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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

05
Ago25

Uma sombra

Carina Martins

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O corpo humano é impressionante, a mente humana é impressionante, porque ás vezes a dor de perder é tão grande que uma cala a outra, e hoje percebo a Rosi uma das poucas amigas que tive na vida, que se cortava para calar a dor, porque nunca tinha sentido isto desta forma.

Dizem que "deus" dá nos somente aquilo que podemos aguentar, "deus" rio, mas que Deus é esse que passa a vida a testar os nossos limites para ver até onde aguentamos, e se não aguentarmos? Há por aí tanta gente nova que não aguentou, que tem flores de mês a mês num espacinho de um ou dois metros, se a família não tiver ficado chateada, porque há pessoas que vêm o suicídio como um acto de cobardia e egoísmo, mas ninguém imagina o que é sentir uma dor tão grande que se perde a esperança no mundo e nas pessoas, sentir uma dor que dói e que trava o corpo e que já nada a pode acalmar, egoísmo, como o ser humano usa essa palavra tão levianamente, para mim egoísmo é a palavra que define a maior parte da sociedade hoje em dia, e falo dos vivos obviamente.

Kurt Cobain, por exemplo, era sensível demais, pensava "demais", pensar nunca devia ser demais, mas num mundo virado ao contrário pensar é um veneno que nos vai consumindo aos poucos.

A Rosi tinha inúmeros cortes espalhados pelos braços, mais do que eu pudesse contar, hoje em dia tem essas zonas tatuadas e nunca mais cortou por cima, para variar pessoas que tentam pôr um término á vida, são aquelas pessoas que não são capazes de fazer mal a ninguém, boa gente, raridade hoje em dia, pessoas que ficam genuinamente felizes com a nossa felicidade, sem competições, comparações ou inveja á mistura, ela foi das poucas mulheres com quem convivi e senti uma conexão genuína.

Não se preocupem, ocorreu-me vagamente cortar-me em pensamentos que se acumulavam rapidamente, mas eu nunca gostei muito de dor, seja ela qual for, acobardei-me e não o fiz.

Mas a dor da perda, é a maior dor que já vivi na minha vida, a de querer abraçar e sentir o quente, o coração, de querer proteger e não poder, de sentir que falhei de alguma maneira, que podia ter feito mais, a vontade ridícula de querer voltar atrás e fazer diferente, porque Deus dá-nos bem mais do que podemos aguentar, esse "deus" misericordioso de quem toda a gente fala...

Deus, sempre que penso nessa palavra rio de tristeza, e depois vem a raiva, Deus, digo eu em tom jocozo, vai-te foder com a tua "generosidade".

Tento varrer da minha mente a dor da perda, a toda a hora, e uns dias são melhores que outros, uns dias consigo fazê-lo mais facilmente que outros, mas independentemente disso, em meio a uma conversa, a uma chamada, a risos, há sempre aquela pequena sombra no nosso olhar que faz tudo desvanecer por um momento, a saudade dói, parece que o peito quer consumir o meu corpo e explodir para o chão, de tanto que dói, fecho os olhos, conto até 10, respiro fundo e continuo a fazer de conta que não estou, bem lá no fundo, triste, desiludida e cansada, feita em cacos que já não se colam, nunca mais.

04
Ago25

Relacionamentos

Carina Martins

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Entre marido e mulher não se mete a colher, diz a maioria das pessoas, e levam isto tão á letra que a minha mãe foi espancada e maltrada por anos e toda a gente fazia vista grossa, ninguém a tentou ajudar, ninguém mostrou saídas, hoje eu sou adulta, na altura obviamente era uma criança e não sabia como fazê-lo, quando tinha por volta dos meus 13 anos comecei a perceber que haviam saídas e a conversar com a minha mãe sobre isso, "vamos alugar uma casa e sair daqui mãe, levas me a mim e á Jéssica, nós ajudamos-te, fazemos tudo em casa, tu trabalhas e nós cooperamos, vamos ser felizes e sair deste ambiente", a minha mãe começava imediatamente a chorar porque não tinha coragem, e foi assim que permanecemos anos a acumular traumas e histórias para contar.

Eu já fui traída e também já traí, não se preocupem, a pessoa em questão mereceu, foi mais uma vingança depois de ele tê-lo feito, mas acho no mínimo engraçado que tantas traições mundo fora que eu tenha visto ao longo dos anos, muitas delas toda a gente sabe que acontecem menos a pessoa envolvida, sejam muito mais bem aceites do que o relacionamento aberto que levo á quase quatro anos. Somos casados, amamo-nos, existem regras, mas continuo a ficar surpreendida com o facto de que era muito mais aceitável que o Bruno desse-me um estalo do que o facto de termos uma relação aberta, pelos vistos só não se mete a colher quando se envolvem actos não consentidos de violência, quando uma mulher é submetida a um acto de covardia por parte de um homem, aí está tudo bem "não nos vamos meter" dizem os cobardes com medo de prejudicar as suas miseráveis vida, afinal, dá tanto trabalho fazer uma queixa anónima, ou oferecer apoio, ou saídas...

Mas amar a pessoa que está ao nosso lado e não acreditar em monogamia? Que crime ultrajante, meu deus, que pecado, deviamos todos seguir a mesma linha, olhar para outras mulheres enquanto vamos com a nossa mulher ao shopping, ou inventar uma reunião tardia no trabalho para ir a um Motel pagar por duas horas com uma acompanhante com quem fazemos coisas que jamais fariamos com a nossa mulher, porque não falamos com ela, porque a nossa sexualidade é um taboo no meio de um casamento para a vida, onde devia haver sinceridade e abertura em vez de se transformar numa prisão. Mas que ultrajante explorar a nossa sexualidade com a pessoa que amamos, que porcaria, meu deus, deviamos todos ocultar o facto de que somos animais racionais e esquecer que não fomos criados para a monogamia, vamos todos fingir que somos felizes e cuidar da felicidade dos outros. Vamos todos ser politicamente correctos e meter o nariz na vida dos outros, que a felicidade faz comichão, e muita.

03
Ago25

Gente que de gente tem pouco

Carina Martins

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Todos sofremos, mais ou menos, eu acho que a dor até certo ponto humaniza-nos, ultrapassando os limites que todos temos, acaba por nos arrancar o coração peito fora e deixar-nos um pouco mais distantes do mundo, como uma protecção.

A primeira vez que percebi que as pessoas são traiçoeiras e temos que manter-nos alerta em sociedade foi com a Sónia, estávamos em aula, eu não gostava muito de participar mas sabia as respostas, a professora fez uma pergunta e a Sónia sussurrou para mim: sabes a resposta? E eu disse: sim, é uma Cartola. A Sónia prontamente disse que sabia a resposta e ficou com os louros por sabe-se lá o quê. Claro que estamos a falar do ensino básico e de crianças mas lembro-me quão frustrada fiquei na altura e prometi para mim mesma que nunca mais iria dar respostas a ninguém, elas que descobrissem pelo próprio mérito.

Claro que os bullys da escola mais tarde no secundário só se interessavam por mim para copiar e tirar uma nota minimamente decente, por isso é que eu ía para a mesa á frente do professor, não que ajudasse em alguma coisa, as escolas do bairro eram violentas, os professores em grande maioria duravam 6 meses naquela escola, haviam ambulâncias todos os dias a entrar escola adentro e ás vezes essas ambulâncias eram para os próprios professores, portanto, claramente que os professores faziam vista grossa para os copianços. Eu sei que ser professor não é tarefa fácil sobretudo num lugar como aquele mas se não tinham capacidades para lá permanecer ao menos pusessem-se a andar, eu ficava revoltada como toda a gente fazia vista grossa, como os adultos, o próprio director faziam de conta que não viam nada do que ali se passava. Eu não tinha a possibilidade de mudar de escola e portanto continuava a ser assediada pelos outros miudos e a sonhar com o dia em que pudesse por fim ter uma vida normal.

Mas não estou aqui para falar dos tempos da escola hoje, estou aqui para falar da minha experiência ao longo da vida com os seres humanos, e o que me levou até ao ponto em que estou hoje.

Eu já sofri muito, e isso levou-me a hoje preferir estar longe de tudo e todos, o meu sonho é ter uma casa no meio do nada, com animais e natureza á minha volta, quero ir para Espanha. 

Sou muito critica mas no meu pequeno mundo, sempre aprendi que se não temos nada de bom para dizer mais vale estarmos calados, e muitas vezes aquilo que eu tenho para dizer ás pessoas não é bom.

No bairro onde vivia existia muita pobreza e sempre observei com espanto como as pessoas mesmo assim continuavam a reproduzir-se, aparentemente despreocupadas com o futuro dos filhos.

No bairro onde vivia os meus vizinhos ouviam o meu pai bater em mim e na minha mãe todos os dias, 1996, tempos diferentes, as pessoas nem sentiam vergonha disso, apenas eram indiferentes. Havia uma dicotomia estranha, enquanto que o meu sofrimento e o da minha mãe parecia ser indiferente, eu chegava a pedir socorro na esperança que alguém chamasse a polícia até ao dia em que parei de chorar e aceitei que passaria por aquilo até sair de casa, por outro lado esses mesmos vizinhos vinham-nos deixar panelas de comida á porta de casa, brinquedos, roupas dos netos que já estavam mais crescidos, todo o tipo de coisas para termos mais condições.

É no mínimo irónico dar brinquedos a uma criança que não pôde ter uma infância, que ficava em casa a tratar da lida doméstica, a cuidar do irmão acabado de nascer, a adormecê-lo, embalá-lo, a cozinhar, quando tinha tempo para olhar para eles e por fim pensar em brincar, eles já estavam todos destruídos pela minha irmã, eu nunca fui miúda de destruir brinquedos porque sabia que eles eram poucos.

Habituei-me a passar tardes inteiras no sótão onde escondia os meus brinquedos e os meus diários, quando podia passava lá o meu tempo, nessa altura era muito habitual as casas terem um sótão, a nossa tinha dois, e aquele era o meu refugio, havia uma pequena claraboia que iluminava todo o espaço. O meu pai também guardava lá os pertences dele, um espaço com baús, roupas de inverno, uma televisão mais pequena do que o computador onde escrevo agora, livros, cds, discos de vinil, entre outras coisas. Foi um dia que encontrei um livro sobre educação sexual, eu tinha por volta dos meus 13 anos, já tinham passado 4 anos desde que tudo aconteceu e eu sabia que era algo estranho, mas nessa altura tinha mais perguntas que respostas então foi algo que sempre mantive numa zona cinzenta da qual sabia que não podia falar com ninguém. 

Eu já tinha atravessado um momento em que os meus pais quase se divorciavam então tinha medo que contar pudesse fazê-lo novamente.

Comecei a folhear o livro, era um livro básico que explicava o que eram os nossos órgãos reprodutores, como funcionavam as relações sexuais e como as pessoas se reproduziam basicamente. Num outro capítulo explicava problemas de fertilidade de forma muito básica, tinha as típicas dicas para as mulheres levantaram as pernas no alto e deixarem-se assim por 10 minutos para conseguirem engravidar, mais á frente explicavam o que era o abuso sexual, nesse capítulo explicavam que as crianças não tinham relações sexuais com adultos e após perceber o que era uma relação sexual por fim fez-se luz na minha cabeça e comecei a chorar, chorei a tarde inteira, fiquei na cave a refolheá-lo vezes sem conta, um lado de mim sentia alívio pois já tinha respostas, mas por fim vinha a questão que permaneceria para o resto da minha vida: porque é que me fizeste mal?

Passei a sentir desprezo, nojo e repulsa por homens, não sentia inveja das minhas amigas que conseguiam os primeiros namoricos, era agressiva sempre que algum miudo tentava aproximar-me de mim, eu sentia nojo puro e genuino, a possibilidade de dar um beijo a um rapaz dava-me voltas ao estômago, um grupo de miúdas na escola começaram a espalhar que eu era lésbica, porque um dia a cumprimentar uma amiga sem querer demos um beijo no canto dos lábios, espalhou-se o boato 10 vezes mais exagerado, mas os miudos afastaram-se de mim, e eu agradeci.

Tive a minha primeira relação sexual, o meu primeiro beijo, todos no mesmo dia, tinha 23 anos, um anormal que trabalhava no shopping onde eu trabalhava fazia-me olhinhos discretamente porque tinha vergonha de mim, fui para a cama com ele mais porque queria por fim perder este trauma, não estava apaixonada, não sentia-me atraída por ele, nada, e fui directa com ele, era apenas isso, ele tinha mais 10 anos que eu, comprei uma lingerie bonita, arranjei-me, preveni-me até que percebi que o Rui ia levar-me para a cave dele com a desculpa de que a mãe estava em casa, e depois de dores agonizantes em que o meu corpo rejeitava toda aquela situaçao por fim consegui, tivémos sexo uma vez mais depois disso mas percebi que ele era péssimo, destrui-lhe o ego, e desculpem-me, mas a muito gosto, quando disse que podia folhear um livro inteiro sem dar-me conta que ele estava ali enquanto ele tentava fazer algo comigo que se assemelhasse a sexo, ele finalmente caiu do alto do seu egocentrismo e passou a respeitar-me.

Um lado de mim sentia-se feliz por finalmente ter conseguido, mas outro percebeu que aquilo tinha sido apenas um ser humano a usar outro, contudo, ele podia ter sido sincero comigo, tal como eu fui, eu contei-lhe dos meus traumas para que ele não achasse nada estranho, falei que não queria nada sério, fui firme e directa e ele limitou-se a manter a capa de "galã" e o nariz no alto sem mostrar a minima vontade de transformar aquele momento em algo minimamente especial, naquela altura fiz uma ginastica financeira para conseguir comprar uma simples lingerie em condições, e o acéfalo leva-me para uma cave, e não ele não foi agressivo nem bruto, mas as instruções mecânicas dele deram-me nojo, mais parecia que estava a folhear um livro de relações sexuais outra vez.

De qualquer forma percebi que relações sexuais não eram nada do outro mundo e que afinal eu era apenas uma mulher com traumas que nunca tinham sido resolvidos.

A partir daí comecei a relacionar-me mais facilmente, apaixonei-me, e tenho saudades de ter a capacidade de me apaixonar, é das melhores sensações que senti na minha vida, mas obviamente que percebi que a maioria dos homens são neandertais com pouca capacidade cognitiva e o fascínio, paixão ou o que quer que fosse começaram a desvanecer.

Obviamente que tive dificuldades em quebrar ciclos, cresci numa casa com violência doméstica e o meu pai era o único homem que tinha tido como exemplo na minha vida, não é preciso pensar muito para chegar lá, claro que os meus primeiros relacionamentos foram desastres autênticos com réplicas do meu pai.

Paixão é diferente de amor, paixão é fugaz, mas faz-nos sentir vivos, amor é real, dói e trás paz. O meu primeiro namorado ao final de dois meses começou a falar de filhos, eu tive um ataque de riso, e saiu-me disparado: eu não quero ter filhos, para além disso vês que mal consigo pagar as contas e vens com planos irresponsáveis ao final de dois meses?! Ele ficou pálido e a partir daí começaram as discussões, eu tinha ânsia de viver nessa altura, por isso já sabia desde esse momento que a nossa pseudo relação tinha os dias contados, então apenas desfrutei disso enquanto durou e segui o meu caminho quando percebi que ele tinha-me traído, não claro sem antes traí-lo de volta, antes de acabarmos disse-lhe: vai fazer filhos com a drogadita que comeste no algarve. Obviamente que na cabeça de um homem trair é algo banal mas ser traído afectou-lhe a auto estima, ainda que tenha sido mais uma vingança, o homem ficou com o ego afectado e de que maneira, nunca mais me dirigiu a palavra.

Nessa altura mudei, comecei a praticar desporto, a cuidar de mim, mudei a minha imagem, a menina que sofreu de bullying outrora agora chamava a atençao por onde passava, também tornei-me mais fria e comecei a pagar a toda a gente com a mesma moeda, quando saí da casa dos meus pais pensava que a maldade estava dentro de casa, caí no mundo e percebi que a maldade estava em todo o lado.

Ao longo destes anos passei por muito, muito mesmo, e por isso estes anos tem sido uma mudança em mim que para mim é mais do que óbvia, eu sou a menina bonita, misteriosa que passou a ser fria, a não ter cara de muitos amigos e a não levar desaforos para casa. Vou ao ginásio de boné e fones gigantes, sorrio a pouca gente, a rapariga da recepção é simpática mas os colegas, os homens para variar, esses nunca me viram os dentes, querem saber demais, olham para mim de forma diferente.

A vida dá-nos um sexto sentido apurado, aprendemos a defender-nos e a ler as pessoas.

Eu sei a causa da minha depressão, estes meses, tem sido um acumular de situações desagradáveis e algumas tristes, desilusões e recomeços, tal como foi a minha vida toda, e a esta altura já vi tanta maldade que comecei a evitar lugares com aglomerados de gente, á um ano apaguei as redes sociais, mudei de número, mudei de comportamento e aparência, cortei o meu cabelo longo, quis ter uma imagem mais assertiva, foquei-me nos treinos, comecei a trabalhar na minha postura e relacionamentos, e certo é que hoje, não tenho amigos, mas fiz a minha paz com isso.

Na verdade, eu nunca tive amigos durante este tempo todo, tive pseudo amizades, não permiti o desrespeito porque respeito-me e isso acabou com as "amizades", a minha vida resume-se ao trabalho, ao ginásio e a levar os meus cães á praia quando ela é só nossa, a ultima vez que decidimos sair á tarde em pleno verão no Algarve, deparamo-nos com musica alta, aglomerados de ciganos a provocar medo ás pessoas e decidimos ir embora.

Estou ansiosa pelo inverno, pelo tempo frio e é aí que parto em descoberta da natureza, sem a pobreza do ser humano a poluir os lugares de todas as maneiras possiveis.

A verdade, é que não gosto da maioria das pessoas, e elas também não gostam de mim. Desculpem-me, podem pensar que é arrogância, eu estou habituada a ser julgada a está tudo bem.

Eu sou uma pessoa boa, que trabalha, faz voluntariado, pago as minhas contas, tenho os meus impostos em dia, não gosto de mexericos nem de falar da vida de ninguém, quando deparo-me com um grupo de mulheres ou homens que querem falar mal de alguém eu sou aquela pessoa que se retira, não sonho com lamborguinis ou ferraris nem fico deslumbrada com isso, não compro roupas de marca e faço as minhas unhas, corto o cabelo e faço absolutamente tudo em casa, não vou a salões de estética porque detesto o ambiente, não sonho com exibicionismos e excentricidades, sou ambiciosa porque quero paz e recuso-me a trabalhar para alguém, passo a grande maioria do tempo a pensar em como fazer mais dinheiro e impulsionar o meu negócio, mas não para os outros, para mim. As pessoas olham para mim e tiram as suas conclusões rasas desde sempre, vêm a beleza, o auto cuidado, o amor próprio e ficam enraivecidas, a minha vida toda sempre que fui para lugares públicos fui assediada por homens e olhada de soslaio por mulheres, o Bruno comenta isso comigo a toda a hora, a inveja, a inveja descabida e ignorante. É engraçado que as pessoas olham para mim com esse desprezo, arranjo-me, maquio-me, uso roupas maioritariamente discretas, clássicas e nada exuberantes, tenho o cabelo cuidado e não vivo para comer, como para viver, por isso o meu  corpo está no lugar, e isso rende-me olhares de desprezo e eu só penso para mim, suem como eu suo todos os dias, parem de odiar-me por finalmente amar-me.

A verdade é que eu não gosto da maioria das pessoas porque elas ensinaram-me que não são confiáveis, não me sinto parte da manada, detesto futebol, detesto alcool, detesto festas populares com aglomerados de gente e fogos de artificio, não gosto de comer até arrebentar, adoro dançar mas é dificil como mulher dançar onde quer que seja sem ser mal interpretada então faço-o sozinha, em casa.

Não lambo as botas de ninguém para subir na vida, onde quer que eu vá sou eu, para mim o Cristiano Ronaldo não é mais importante do que a minha vizinha do lado que passa os dias a cuidar do jardim e a sorrir a toda a gente, na minha vida não existem elitismos e adorações patéticas por pessoas que nem sabem da nossa existência. Se passar por uma pessoa conhecida na rua, vou tratá-la como alguém normal, já conheci pessoas famosas  e sinceramente a maioria são egocêntricas e terrivelmente alheias a existencia de outros seres humanos.

No topo dessa lista para mim estão aquelas pessoas superficiais que nunca tiveram grandes tropeços na vida e vivem nas suas casas grandes, luxuosas e imaculadas, pessoas que nunca pensaram em fazer um gesto de generosidade e não olham para o lado, pessoas que detestam pelos de animais caídos pelo chão e fogem do contacto com a natureza porque tem pavor a insectos, pessoas que vivem dentro de bolhas impenetráveis e esquecem-se que somos matéria que um dia será consumida pela terra e por bichos, a exuberância é algo que me faz rir, todos nascemos de um útero de uma mãe em sofrimento, envoltos em sangue e fluidos, e todos morreremos e vamos nos decompor, esquecidos dentro de um caixão, e por essa altura os luxos, os egos, os exibicionismos não passarão de pura ignorância e desprezo pela vida. 

 

01
Ago25

Medo crónico

Carina Martins

Uma das partes boas da depresão é que há um ponto em que achas que não tens mais nada a perder, e perdes o medo de absolutamente tudo.

O medo fez parte da minha vida, anos a fio, o que sempre causou-me mais terror, mais desespero, mais ansia, eram os olhos arregalados do meu pai, cheios de raiva, a forma como ele berrava comigo enquanto se aproximava de mim lentamente, lembro-me desses momentos como se fossem hoje, a forma agressiva com que ele soltava as palavras de tal forma que me cuspia em cima enquanto dizia-me coisas horríveis como: eu vou dar cabo de ti.

O meu choro, os meus gritos, os meus pedidos, só o enfureciam mais, e mais rapidamente ele partia para a violência. Dobrava os meus braços e colocava-os contra o rosto, olhava-o nos olhos enquanto pedia-lhe que parasse, e só via ódio. Procurava por um pai no fundo dos olhos dele, por aquele pai que outrora eu abraçava, por aquele pai que outrora eu pulava para os braços dele sempre que chegava do trabalho, mas nunca mais o encontrei.

Eventualmente comecei a perceber que o meu medo impulsionava-o mais, que os meus pedidos por ajuda motivavam-no mais (toda a gente ouvia, mas toda a gente fazia de conta que não ouvia), então a certa altura com as lágrimas a escorrer pelo meu rosto comecei a defender-me, a fazer peito, a empurrá-lo, a ripostar, claramente que uma miuda de 13 anos, magrissima e pequena não tinha capacidade para fazer frente a um ex militar de 1.90, mas pelo menos eu lutava. 

E sempre, sempre que acabava outra sessão de pancadaria, de violência física e verbal, de ouvir a minha mãe a implorar-lhe que parasse, de os meus irmãos esconderem-se e trancarem-se na sala, eu trancava-me no meu quarto, ligava o computador e começava a escrever até que a dor por fim acalmasse.

Ficava horas e horas a escrever, colocava uma musica de fundo no quarto, a minha mãe sabia que nesses dias não valia a pena bater-me á porta, pedir-me para ir jantar, ou tentar que eu comesse no quarto, não valia a pena, eu não dava conta do tempo ali a passar enquanto escrevia, e era melhor assim, ali dentro, eu estava no meu mundo seguro.

Mas contei-vos tudo isto para perceberem, que o meu maior medo foi o meu pai, só que eu cheguei a um tal ponto de exaustão que enfrentei-o, que perdi o medo, perdi o medo de ser agredida, perdi o medo das palavras dele, apesar de terem sido mais as coisas que ele me dizia do que as propriamente as agressões que me tenham marcado mais até hoje.

Hoje descobri que uma pessoa de quem gostei muito, uma das poucas pessoas a quem abri a minha alma, aquela que disse "ok, esta é a minha ultima tentativa de ter uma amizade", está perto de mim, veio passar uns dias, como os traumas e gatilhos desta minha vida fizeram comigo, como sempre, disparou o botão alerta no meu corpo, e por momentos, por breves momentos, tive medo de que ela viesse ter comigo para me fazer mal.

E perguntam-se, tens razões para ter medo?

Não, absolutamente nenhuma razão, ela foi as pessoas por quem mais fiz, que mais tentei ajudar até perceber que a Daniela precisa de ajuda de um psiquiatra (o que não é vergonha nenhuma) pois o problema dela é muito mais complexo do que eu podia imaginar, longa história, um dia destes eu conto,  eu precisei de fazer uma escolha, entre permitir que alguém me desrespeitasse ou o respeito que eu devia ter por mim mesma, e como devem calcular, eu optei pelo segundo, assim calmamente um dia disse-lhe: gosto muito de ti, nunca te vou querer mal, mas precisamos terminar esta amizade por aqui. A Daniela acabou por aceitar, cada uma seguiu o seu caminho e no fundo, sei que ela é uma boa pessoa.

Ao sentir medo literalmente decidi encarar-me no espelho e dizer: sua grande palerma, medo de quê, já enfrentas-te tanta coisa e tens medo de alguém que gosta de ti, ou que gostou? 

A verdade, é que não sei se a Daniela ainda gosta de mim, se me guarda rancor, não sei, se me quer ver mal, sei que eu não lhe quero mal, sei que quero que os problemas dela se resolvam, sei que eu própria ando em terapia,  sei que estou cansada de ter medo, sei que quero por fim viver.

 

01
Ago25

Pensar dói

Carina Martins

Coloquei as minhas tristezas numa gaveta outra vez, não consigo, se continuar a sentir sei que posso acabar a fazer uma loucura, e esta é a minha escolha entre deixar-me afundar e egoistamente dar cabo da vida do Bruno e dos que dependem de mim, e continuar funcional.

Arrumar a nossa tristeza para dentro de uma gaveta não é saudável, mas há muito tempo que o faço. Eu preciso de respostas que nunca vou ter, não num mundo ao contrário, só elas podiam resolver a minha dor, e há quem não compreenda uma depressão e possa dizer que isso é causado por nós, bem não é, uma vez ouvi uma frase e ela ficou comigo para toda a vida "pessoas boas acabam a precisar de terapia para lidar com pessoas más que acham que não precisam de terapia", e é bem isto, já lidei com muitas perdas desde muito nova, a primeira foi o Miguel, um amigo meu que com 13 anos tirou a própria vida, o Miguel tinha tudo para ser um miúdo popular, e era, ele tinha bastante dinheiro, vestia-se bem, tinha excelentes notas na escola, era bom a desporto, praticava artes marciais, era bonito, mas o Miguel decidiu não se juntar aos bullys da escola, pelo contrário, ele era um miudo com 13 anos com uma sensibilidade enorme, eu conheci-o um dia quando no intervalo entre aulas fiquei do lado de fora da sala de convivio onde a maioria dos alunos ficava, eu ficava a observar e a rabiscar, ele veio ter comigo e perguntou-me se estava tudo bem, que tinha reparado que eu ficava sempre sozinha, eu que ainda não conhecia o Miguel fiquei assustada, nervosa e a pensar cá para mim: "oh nao, outro bully", respondi-lhe que estava tudo bem e estava melhor assim. Ele olhou para a sala de convivio e disse-me: "eu sei" na direcçao dos olhos dele estavam o Carlos, o Ulisses e outros de quem já não me lembro o nome, o grupo de miudos que me faziam a vida num inferno, a mim, aos miudos pobres, aos miudos que tivessem o infortunio de ser diferentes e ás vezes até aos professores. Baixei a cabeça e esbocei um sorriso triste: "está tudo bem", depois a partir desse dia começamos a falar de coisas comuns, gostos, talentos, musica, desporto, animais. Duas semanas depois entramos nas férias de páscoa e o Miguel morreu, e eu como o conhecia a duas semanas não me pude permitir chorar a frente de ninguém, apenas fiquei por um mes inteiro a dormir tudo o quanto pudesse, a chorar, tudo o quanto pudesse, obviamente que tudo isto era um pretexto para que o meu pai me batesse,  mas ao final de um mês por fim vi que ele estava assustado e por fim veio ter comigo no quarto, cobri-me com os lençois e semicerrei os olhos com a luz porque mal saia do quarto, ele teve uma conversa comigo sobre morte, disse-me que ela fazia parte da vida e coisas por aí fora, só não me disse porque é que "Deus" levava as pessoas boas em vez das más, acho que foi das poucas vezes em que o meu pai pediu-me desculpas, mas a ultima frase foi  a minha: "podia ter sido eu, toda a gente gostava do Miguel, eu faria menos falta."

Não se preocupem, uma semana depois o meu pai voltava ao normal, agressões e pancadaria pela coisa mais pequena e insignificante.

Passei dois meses com aquilo que foi a minha primeira grande depressão, essa dor não arrumei na gaveta, permiti-me chorar, sentir e sofrer, mas de que me valeu? Nunca tive respostas ás minhas perguntas o que significa que mais tarde ou mais cedo acabamos mesmo por colocar as dores numa gaveta.

Deve ter sido aí que percebi que não vale a pena chorar, não vale a pena pensar, mas sabem qual é o problema de colocarmos as dores numa gaveta? É que ás vezes um pequeno abalo abre todas as gavetas, e ao longo da vida vamos acumulando muitas gavetas, muitas divisórias, e ás vezes a vida dá-nos um soco no estômago e abre todas as gavetas de uma vez.

Foi isso que me aconteceu, não tinha uma depressão desde 2017 I guess, ou melhor, ela estava controlada, foi o periodo de tempo mais longo em que consegui colocar a cabeça no lugar, o facto de já não trabalhar para ninguém ajuda, trabalho 3 vezes mais do que essa altura, mas faço o que gosto, e ao menos isso da-me alguma paz.

Claro que ás vezes dou por mim a deambular, quem me dera ter muito dinheiro, ganhar a lotaria, criava um santuário com todos os animais vitimas da maldade humana e era feliz só com isso.

Por falar nisso, no dia dos meus anos aconteceu uma coisa muito bonita, havia um senhor espanhol á porta de um supermercado, com um cão, a pedir esmolas, o cão de pelo brilhante, bem alimentado, ao lado dele, sem trela, e ele cabisbaixo, magrissimo, não pedia, limitava-se a estar ali. O Bruno foi comprar algumas coisas e ligou-me a pedir conselhos sobre o que dar, e eu disse-lhe compra comida ao cão e umas sandes para o senhor, eu era mais a favor de raçao seca pois sempre durava mais uns dias, mas o Bruno quis oferecer uma lata de 1k de humidos, pegou em duas baguetes prontas uma com pasta de atum e outra com ovo, uma garrafa de agua e foi entregar ao senhor: "peço desculpas, se calhar dinheiro dava-lhe mais jeito mas eu nunca ando com dinheiro", o senhor começou a chorar e disse-lhe que aquilo que ele tinha acabado de fazer era melhor do que dinheiro, eu comecei a chorar junto, o Bruno começou a chorar e senti o meu coraçao um pouco mais quente, mais vivo.

Não, o senhor não tinha alcool nem tao pouco cheirava a alcool, tambem nao estava a fumar, mas sabem, lá se foi o tempo em que eu criticava vicios, já não consigo, para mim é o suficiente ele estar ali com um rafeiro enorme e mesmo sem um teto para viver leva-lo com ele para todo o lado, quantas pessoas vivem em mansoes e casas enormes e rodeadas de luxos e nunca fizeram uma unica boa acçao? Além disso, eu própria já me refugiei em cigarros, mas trabalho com a minha imagem e fiquei com receio de perder o meu ganha pão, de começar a definhar, então parei.

O próprio Kurt Cobain está ali, agarrado a um cigarro a resumir a minha luta num video de poucos segundos, acho que as minhas almas gémeas morreram todas ou acabaram por tirar a própria vida, ser sensível num lugar tão negro é uma maldição, eu sei disso, mas não me quero juntar á "manada", eu sei que isto soa arrogante, mas ainda ontem conversava com o Bruno sobre isto, de facto deve ser uma sensação muito boa ser-se alienado, não sentir empatia, não nos preocuparmos, vivermos para o nosso próprio umbigo, mas eu não quero e nunca hei de ser assim, prefiro acabar por tirar a minha própria vida a fazer parte da psicopatia que abunda na nossa sociedade, porque das poucas coisas que ainda posso sentir orgulho é a certeza que tenho de que sou uma pessoa boa, e se é para ter vergonha de mim própria, mais vale cá não estar.

Mas como dizia, depois do Miguel tudo ficava guardado em gavetas, absolutamente tudo, as agressões do meu pai, a violação que sofri com 9 anos, o bullying, os traumas, eu ia para a escola com uns olhos tristes mas serena, quando o bullying começou a terminar e as pessoas começaram a sentir pena de mim (nunca gostei da pena de ninguém mas era melhor do que estar em modo alerta 24/7), começaram a chamar-me da menina dos olhos tristes, eu não sorria, não chorava, apenas observava as pessoas no meu canto, falar era abrir uma porta para que me pudessem fazer sofrer então foi assim que eu aprendi a tornar-me uma pessoa observadora.

Obviamente que como não chorava, não falava sobre isso, não desabafava a escrita começou a fazer parte da minha vida como uma espécie de terapia desde os meus 9 anos,  diários enormes todos preenchidos e escondidos que acabaram por ser deitados fora pelos meus pais, e obviamente que guardar as dores em gavetas trás consequências, uma delas era chegar ao trabalho a tremer, não conseguir ouvir a voz de um homem a falar mais alto e ter um subito ataque de pânico, tive a sorte de que a gerente da primeira loja onde trabalhei tornou-se acima de tudo uma amiga, e esperou pacientemente que os meus traumas se fossem curando, quando eu chegava ao trabalho a tremer a Cláudia já sabia o que se passava, dava-me um copo de água, abraçava-me e chorava e dizia-me: tem calma, tudo vai melhorar, um dia de cada vez.

Eu era como um animal ferido, desconfiado, e o atendimento ao publico apesar de ser o que é ajudou-me a saber lidar com pessoas, percebi que tinha que ser forte para parar de ser íman para pessoas maldosas, guardei as minhas dores em gavetas e transformei-as em ódio tantas vezes, zangada com "Deus" com o mundo e com as pessoas, descontei no desporto, na escrita e sempre fui capaz de amar apenas os animais, os unicos seres neste mundo que matam apenas para poder comer, enquanto que o ser humano mata e fere por inveja, ganancia, maldade, os animais são puros, sem o "raciocinio" do qual tanto o ser humano se gaba, mesmo a fazer um uso vergonhoso dele.

O que me vai salvando a vida é isso, a capacidade de arrumar a minha dor, de escondê-la de mim, de dizer com muita força: "chega, não vais pensar mais nisso" e conseguir, isso não faz de mim um melhor ser humano, mas é a unica coisa que posso fazer se me quero manter viva, eu nunca vou encontrar respostas para esta sociedade doentia. Já não tenho medo de morrer, sei que quando isso acontecer vou por fim poder descansar em paz, fechar os olhos e nunca mais pensar.

Pensar dói.

No meu dia de anos arrumei por fim as minhas dores numa gaveta, um dia terei as minhas gavetas a transbordar e sei que a depressão irá voltar, mas por agora sobrevivo neste mundo de loucos.

 

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