servisse de prova, lembro-me do militar da PSP perguntar-me: ele está armado? Eu encolhi os ombros e respondi que não sabia.

Ao entrarmos em casa vimo-lo tranquilo, a beber como sempre, com uma mulher ao lado, soube disfarçar na perfeição a surpresa por a polícia estar ali, ligou para ela e devia ser um código para que ela mantivesse todas as minhas coisas num lugar seguro, sempre ela... Obrigaram-nos a entregar as chaves da minha casa e a polícia aconselhou-me a fugir dali pois iriam haver ameaças e repercursões enquanto o processo andava.

Ela não está presa, ela teve um filho e mantém uma vida de fachada típica, marido, casa, filho e rotinas, desejei do fundo do meu ser que o filho dela tivesse nascido mulher e que sempre que ela olhasse para ela se lembrasse de mim e do que pode acontecer a uma mulher, mas nasceu um rapaz. De tudo, tudo o que passei o que mais me dói até hoje é que eu seria incapaz de fazer isso a outra mulher, mas ela fez comigo, ela foi a capa de uma oferta de uma vida melhor, com sorrisos, bem vestida, bonita, meiga, até ao dia em que cheguei e comecei a ser pelas palavras dela a pessoa mais burra, mais feia e mais desprezível. Ela foi aquela que viu tudo encostada atrás de uma porta, a observar, a anuir, porque desde que ela estivesse bem tudo o resto não importava.

São sempre as mulheres, desde as questões mais leves até ás mais duras de se ouvir, como a minha, eu antes acreditava na palavra empatia, mas o ser humano é de facto o único ser vivo a destruir a própria espécie, são sempre mulheres na maioria até no próprio machismo, antes eu pensava que o machismo vinha dos homens, hoje eu sei que não é verdade, quero dizer, há uma grande fatia, mas os meus 37 anos já me permitem dizer que a maioria do preconceito contra as mulheres vem das próprias.

Fiz escolhas para a minha vida que para uns podem parecer controversas, e sofri bastante até chegar á conclusão que a opinião das pessoas não me importava mais, nunca quis ter filhos, nunca quis ter uma relação monógama, decidi trabalhar em casa e ser a minha própria chefe, calei bocas quando abri empresa e comecei a declarar tudo, sou vegan, fiz voluntariado por muitos anos, escolhi isolar-me, criar o meu ginásio em casa, apagar redes sociais até porque já tenho a minha dose com o trabalho remoto todos os dias, fiz o curso em segredo em pleno covid enquanto recebia lay off por baixo de críticas da família do Bruno que dizia que eu era uma falhada, diziam que trabalhar não era num computador, hoje calei essas bocas porque tenho uma vida estável e ganho 4 vezes mais do que cada um deles, não saio á noite e sim houve uma altura em que fumava como uma chaminé porque estava em fase de habituação á minha nova vida, cortei determinadas pessoas da minha vida, fiz uma limpeza á minha vida social, muita gente ficou chateada pelo caminho mas levo muito á letra a frase: "diz-me com quem andas e eu digo-te quem tu és", entrei no yoga e na meditação e passei a preferir a natureza a sitios lotados de gente, já ninguém vê-me em shoppings, compro tudo online, cortei o cabelo que me dava pelas costas num long bob, já não me visto como uma miúda, saio de casa e levo umas calças pretas clássicas, uma camisa e uns sapatos de salto médio e não ando a sorrir e a cruzar olhares com as pessoas porque estava farta de sair para qualquer lado e ter mulheres a olharem-me de soslaio, obviamente que isso continua a acontecer sempre que saio mas hoje em dia com a postura que tenho facilmente essas pessoas percebem que estão á procura de problemas com a pessoa errada, andar no Jujitsu ajudou a trabalhar a minha postura corporal, tive que sair porque lesionei-me, mas aprendi muito. Não vou a salões de estética, faço absolutamente tudo em casa, unhas, cabelo, pestanas, cortes de cabelo, pintar, e ganhei jeito, trabalho muito com a minha imagem e nunca ninguém notou.

O bom da vida que tive é que aprendi que temos que ser desenrascadas e facilmente as pessoas olham para mim e pensam que sou uma princesinha que passa a vida em salões de estética, bem, não, eu tenho duas mãos e tudo o que eu puder aprender a fazer sozinha, não só por uma questão financeira como de independência, eu faço, á dois meses antes deste caos eu andava a fazer obras em casa, fi-las sozinha, pinturas, fechar buracos na parede, arranjar aparelhos, mas adivinhem, passei a vida a ouvir que sou uma princesa frágil, que não podia trabalhar em limpezas que isso era feio para uma rapariga bonita como eu, os homens dizem o tempo todo que nós precisamos deles, da força deles, da capacidade para fazer arranjos em casa e para defender-nos fisicamente, e aqui vem a velha questão: do que é que eu precisaria de me defender se não existissem homens? (risos)

Sabem o que mais me choca na minha história, voltando um pouco atrás, é que os homens enchem a boca em plenos pulmões para dizer que precisamos deles, mas o engraçado é que se não existissem pervertidos prontos para explorar mulheres a bem do seu bel prazer eu nunca teria passado por isso, há mercado, há procura, e nós continuaremos a ser olhadas como produtos enquanto continuarem a existir homens absolutamente nojentos a quererem desesperadamente satisfazer as suas necessidades acima de qualquer coisa.

Quanto ás mulheres e ás decisões que tomei na minha vida, adivinhem quem mais criticou, sempre que dizia que não queria ter filhos diziam-me que era menos mulher por isso, ocultavam-me factos da gravidez e romantizavam a questão como se a informação não estivesse disponível em meia dúzia de cliques, quando eu e o Bruno abrimos a relação, os homens pensavam que as "regalias" eram só para ele e as mulheres criticavam-me, se por um lado supostamente eu era um corno manso, por outro eu era uma mulher vulgar por ter feito essa escolha, mas o engraçado é que quando descobriram que eu era bisexual e na maioria das vezes apenas estava com mulheres, a história mudou de figura, deixei de ser uma P porque não estava com homens, mas os homens vinham ter comigo e dizer que o que eu fazia era contra a vontade de Deus, que relações sexuais entre mulheres não deviam existir porque não podiam fazer filhos. Quando descobriu que eu era vegan a minha sogra perguntou-me como eu ía amamentar, sim, riam-se á vontade, talvez se eu ficasse grávida o meu leite fosse de origem animal e eu não sabia, não consigo deixar de rir-me a pensar nisto, sobretudo porque ela já sabia que nem eu nem o Bruno queriamos filhos. O Hugo e a Vanessa decidiram meter o nariz nessa decisão, acabou mal porque por essa altura já não engolia nada ou deixava nada a remoer cá dentro, portanto, os pedidos de desculpas depois de tudo o que me disseram para mim não valem absolutamente nada, desculparam-se e disseram que estavam a passar por uma fase má, descobri que o Hugo não pode ter filhos, mas eles esqueceram-se que não sabem absolutamente nada do que passei e bem podiam envergonhar-se se eu saísse por aí a descarregar nos outros todos os traumas que levo desta vida. O Rafa um belo dia viu-me a acender um cigarro e decidiu sair-se com a belíssima frase: "O Bruno vai ficar a saber disso porque eu sou amigo dele", bem, nesse dia eu disse-lhe: "tu és amigo do Bruno á 2 anos eu sou casada com ele a 8, quando souberes o que é manter uma relação vais descobrir que a nossa dura á tanto tempo porque não há mentiras nem ocultações, tanto para o bem como para o mal", emburrou e nunca mais me falou.

Foi assim que cortar com pessoas que já eram tóxicas na minha vida acabou por acontecer naturalmente, não foi difícil porque as pessoas continuavam a dar-me dia após dia razões para me afastar, e a minha vida melhorou desde que decidi que se fizesse amizades seria por haver conexão e amizade em vez de aceitar qualquer pessoa na minha vida por pura carência.

Talvez o meu aspecto de menina mesmo com 37 anos faça com que as pessoas se sintam livres de dar palpites sobre a minha vida, sem mais nem menos, mas a verdade é que á muito que deixei de ser uma pessoa acessível, á muito que comecei a usar a máxima: "quem diz o que não quer ouve o que não deve", foi assim que aconteceu com um ex colega meu que dizia que "uma mulher que não quer ter filhos não é mulher", e eu perguntei-lhe se um casamento onde havia sexo de 6 em 6 meses com sorte era um casamento, atirei para o ar, mas pelos vistos acertei, porque ele ficou vermelho como um tomate, o irónico é que uns meses depois apanhei-o com uma acompanhante a entrar na carrinha, não quero usar um nome mais reles, mas ela estava sempre na rua numa cadeira á beira da estrada, e portanto, reconheci-a logo, acenei-lhe com um sorriso: "então Paulo tudo bem? Como estão os teus filhos?", no dia a seguir ele veio pedir-me para não contar aquilo a ninguém e eu respondi que não tinha por hábito meter-me na vida dos outros.

Apesar de tudo o que passei, hoje sou um espirito livre e foi precisamente a privação de liberdade que me ensinou a gritar a minha liberdade, e agradeço por isso.

07
Ago25

A beleza

Carina Martins

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A beleza, a estética, sempre foi algo com muita influência na minha vida.

Em Angola, era a menina bonita de olhos claros e pele bronzeada, cheguei a Portugal e no meu bairro fiz logo imensos amigos, toda a gente dizia que era uma maria rapaz com o rosto de um anjo, a minha mãe sempre fez questão que eu tivesse os cabelos longos e eu arranjava sempre maneira que ele não me atrapalhasse com uma longa trança. Passava tanto tempo na rua que as pontas ficavam douradas, isso agora está na moda, na escola serviam-me isso e mais coisas para o bullying.

Enquanto na rua era a menina bonita do bairro, na escola era a miúda pobre que não tinha dinheiro para roupas ou sapatilhas de marca, por isso começaram a chamar-me de tudo, palito, piolhosa, juba de leão, tudo muito engraçado pensam vocês mas era uma escola violenta e as ofensas verbais vinham sempre com as ameaças físicas que eram reais. Havia uma ambulância dia sim dia não naquela escola, mais para os rapazes, ás raparigas os bullys limitavam-se a dar uns pontapés ou puxar os cabelos e deixá-las estar. Detesto quando as gerações anteriores á minha ou muitas vezes até a minha geração (tenho 37 anos) fala do bullying com desdém "no meu tempo isso nem se chamava bullying" dizem pessoas cheias de anos ás costas mas com pouca sabedoria para verbalizar opiniões ocas, e de facto, nessa altura não se usava o termo bullying, mas isso era real e quase levou-me a acabar com a minha vida.

A única amiga que tive nessa altura chamava-se Ana, a Ana estava num processo complicado da vida dela, uma miúda com 13 anos violada pelo padrasto, a mãe obviamente separou-se do anormal e ficou só com a miúda e estava com imensas dificuldades, eu e a Ana andávamos sempre juntas, ela acabou por contar-me, a mãe ía buscá-la á escola e parecia muito feliz que a filha tivesse por fim uma amiga, até ao dia em que um grupo de miúdos encostou-me contra uma parede e começaram a bater-me para eu contar coisas sobre a miúda nova, eu não contei absolutamente nada, aqueles aprendizes de rufias não sabiam que eu levava porrada todos os dias de alguém bem mais assustador que eles. Infelizmente alguém de alguma forma ficou a saber e depois espalhou-se o boato de que tinha sido eu, maldade, e a Ana infelizmente não acreditou em mim e semanas depois estava a mudar de escola porque meia dúzia de pirralhos sem educação em casa resolveram que era muito engraçado uma miúda ter sido violada pelo padrasto, eles diziam que ela era mentirosa e demasiado feia para que alguém quisesse tocar nela.

Não condeno a Ana, ela tinha uma maturidade enorme para a idade mas também já sabia que as pessoas não eram confiáveis, fiquei triste e segui sozinha pela saga do bullying.

Uma cambada de miúdos que desde cedo foram ensinados a entrar no mundo do crime ameaçavam-me que iriam apanhar-me no caminho para casa e violar-me, eu era demasiado feia para tudo mas pelos vistos não para ser violada, o caminho para casa eram 20 minutos a pé mas passaram a ser 40 porque já não podia ir pelo atalho que ía antes, nunca senti-me feia, nunca o bullying afectou-me ao ponto de eu achar que eu era tudo aquilo que eles diziam, mas afectou a minha vida na medida em que andava sempre com medo, triste e desmotivada para ser uma adolescente normal e ter uma vida normal como envolver-me em actividades de grupo, fazer amigos, andar em zonas comuns nos intervalos...

Eu já sabia por essa altura que a beleza era muito subjectiva, mas aos meus olhos eu era bonita, eu adorava o facto de poder comer tudo e não engordar, eu adorava a minha cintura fina, o meu rosto, o meu cabelo, eu sentia-me bem na minha pele, eu só não me sentia bem no mundo. Nunca fui uma pessoa influenciável e talvez seja por isso que as palavras deles não tenham tido grande efeito na forma como eu me via, mas sim na forma como eu me comportava.

Imaginem o que é para uma miúda com pouco mais que 13 anos que foi violada aos 9 e que tinha acabado de descobrir que o que tinha acontecido não estava certo, passar diariamente pela dicotomia de ser humilhada, ameaçada e desprezada e ao mesmo tempo assediada, isso sim fazia-me confusão, se eu era tão desprezível porque é que não me deixavam em paz? Atacada muitas vezes com apalpões no refeitório da escola, a apropriação do corpo feminino a começar conosco mulheres desde cedo sem que muitas de nós se quer nos apercebamos disso, como se o nosso corpo lhes pertencesse, para humilhar, desprezar e usar também a seu bel prazer, isso provocava-me nojo, raiva, revolta, mas facilmente podia ser um desses miúdos que acabariam numa ambulância se respondesse. Mas muitas vezes respondi, confrontava-os exactamente com isso, comecei a ser sarcástica: "o que se passa na tua cabeça? Odeias-me, mas tens que me tocar?" os outros miudos prontamente começavam a rir-se  e a dizer "éh, a juba de leão gozou contigo" e rapidamente aconteciam então as ameaças, ás vezes a violência, mas eu nunca fugia, eu ficava ali, a encarar os mesmos anormais que anos depois faziam-me um pedido de desculpas oco e com interesse em nada mais do que sexo... É engraçado como meia dúzia de trocos no bolso, um trabalho e independência de repente nos tornam mais "bonitas".

Quando cheguei á vida adulta pensei que o bullying iria acabar, mas o bullying na vida adulta é mais hipócrita, mais dissimulado, mais politicamente correcto, o meu primeiro emprego a sério foi na Zara, explicaram-me que tinha que andar maquiada e foi nessa altura que aprendi a maquiar-me, antes disso só tinha trabalhado onde conseguia, atl's de férias, trabalhos muito mal pagos porque éramos menores. Começando na Zara e começando a entender o que era o atendimento ao público, nunca mais me arranjaram trabalho em o que quer que fosse diferente, eu queria fugir do atendimento ao publico, trabalhar num escritório, varrer ruas, fazer limpezas, eu nunca liguei a aparências, cortava as unhas, tirava a maquiagem e ía ás entrevistas: " a menina é muito bonita e demasiado qualificada para estar num trabalho destes" e eu pensava, claro, sou demasiado bonita para ter um trabalho decente e digno, tenho é que ser assediada todos os dias por clientes e ser desrespeitada pela minha chefe que quer que eu venda um rim ou levante a tshirt para conseguir fazer vendas!

Eu fui mais feliz a cuidar de crianças com necessidades especiais do que a atender qualquer snob arrogante que quisesse gastar muito dinheiro num par de calças, mas as pessoas não entendem mesmo que a beleza ás vezes é um grande entrave para sermos felizes.

A vida toda ou fui assediada ou desprezada, tive dificuldades no trabalho por ninguém ouvir o que eu dizia mas consegui destacar-me várias vezes, por mérito próprio, claro que haviam bocas de fundo que diziam que não era por mérito, o que só me entristecia pois se já tinha a vida complicada por visões distorcidas pela sociopatia social ainda tinha que lidar com a língua amarga das pessoas a retirarem todo o mérito das minhas batalhas.

Houveram alturas em que só queria um amigo, e alguém explique a neandertais que as amizades existem, tive um amigo, o Igor, ninguém acreditava que éramos amigos, mas por essa altura já tinha aprendido a ligar o botão do foda-se, a nossa amizade fazia-me bem, eu não era meramente uma cara bonita para o Igor, ele foi a primeira pessoa que leu de facto o blogue que tinha na altura, ele lia tudo e as nossas conversas no café depois de sairmos dos nossos trabalhos eram muitas vezes sobre isso, nessa altura ele dava-me motivação para continuar a escrever porque o entusiasmo com que ele falava de cada texto meu faziam-me sentir especial. 

O erro das pessoas está aí, pensarem que pessoas bonitas ou atraentes estão sempre á espera da validação dos outros, que tudo na vida delas é mais fácil e superficial, quando todos somos apenas seres humanos e queremos ser vistos.

Sabem, na altura que conheci o Bruno eu já tinha desistido de relacionamentos, tinha aceito que ía ficar solteira até ao fim dos meus dias mas estava tudo bem, eu tinha feito a minha paz com isso, eu tinha auto cuidado, auto estima e isso bastava-me, nunca precisei de muitos amigos, tinha a Isabel, e chegava-me. O Bruno conseguiu chegar até mim porque não foi apressado e notou-se que não vinha com malícia, não era um desses anormais convencidos que são engatatões de primeira cheios de ego, veio humilde, bem disposto, as piadas secas e ingénuas faziam-me rir, não me ofereceu mundos e fundos, não me pressionou nem veio com conversas cliché. Eu que já tinha os pés no chão e mesmo depois de o conhecer não fazia questão de uma relação disse-lhe que tinha um passado e que as coisas comigo tinham que ir com muita calma e sem pressões, e para os dias de hoje de facto as coisas foram indo bastante devagar, ele beijou-me apenas passados dois meses, mas mesmo depois desse beijo eu disse-lhe: eu sou uma pessoa complicada, sabes que eu não estou apaixonada por ti, gosto de ti e por isso estou disposta a tentar.

O mal de todos os relacionamentos é as pessoas acreditarem que uma vida em conjunto tem que ser construida em cima de uma paixoneta fugaz, eu nessa altura já tinha percebido que a minha mente cheia de traumas só se apaixonava fugazmente por imbecis, e por isso tinha aprendido a pensar mais com a cabeça, eu não andava a perder noites a sonhar com o Bruno ou a suspirar pelos cantos, mas vi um companheiro de uma vida á minha frente e não me queria arrepender por não lhe ter dado essa oportunidade. Uns meses depois nem sei quando me apercebi, lembro-me que foi numa ocasião banal, um jantar, um café, qualquer coisa banal e rotineira, recordo-me de olhar para o Bruno e perceber que amava-o e que já não via a minha vida sem ele, olhei para ele e sorri, e aqui estamos até hoje, 10 anos depois.

Costumo dizer ao Bruno que se um dia terminarmos nunca terei mais ninguém porque de facto foi no minímo uma sorte gigante que nós nos tenhamos cruzado, eu sei que não sou uma pessoa fácil, e digo-o de verdade, se algum dia as coisas acabarem não quero mais ninguém, e vocês pensam assim, uma mulher que se diz bonita e é relativamente nova dizer uma coisa destas? Já entendi á muito tempo que não preciso de relacionamentos para ser feliz, que o Bruno faz-me bem não tenho dúvidas nenhumas, mas são poucas as pessoas neste mundo que agregam em vez de retirar mais um pedaço de nós.

Mas a beleza como estava a comentar, é um entrave para tantas coisas, tantas, perdi a conta das vezes em que me faltaram ao respeito no meu posto de trabalho, numa sapataria cheguei a ter um empresário a convidar-me para ir viajar com ele por um mês, um anormal com uma aliança no dedo, dizia-me que ia pagar-me bem, prometeu-me mundos e fundos, nessa altura apenas fazia um sorriso forçado e mostrava a conta porque facilmente um pervertido que acha que qualquer mulher numa função pública está á venda se torna num anormal que decide humilhar-nos e fazer perder o trabalho por levar uma tampa.

Eu nunca mais pararia de escrever se fosse para relatar todas as situações que já vivi por causa da minha aparência, se por um lado o que penso não conta, por outro toda a gente acha que pode odiar-me ou assediar-me, mulheres no shopping que me olham com desprezo, homens que sussurram baixinho coisas absolutamente nojentas e adivinhem, eu não uso decotes, mini saias, calções, ando sempre com as minhas jeans e uma tshirt, oiço vezes sem conta que nós é que nos pômos a jeito, bem, eu deixei de me "pôr a jeito", hoje em dia faço as compras toda online, só saio de casa para o que é necessário, prefiro estar na natureza do que num lugar lotado de gente, os animais não olham para mim pelo tamanho do meu peito ou cor dos meus olhos, eles olham para a minha alma como nunca um ser humano foi capaz de fazer.

 

06
Ago25

Mente ocupada

Carina Martins

Pratiquei exercício, trabalhei, faltam-me alinhavar meia dúzia de coisas para hoje mas está tudo relativamente tranquilo, engraçado que o exercício tem um quê de masoquismo que me soube bem, e ali, enquanto todo o meu corpo gritava por estímulos diferentes, pela primeira vez de á muito tempo, não pensei em nada, quando acabei, suada, por fim surgiu aquela vontade esmagadora de começar a chorar, fechei os olhos, respirei fundo e pensei: ok e a seguir?

E é isso que tem sido os meus dias ultimamente, uma fuga á dor, uma tentativa de pelo menos ter orgulho de mim, a sensação de tarefa cumprida, vou-me movendo entre a dor, esgueirando-me dela, mas ela está lá.

Ontem falei com a minha mãe, ela sabe que fiquei magoada por ela não vir passar cá uns dias, eu sei o que é, o anormal que já não tenho idade para chamar de padrasto tem medo que ela cá fique, o que ele não sabe é que eu já desisti, são 37 anos a lutar para que a minha mãe saia desse ciclo, e eu simplesmente desisti dos outros para poder insistir em mim.

Daqui a dois dias ela faz anos,  e não vou saber como parabenizá-la, "parabéns mãe, por nunca teres parado para me ouvir um dia que fosse", "parabéns por teres sempre escolhido homens acima dos teus filhos", isto não sou eu a culpar a minha mãe, eu não sinto qualquer rancor pela minha mãe, mas ela tem destruído cada vez mais a própria vida e eu já tantas vezes quase deixei-me enrolar na mesma teia.

Tentei falar com a minha irmã pois não sou capaz de sustentar a nossa mãe sozinha, mas a minha irmã que já vai nos seus sábios 32 anos, só está bem a pedir dinheiro á minha mãe e tudo o que tenha relação com ela ter alguma empatia e generosidade é pura ilusão.

Vou-me mantendo ocupada entre devaneios e esperar que um dia destes aconteça algo de bom

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