A minha sogra - sem clichês

Fazem-se piadas cliché com este assunto, as pessoas têm sempre algo a dizer sobre isto e, sobretudo para as mulheres, já percebi há muito tempo que é bastante comum terem tido um ou dois problemas "territoriais" com a sogra.
Quando falei sobre a minha sogra publicamente — não estou a falar de escrita, porque aqui a probabilidade de ser compreendida é maior — refiro-me às vezes em que me pronunciei sobre este assunto em pessoa; a vasta maioria das vezes fui mal interpretada.
Quando conheci o Bruno, vi inicialmente uma família estável, vi a minha vida a compor-se. Tinha acabado de sair de uma situação complicada. A primeira vez que os conheci, a minha cunhada, a Raquel, ficou deslumbrada comigo. Eu fazia aulas de body pump três vezes por semana na altura, vivia praticamente para o desporto, e ela não se cansava de dizer que adorava ter um corpo como o meu. Eu vinha nervosa, tinha precisamente acabado de sair de uma aula, portanto trazia um top e umas leggings. O Bruno estava todo contente por me apresentar aos pais, os pais pareciam felizes. Ouvi comentários do género: “Desta vez escolheste bem, ela é uma mulher, não é uma menina como a outra.”
A outra era a Tânia. Ela e o Bruno tinham namorado quatro anos até que ela o traiu — esta foi a história que conheci na altura. O Bruno não falava sobre isso porque sentia vergonha por ter sido traído e tinha terminado a relação dois meses antes de me conhecer.
Fomos ao casamento da prima do Bruno semanas depois. Eu nunca fiz questão de me casar, muito menos assim: luxuoso, com mais de 300 convidados, rios de dinheiro gastos num dia com pessoas que, na grande maioria, provavelmente nem os noivos conheciam bem — como eu. As red flags começaram a aparecer aí. Levei um vestido pérola com alças laranja coral, um decote em V, saltos altos a combinar. Obviamente que trazia umas sandálias rasas na bolsa, porque nunca me senti confortável em saltos altos; duas horas depois já as tinha calçado. Dei-me ao trabalho, em casa, de fazer uns ajustes ao vestido porque achava o decote demasiado aberto. Eu não tinha peito nenhum nessa altura, mas sentia-me desconfortável. Fechei o decote e estava tudo bem, mas topei a mãe do Bruno a comentar com ele que eu vinha demasiado decotada para um casamento. Esbocei um “oh”, encolhi os ombros e segui o meu dia, ignorando esse pormenor.
Eu tinha passado a manhã toda a maquilhar a família do Bruno, não cobrei um tostão por isso. Tenho formação nessa área e gosto mesmo de transformar as pessoas e dar-lhes um novo ar. Fiz-lhes o cabelo também. Elas ficaram todas contentes e seguiram caminho. As irmãs e a mãe do Bruno nunca foram muito de cuidar da imagem e, nesse dia, eu notei, pelo olhar, que se sentiam mesmo bem — e isso deu-me gosto genuíno. Já fiz amigas minhas perceberem que eram bonitas e que só não sabiam como usar essa beleza. Eu sempre fui assim, sempre gostei de evidenciar o melhor que as pessoas têm. Sempre que vi mulheres bonitas mas sem autoestima, gostei de lhes mostrar que podia ser diferente.
Esse dia foi exaustivo, mas feliz. Voltando à vida normal, foi aí que o conto de fadas começou a desmoronar. Eu tinha grandes expectativas. Sou filha de violência doméstica e a guerra em Angola separou toda a minha família — todos emigrados: Suíça, Londres, França e até Brasil. Os que permaneceram em Angola foram sempre os mais velhos; tentem dizer a uma pessoa de idade que tem de sair do país onde cresceu porque é perigoso… é difícil. A maioria não vai embora e prefere morrer ali.
Nunca tive um senso de família unida e feliz. Até certo ponto mantivemos uma normalidade: tirávamos fotos de família, passeávamos, divertíamo-nos — até o meu pai começar a descontar em mim e na minha mãe todas as frustrações. Por isso, via na família do Bruno a hipótese de ter uma família estável e feliz, onde me sentisse bem. Os pais do Bruno têm muito dinheiro, vivem bem, muito à conta da quantidade de casas que têm e alugam. Mas nunca me aproximei do Bruno a pensar nisso; aliás, eu nem sabia até alguns meses depois de nos relacionarmos e ver o estilo de vida que eles tinham.
Facilmente isso começou a ser um entrave. Quando perceberam que eu estava numa fase delicada da minha vida, que contava os tostões, comecei a ser vista como inferior, como um projeto de solidariedade. Embora nunca tenha aceite um tostão de ninguém, faziam questão de ir para restaurantes caros e convidar-me; eu tinha de recusar, pois não tinha como pagar. Eles ofereciam-se para pagar, mas eu dizia que não gostava de ostentar uma vida que não tinha e que, por isso, preferia ficar em casa. Eu e o Bruno começámos a fazer programas mais simples e dos quais, francamente, até gostava mais. Passávamos os fins de semana a conhecer Portugal, fomos aos passadiços do Paiva, comíamos lá, caminhávamos e conversávamos. A mim, a natureza sempre me fez muito bem — não tinha de estar preocupada com etiquetas e aparências, podia ser eu.
Desenganem-se: eu sei fazer de conta que tenho, eu só não gosto. Já fui colaboradora em eventos e tinha de socializar com homens que jantavam o valor da renda da minha casa. Sabia como falar, como me vestir, como me comportar. Muitos desses homens faziam-me propostas: “Vais ter uma vida de rainha, vou dar-te tudo o que quiseres, não vais mais precisar de trabalhar.” Mas, para mim, a privação de liberdade e a dependência financeira sempre me assustaram, então recusava educadamente.
Quando os pais do Bruno começaram a perceber que a minha família não cabia num postal, que o meu irmão tinha autismo, que a minha mãe se tinha prostituído e que o meu pai era um ex-militar traumatizado e violento, tudo descambou. Empatia? Zero. Eu abri a minha vida pela primeira vez em muitos anos, mas arrependi-me profundamente. Quando ouvi pela primeira vez a frase: “Desculpa, mas nunca poderemos conviver com o tipo de pessoas que constituem a tua família”, decidi que também não fazia questão de fazer parte daquela família. Afinal, eu não tinha nada de que me envergonhar. A minha mãe é a pessoa mais generosa e nobre que alguma vez conheci, e, se aquela mulher lutadora não era digna de frequentar a casa dos pais do Bruno, eu muito menos.
Convivia menos; ia para casa deles de vez em quando, para dizer que estava ali. O Bruno pedia-me desculpas e passou a frequentar mais a minha casa. Mas os poucos convívios que tinha em casa dos pais dele tornaram-se desgastantes. Quando a mãe dele descobriu que eu era pobre — pobre mesmo, naquela altura — começou a olhar para mim como uma empregada. Achou que eu tinha de passar a ferro, estender a roupa e ajudá-la a arrumar a casa. Eu rio-me porque vocês não me conhecem, mas, quando perceberem que eu não me encaixo em papéis redutores e muito menos machistas, percebem a resposta que lhe dei na altura: “Não consegues que o teu marido lave um prato e queres que a tua nora se torne na tua empregada? Boa sorte.” Nessa altura até a irmã do Bruno ficou envergonhada e começou a discutir com a mãe, e no meio da discussão soltou-se uma frase: “Tu estás a fazer exatamente o que fizeste com a Tânia”, a ex do Bruno. De repente todas as luzes se acenderam na minha cabeça e percebi: a mãe do Bruno tinha-lhes destruído o relacionamento.
Fui conversar com ele e, quando acabou de me contar tudo o que tinha acontecido, mantive uma expressão de espanto, perplexidade e choque durante algumas horas. Pediu-me desculpas e disse que não me tinha contado antes porque tinha medo que eu me afastasse. Não fiquei chateada, mas combinámos que dali em diante iria haver verdade, não importava o quanto doesse.
Ao que parece, a minha sogra tinha desprezado a família da Tânia exatamente como fizeram com a minha. Falo sempre da minha sogra porque o meu sogro mais parece uma sombra dela que a segue para todo o lado sem a questionar. Mas adivinhem: a família da Tânia também era humilde, sem posses, mas feliz. A gota de água foi os meus sogros terem ido a uma celebração em que os pais da Tânia faziam 30 anos de casados e se terem retirado zangados uma hora depois porque, pelos vistos, não estavam a ter a atenção que mereciam. Os pais da Tânia pediram desculpa ao Bruno, mas explicaram que nunca mais haveria convívios em que a minha sogra estivesse presente.
Poucas semanas depois, descobri aquilo que, para mim como pessoa, sempre foi um grande ponto para medir a humanidade — ou a falta dela, neste caso. A minha sogra tinha comprado uma cadela, ficou uma semana com ela em casa e, como o pobre animal não nasceu ensinado a fazer as necessidades no lugar certo, ela, com vergonha de a devolver à loja, foi deixá-la num canil de abate. Nessa altura ainda se abatiam animais a torto e a direito só porque sim. O Bruno foi à procura da Nokas no canil, mas ela já lá não estava. Perguntou aos responsáveis se ela tinha sido adotada e eles apenas responderam que não. Os animais foram a causa da minha vida e são até hoje; nunca senti tanto nojo de alguém até aquela altura — nem do próprio homem que abusou de mim quando tinha 9 anos. “A tua mãe é uma pessoa má, desculpa-me”, disse ao Bruno. Mas ele concordou e baixou a cabeça. Eu disse-lhe que não tinha de se envergonhar disso, que não era culpa dele.
A partir daí foram só descobertas. Um dia descobri que o Bruno não tinha parte da orelha, e que a mãe, quando ele era bebé, numa daquelas crises de choro que os bebés têm, arrancou-lhe a orelha à dentada, numa espécie de burnout. Descobri também que ela tinha tentado subornar o diretor da escola para que os filhos passassem com notas exemplares, que metade do prédio não lhe falava por atritos com questões territoriais, que as colegas de trabalho não lhe falavam porque ela andava sempre de baixa, pois o médico de família era uma boa cunha. Lá ia a minha sogra de férias para Espanha com a desculpa de uma depressão. Descobri que a família também não era perfeita e que tios, primos e até avós tinham deixado de lhe falar. Que amigos do Bruno se afastaram porque a mãe fazia questão de afastar dele qualquer pessoa que gostasse dele. Eram demasiadas red flags para ignorar.
Quando a mãe do Bruno começou a perceber o filho a distanciar-se, a passar cada vez mais tempo em minha casa, a preferir a minha “pobreza” ao luxo dela, em vez de levar uma lição para a vida — de que há coisas que não se compram — tentou comprar-nos uma última vez, oferecendo-nos uma casa ao lado da dela, conveniente para nos controlar. Automaticamente disse que não. Foi aí que eu e o Bruno arrumámos as nossas tralhas e fomos viver juntos, seis meses depois de estarmos oficialmente juntos. Por esta altura o Bruno já sabia tudo sobre mim, os podres e os bons. Por incrível que pareça, os dramas com a minha sogra ensinaram-nos que a verdade tinha de estar sempre em cima da mesa. Juntaram-nos mais do que aquilo a que se propunham — que era nitidamente separar-nos. Quanto a mim, era a primeira relação séria que tinha; tudo era novo, mas estava feliz.
Fizemos uma festa de despedida. A Jéssica e o Rui ofereceram-nos imensas coisas para a casa nova — um casal querido com quem até hoje mantemos contacto. Quando foi a parte de falarmos qualquer coisa, até porque íamos mudar de cidade e provavelmente não nos veríamos por muito tempo, disse que era uma fase nova da minha vida, que ia ser mais fácil para mim e feliz partilhar a vida com alguém. E aí começou a distorção da minha sogra, que disse que eu estava com ele pelo dinheiro. Encolhi os ombros e pensei: que dinheiro? Acabámos de te recusar uma casa.
Mudámo-nos por fim. Aí começou outra fase: eram dez chamadas por dia — não estou a exagerar. O Bruno começou a cortar e a avisar que estava a ser excessivo. Então, um belo dia, liga-nos a prima do Bruno a dizer que a minha sogra andava a dizer a toda a gente que o filho tinha morrido para ela. Não pudemos acreditar. Estávamos quase na faixa dos trinta e, portanto, é super normal que os filhos saiam de casa para casar e ter família. O Bruno ficou tão triste com aquilo que não falou com ela por um ano inteiro.
Quando retomámos contacto, ela fez-me um pedido de desculpas vazio. Quando terminou de falar, percebi que ela não tinha mudado e que, de facto, a máxima confirma-se: as pessoas não mudam. “Desculpa por tudo, eu excedi-me, mas o meu filho será sempre o meu filho, e eu serei sempre a mãe e ninguém me pode tirar esse lugar.” Fiquei incrédula. Mas isto é uma competição?, pensei eu.
Nesse dia estiveram em nossa casa na aldeia. Fomos ver os cavalos e animais da quinta de um amigo. A minha sogra veio às 8h da manhã e saiu às 3h da tarde. Para além de ter deitado o prato dela ao lixo, de ter visto o Bruno na cozinha e comentado “que homens não foram feitos para estar na cozinha”, imaginem uma snob que nunca soube o que é um aperto nesta vida estar na natureza, ver animais, lama e coisas menos dignas que animais fazem. Vejam só: a minha cunhada mais nova, que nessa altura tinha 11 anos, estava deslumbrada; até aos porquinhos fez festinhas. Por isso fartou-se de chorar quando foi altura de irem embora. Era suposto ficarem o dia todo, jantarem connosco, mas o conforto da casa dela chamava.
Quando viemos para o Algarve, então, aí as coisas escalaram. Para mim, o limite foi termos tido um azar e o carro começar a avariar. Acabámos por ter de o vender e comprar um chaço. Tudo bem, nunca liguei a aparências. Mas, entretanto, convenientemente, a minha sogra, que nunca ligou muito a carros, começou a enviar-nos fotografias em carros luxuosos, com frases do género: “Se fosses um bom filho, podias ter um destes.” Mais tarde, lembrou-se de que tinha ajudado o Bruno na compra do primeiro carro e pediu-lhe o dinheiro de volta — “já que já não estás comigo, não precisas ter nada meu”. Ela tinha, de facto, ajudado. O Bruno tinha 19 anos e pôs o que pôde do ordenado dele, que tinha juntado, e ela pagou o resto — dez mil euros. Ficámos a zeros porque eu ajudei-o a pagar, completamente a zeros.
A partir daí começámos a trabalhar como escravos para recuperar alguma estabilidade. Mas um belo dia decidi que aquela relação não me fazia bem. Tive uma conversa com o Bruno, disse-lhe que a mãe dele já me tinha feito mal, mas compreendia que ele era muito ligado à família. Percebi que tinha de cortar contacto de vez e foi o que fiz. Não falo com a minha sogra há mais de cinco anos. Ironicamente, eu gosto da família do Bruno. Tenho saudades sobretudo da irmã mais nova. Tantas vezes ficávamos tardes no quartinho dela, eu ensinava-a a maquilhar-se, dava-lhe conselhos. Tantas vezes servi de consolo para uma mãe totalmente inconsequente. Lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje, da tarde em que, no meio de um convívio de família, a minha sogra reparou que a miúda, com 11 anos, que usava uns calções nesse dia, estava a ficar com estrias. A mim apareceram-me com 13. Ela decidiu gritar com a miúda à frente de toda a gente: “Olha-me para isto! Passas a vida a comer, agora ficaste com essa coisa feia no corpo.” Eu olhei para o Bruno incrédula, com uma expressão do género: mas o que é isto?! Fui falar com a Júlia, que estava farta de chorar. Trazia umas jeans e perguntei-lhe: “Posso mostrar-te uma coisa?” Ela disse que sim. Eu desci um pouco as calças e disse-lhe: “Apareceram-me com 13 anos. Eu sempre fui muito magrinha, mas como tenho tendência a ganhar peso na zona da anca, apareceram-me estrias de um dia para o outro e eu fiquei triste, assim como tu. Mas isso está fora do teu controlo, tu estás a crescer e é por isso que te aconteceu.” Expliquei-lhe que as estrias eram um reflexo da pele a esticar e a quebrar numa determinada zona do corpo. A Júlia sempre me viu como um exemplo de beleza e eu sabia que isso iria animá-la. “Como as tuas ainda estão roxas, passa este creme todos os dias que ainda podem sair.” A Júlia passou o creme religiosamente todos os dias e elas acabaram por desaparecer. Fartou-se de me abraçar e agradecer. Escusado será dizer que, desde o momento em que cortei contacto com a mãe do Bruno, a Júlia foi proibida de falar comigo. Falávamos às escondidas de vez em quando, mas sempre em tom triste — e isso foi o que mais me doeu.
Quando cortei contacto com a mãe do Bruno, fiz questão de lhe explicar o porquê, caso isso não fosse percetível. Escrevi-lhe uma carta enorme, despejei tudo o que me ia na alma e nem imaginam o bem que me fez. Foi terapêutico. Falei-lhe do Ano Novo em que juntei todos os meus tostões para comprar um vestido lindo na H&M, sem costas, em que ela se retirou da sala quando toda a gente começou a dizer o quão bonita eu estava e foi enraivecida chorar para o quarto. Falei-lhe das vezes em que a apanhei a olhar para mim no ginásio enquanto saía do balneário envolta numa toalha e ela me olhava com inveja. Enquanto escrevia, percebi que, resumidamente, tudo se tratava de ela disputar o meu lugar como mulher do Bruno — e fiquei chocada, porque de repente tudo fazia sentido. Foi aí que ele começou a contar-me coisas estranhas que lhe aconteceram na adolescência: como a mãe se esgueirava para o quarto de um adolescente sem bater à porta, apanhava-o a ver pornografia e fazia determinadas coisas (como é normal, julgo eu), e de ele, constrangido, pedir que ela começasse a bater à porta — mas ela nunca o fez. Como, algumas vezes, ela ter contado que tinha tido sonhos estranhos e impróprios com ele. De repente, a Tânia, a ex dele, a competição e o desprezo, os mesmos comportamentos que ela teve comigo, faziam todo o sentido.
Continuando pelo conteúdo da carta, falei na pessoa maldosa que ela era, sobretudo pelo desprezo pelos animais: “Na vida, sempre tive uma forma de ter certezas e confirmar a índole de alguém — e sempre o fiz a ver como essa pessoa tratava os animais. E tu és nitidamente má pessoa.” Como as filhas dela não sabiam que a Nokas tinha ido para um canil de abate, ela inventou que tinha dado o bichinho a uma colega do trabalho. Limitei-me a dizer: “Já é altura de contares o que, de facto, fizeste à Nokas.” Tinha de o fazer, tinha de a tirar daquela redoma de boa samaritana. A carta foi enviada para o WhatsApp da família que tinham criado e, por alguma obra de caridade, ela incluiu-me nesse grupo.
“Tu não amas o teu filho, tu não o queres feliz, tu queres que o Bruno esteja perto de ti, independentemente de qualquer coisa. E isso não é amor, é doença.” Terminei a dizer que a presença de alguém que me queria mal não me fazia bem e que, por isso, tinha de me proteger.
Obviamente que o Bruno vai falando com a mãe, umas duas vezes por mês, mas ele próprio afastou-se. Combinámos que ele não contaria absolutamente nada dos nossos planos e muito menos da minha vida pessoal. Muito antes de isso acontecer, ele tinha-me dito: “Eu jamais vou deixar que a minha mãe destrua este relacionamento. Até porque eu amo-te, e à Tânia não amei o suficiente para tentar.”
A minha vida melhorou a 200% desde que deixei de falar com ela — sem exageros. Hoje, a miúda que ela conheceu, que vivia a contar os tostões, é a pessoa que muitas vezes segura a estabilidade aqui em casa. Hoje tenho o meu próprio negócio, vivo bem e aprendi o peso que tem uma pessoa tóxica na nossa vida.
A minha sogra, fiquei a saber pelo Bruno, tentou fazer terapia. Depois de lhe ter sido diagnosticado um transtorno psicológico, ela desistiu, ofendida. Quem era o psiquiatra para lhe dizer uma coisa dessas, ao fim e ao cabo? Preferiu fugir à verdade. Continua a espalhar infelicidade por onde passa. A minha cunhada foi para fora mal pôde e a Júlia acabou agora mesmo de fazer 18 anos — o que significa que não deve faltar muito para ser feliz. Até hoje mantém a Laura como melhor amiga, em segredo, porque a minha sogra tentou afastar a Laura da vida da Júlia, pois, pelas palavras dela, “ela tinha de conviver com pessoas da classe dela”. O meu sogro vive em depressão e em modo alienado por medicação. É a velha máxima: os bons a fazer terapia para lidar com os maus. Sei que, provavelmente, pelo Porto, as pessoas me conhecem como a mulher mundana que levou o filho dela para a má vida. A minha sogra é mesmo assim: distorce as coisas ao máximo. Mas, tal como lhe disse antes de cortar de vez, ela é aquele tipo de pessoa que acaba por revelar-se com o tempo. E tenho para mim que estas pessoas acabam muito sozinhas — uma solidão da alma, aquela que cavámos nós mesmos e na qual tentamos puxar os outros pelo caminho. Os que não caem acabam por perceber, quando o buraco já estiver demasiado fundo, do que se safaram. Para pessoas como ela, ou cais buraco abaixo com ela, ou és um ingrato. E o Bruno, lá pelo Porto, é o filho ingrato que podia viver no luxo mas escolheu amar.
O que uma mãe assim sente pelo filho não é amor, é posse, e, pelo que o psiquiatra disse, neste caso é pior do que isso: é a idealização de um filho como o homem perfeito, o homem educado e que respeita as mulheres que ela tentou criar na base do machismo: “as mulheres é que têm que cuidar da casa, as mulheres têm que ter filhos, a Carina tem que te obedecer e tens que gerir o dinheiro dela”; o homem que saiu com carácter e que pensou por si próprio antes de ouvir o que ela tinha para lhe dizer, sem questionar. Ironicamente, o homem que foi ensinado que as mulheres são lixo e que a única que ele deve respeitar é a própria mãe, foi o homem que curou os meus traumas de violência doméstica e com quem reaprendi a amar e a permitir-me ser amada. A minha sogra apaixonou-se pelo próprio filho — o filho que saiu do molde que ela fez para ele e hoje se tornou um homem — e é uma mãe questionável, que tentou ditar-lhe que profissão ter, com quem casar, de preferência uma mulher submissa que ela pudesse manipular. Querer os filhos por perto é normal; o que não é normal é querê-lo perto a todo o custo: infeliz, miserável, fracassado, mas perto. Porque a posse é apenas isto: querer ter, querer possuir de toda e qualquer forma; já amar, às vezes, envolve a liberdade — e a liberdade é difícil de entender para quem não ama.
