Eu só preciso do mar

Ontem, o Bruno tentou animar-me, afinal, foi o meu dia de anos, e eu tentei parecer feliz por ele, mas, no fundo de mim há uma parte de mim que precisa de fingir se está tudo bem, e não dizer-lhe sempre o estado em que estou agora obriga-me a parecer bem e a fazer o possível para estar bem. Eu falo com o Bruno sim, muito abertamente, enquanto o blogue for desenvolvendo vocês vão perceber que saiu-me a lotaria depois de tantos azares, eu sou muito complicada e nunca pensei que fosse ter alguém com quem partilhar a minha vida, mas a nossa relação é muito honesta, muito simples.
Há cerca de duas semanas fui espairecer, precisava de chorar, coloquei uns fones, o calor é enorme e por isso sabe-me muito bem sair de casa com os cães mais a partir das 20h/21h, fui apanhar ar, isso é vital para mim já que trabalho tantas horas ao computador. Fiz o caminho habitual, deixei os cães cheirar, parar, o passeio era para eles também, na zona onde vivo são a grande maioria pessoas de idade, e confesso-vos que eu gosto disso, gosto da calmaria, cresci num bairro complicado, com drogas, tiros, policia, conflitos, violência, e sabia que precisava de sair dali mal começasse a trabalhar. Viver num lugar com pessoas que passam a vida a cuidar dos jardins, a cozinhar, a passar o tempo com os netos ou simplesmente a estar ali é uma das coisas que gosto, podem pensar que sou uma pessoa envelhecida mentalmente, mas não é isso. Comecei a sair á noite com 13 anos, envolvi-me com malta pesada quando era miúda, grande parte disso era por levar porrada todos os dias do meu pai e ver a minha mãe a ser agredida á minha frente, rebelei-me, quis juntar-me aos revoltados como eu, áqueles que tinham dores escondidas atrás de capas de valentões, foi a única fase da minha vida em que tive verdadeiros amigos.
Não, nunca usei drogas, nunca fiz mal a ninguém, limitava-me a estar com eles, e com o tempo, ganhei um estatuto, comecei a ser a protegida, aquela em quem ninguém podia tocar, isso aconteceu porque começaram a reparar que eu era uma preza frágil, baixinha, muito magra, dócil, sorridente, frágil mentalmente, com medo até da minha própria sombra. Claro que o bullying fez parte da minha vida, claro que de vez em quando apareciam miudas ou miudos a quererem bater-me por coisa nenhuma, o grupo lá do bairro onde eu vivia começou a ver isso e a ficar revoltado, eu tinha duas realidades, na escola era a feiosa, com o cabelo frizado e roupas feias, na minha rua eu era tratada como uma princesa, e sim, essa realidade de inicio confundiu-me como adolescente mas depois percebi como o conceito da beleza era tão subjectivo. Mas de qualquer forma, os miudos do bairro vinham de lugares como o meu, pais violentos, muitos deles na droga, muitos deles também tinham pais que batiam nas mães, que tinham vicios, negócios duvidosos, e por aí fora, mas eram miúdos que como eu tinham crescido muito depressa, cuidavam dos irmãos, trabalhavam, estudavam, e tinham problemas de gente adulta, problemas que a maioria dos adultos "normais" não tem. Foi por isso que os "bullys" da escola começaram a ter medo de se meter comigo e recuaram, de repente ninguém mais me podia tocar, e eu que muitas vezes não contava nada a ninguém para evitar confusões acabava por ter sempre alguém que visse e lhes fosse meter aos ouvidos.
A Sara era uma amiga, achava eu, até ao dia em que decidiu juntar-se a um grupo de outras raparigas, com mais dinheiro, mais populares, mais obcecadas com rapazes... Um dia do nada criou-se um murmurio que eu andava a falar mal dela, e pronto meio caminho andado para ser espancada a porta da escola, ou andar sempre com uma sombra atrás de mim, isto durou meses, eu ia para a escola e sabia que ia apanhar, já não queria saber, entre levar porrada em casa e na escola, nunca nada seria mais assustador do que o meu pai bater-me... Claro que a Sara nunca estava sozinha e juntava sempre um "valente" grupo para me ameaçarem, até que um dia a Sara deixou de aparecer na escola, eu só soube uns dias depois que a Marta a tinha encontrado numa das discotecas que íamos e tinha tido uma pequena "conversa" com ela, uma daquelas que fez com que uma ambulância estivesse a porta da discoteca meia hora depois, tenham calma, a Sara está bem, já se passaram mais de 20 anos, levou apenas uns pontos na cabeça e nunca mais foi se quer capaz de olhar-me nos olhos.
Todos sabemos que os adolescentes são maldosos uns com os outros, mas muito poucos aqui sabem o que é viver num bairro pesado, voltando ao meu raciocinio, eu posso parecer uma mentalidade envelhecida, mas na verdade vivi muito durante esses anos, foi uma montanha russa, mudanças, reviravoltas, histórias pesadas, tristes e outras felizes. Cansei-me por isso cedo de sair á noite, hoje o que gosto é de estar na praia, ver o sol nascer de preferência, os fins dão-me angústia e ver o sol a pôr-se para mim tem sabor a final, se sair é para conhecer um lugar no meio da natureza onde possa estar com os cães, fazer um piquenique, sentir o vento no rosto e ouvir os passarinhos, gosto de música mas o meu gosto musical não ajuda, não há discotecas tipicas com anos 80, as que existem passam eletrónica, pelo menos que eu conheça, e francamente também já não tenho pachorra para ficar em lugar nenhum até as 2h da manhã. O ribombar da musica nos ouvidos enquanto tento adormecer na cama foi algo que nunca me deu prazer.
Voltando ao momento então lá estava eu a passear os cães, a rua tranquila, silenciosa, o recolher das pessoas dentro de casa e a noite para mim, livre para eu poder pensar, achava eu, tinha acabado de fazer algo muito dificil do qual ainda sou incapaz de falar abertamente sem me desfazer em lágrimas, por isso ia a chorar, aquele choro tranquilo, calmo, sem soluçar, apenas triste, pensava no quanto as coisas andam viradas do avesso, no egoismo das pessoas, na maldade, quando de repente eu e um senhor que estava mais a frente e quase era atropelado deparamo-nos com um animal a fazer derrapagens bem a nossa frente, havia um TVDE que teve que fazer inversao de marcha rapidamente e acho mesmo que ele chamou a policia, eu que ja estava nervosa fiquei sem reacçao, a olhar para ele, incredula, sem perceber, qual era a intençao de andar a fazer manobras perigosas numa localidade cheia de crianças e idosos, o senhor com os seus 70 anos começou a acelerar até casa dele e eu que fiquei estatica por alguns segundos de repente lembrei-me que tinha que proteger os meus cães e por isso entrei por uma rua que dava um atalho para minha casa. Não tive a reacção instintiva de tirar a matricula, apenas senti aquele momento como um soco no estomago, e depois do choque, depois de estarmos seguros, aí sim sentei-me numa calçada encolhi-me e começei a soluçar, foi a vontade mais forte e mais impulsiva que tive ali de repente de morrer, porque precisamente ali enquanto vagueava e pensava na merda de mundo em que vivo de repente cruzo-me com um adolescente que achava que era mais homem por assustar meia duzia de pessoas. Na minha rua existem caes de rua que toda a gente alimenta, e só pensei na sorte que foi ele nao ter apanhado ninguem no caminho, mas mal consigo explicar o que senti naquele momento, desespero, desesperança, tristeza profunda, perdi as forças...
Nesse dia cheguei a casa lavada em lágrimas e dei um abraço ao Bruno daqueles apertados, daqueles que pedem em tom desesperado "por favor tira-me deste lugar", chorei e soluçei até ficar cansada, adormeci com uma ultima frase: estou cansada deste mundo de merda, estou cansada de pessoas, eu nao pedi para estar aqui.
Ontem, no dia dos meus anos, nem os presentes que ele deu-me entusiasmaram-me e isso surpreendeu-me, não estava a espera de não sentir absolutamente nada, hoje já tenho algum entusiasmo em experimentar as coisas que ele me deu, mas ontem, nada fazia-me genuinamente sorrir. Não quis restaurantes caros, não quis absolutamente nada, a unica coisa que me deu animo foi por fim o momento em que pudessemos ir a praia com os cães, ver o mar e espairecer.
Sempre foi o mar, quando estava no bairro corria até á praia sempre que o meu pai me batia, e ficava ali a ouvir as ondas, a sentir a areia nos pés e a observar o mundo, as gaivotas, a natureza, isso acalmáva-me, manteve-me aqui.
