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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

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Contra a maré

28
Out25

Á beira de um esgotamento emocional

Carina Martins

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Aqui estou eu a reclamar sobre o meu casamento outra vez, sem saber o que fazer.
Há anos que me encontro nesta espiral e volto sempre ao mesmo ponto.
E quanto mais o faço, mais frustrada me sinto, porque sempre tive certezas sobre tudo o que queria para a minha vida — mas ultimamente, não encontro nem respostas, nem soluções para isto.

Dei por mim a fazer uma lista de todas as coisas que eu e o Beto vivemos.
Não consigo.
Não consigo pensar alto.
Não consigo tomar uma decisão.

O Beto sempre foi amoroso comigo, carinhoso, mas passivo, distante e raso.
Às vezes só queria abaná-lo e tirar a alma de dentro dele, ver a alma dele — mas nunca, ou raramente, consigo.
Dou por mim a pensar se alguma vez consegui.

Amas-me?
Porque é que tens medo de me perder?
Ocupo o lugar de mulher ou de mãe na tua vida?

Procurei conforto, mas fui eu que o dei.
Procurei descansar nos teus abraços, mas fui eu quem os deu.
Procurei resgatar a minha energia feminina, poder ser mulher por uma vez e deixar contigo o papel de homem.
Fui os dois ao longo destes anos — escusado será dizer que não consegui descansar.

Fui a fera quando mostrar os dentes foi preciso, e a calma quando era preciso apaziguar.
Fui o cansaço que não entendeste, e até hoje sou o cansaço.

Continuas a não compreender o meu trabalho.
Interrompes-me, ficas assoberbado quando preciso de me focar, fazes planos a contar comigo mas sem me perguntar — ou fazias, isso lá conseguiste mudar.

Não fui prioridade tantas vezes, para dar lugar a coisas superficiais, a gente que viste uma vez.
Senti-me sozinha e desamparada.
Escolheste a família, o que significa que talvez eu não seja família — talvez eu não seja a tua mulher.

Hoje falaste do Natal.
Não me perguntaste se eu queria passá-lo contigo; assumiste que estava tudo bem.
E apesar de eu não acreditar no Natal, de achá-lo uma hipocrisia, sabia bem ter algum senso de família.
A pergunta teria calhado bem.

Viajo para ver a minha mãe — a minha doce mãe, a mulher que eu amo acima de tudo nesta vida, o meu exemplo de ser humano num mundo virado do avesso.
A tua família tenta atravessar-se nos meus planos, e dizes-me que jamais farias algo do género.
Mas se não farias, porque é que sinto que me estás a sondar?

Nunca tive uma família para apresentar.
Quando tive a festa da empresa, e mal conhecia os meus colegas, perguntei se te podia levar comigo.
Fartei-me de falar bem de ti, disse que iam adorar-te — mas, mais uma vez, a tua “família” foi prioridade.
E eu, mais uma vez, não me senti família.

Talvez esteja demasiado familiarizada com esse termo e, por isso mesmo, depois de chorar por horas e arrastar-me até à festa, de fingir um sorriso e voltar para casa a chorar, tu vieste com um encolher de ombros — como se nada tivesse acontecido.

Mas não é só a família.
És amigo dos que me fizeram chorar.
Perdoaste, mas nunca te perguntaste se eu perdoaria, se eu perdoei — e não, eu não perdoei.

O irónico é que os nossos problemas sempre foram sobre os teus pais questionarem-se se eu te merecia.
E hoje pergunto-me se tu me mereces.

Já não sou a mulher que eu era.
Engordei, descuidei-me, estou sempre cansada.
Não me sinto desejada nem feminina.
Mostro as garras porque, para ti, está sempre, sempre tudo bem.

Chego à conclusão de que deveria voltar a viver para mim — e só para mim.
Porque larguei-me nestes anos contigo e já nem sei onde estou, em que ponto fiquei, e como fiquei.
Perdi a minha identidade.

A minha mãe adora-te.
Convido-te para vires comigo, insistes.
E depois das milhentas viagens que fiz para estares com a tua família, tu não queres — deixas-te ficar, inventas uma desculpa: “vocês têm que estar as duas sozinhas.”

Enches a boca para dizer que o Hugo é o teu melhor amigo — aquele que me disse há alguns anos que, se eu não te dava filhos, não era boa para ti.
Perdoaste-o, mas a atacada fui eu.

E apesar de tudo, sim — nunca me levantaste a voz, nunca me trataste mal.
Sempre me disseste o quanto sou bonita, atraente, inteligente.
Mas nunca me soubeste acarinhar com actos; apenas palavras, que sem actos tornam-se vazias.

Choraste quando disse que íamos terminar.
Deixei que as coisas voltassem ao mesmo, porque nunca te tinha visto chorar daquela maneira.
Pensei que finalmente tinhas entendido — mas não entendeste.

Quero sair desta bola de neve e não sei como.
Não sei como viver contigo ao meu lado e começar a viver para mim.

Interrompo a escrita porque chegas a casa.
Poucos minutos depois, perguntas-me se sou feliz.
Digo um “sim” seco e rápido e nem paro para pensar sobre o assunto.
Mas eu sei a resposta.

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