Inconsciente

Hoje tive um sonho estranho, é a primeira vez de em muito tempo que acordei assustada e suada.
Eu ía de viagem com uma rapariga que me tinha oferecido um pack fantástico para promover supostamente a empresa de viagens dela, era para as Filipinas, estranhamente essa rapariga era a personagem principal, a psicóloga, da série "Diabo em Ohio" na netflix, e digo estranho porque eu gostei bastante da personagem em questão.
Talvez exactamente por isso no meu incosciente eu tenha transformado essa personagem numa pessoa manipuladora e assustadora, até porque, na minha vida, as pessoas que me pareciam mais confiáveis foram as que mais me desiludiram ou dano causaram. A Suzzane na personagem Diabo em Ohio era uma psicóloga generosa, empática, responsável e com os seus próprios traumas. O tipo de psicóloga que qualquer pessoa quereria ter.
Voltando ao meu sonho, eu chego ás Filipinas, no aeroporto, e começo a achar tudo estranho porque vejo raparigas lindíssimas a irem ter com a Suzanne a quem ela supostamente também fez essa oferta, no aeroporto o motorista recolhe todas as nossas malas que tinham todos os nossos pertences, vamos a caminho do suposto resort e como não conhecíamos nada não achámos nada estranho no caminho até ver que estávamos cada vez mais longe de qualquer centro turístico.
Chegamos então a um edifício enorme que mais parecia um shopping mas sem nada em redor, entreolhamo-nos todas, entramos no edifício e quando damos por nós temos uma arma apontada, o motorista vinha com uma metralhadora, ao entrarmos encontramos um homem com aspecto asqueroso e que por acaso foi das pessoas que mais mal fez-me na minha vida, tanto, que nem vou mencionar o nome dele aqui.
No próprio sonho por essa altura senti o meu corpo morrer, olhei para a Suzanne enquanto nos tiravam os telemóveis e ela não sentia qualquer tipo de remorço, culpa ou empatia, apenas encolheu os ombros e com um sorriso cínico disse-me: desculpa, mas uma pessoa tem que se safar como puder. Respondi com um "claro" sarcástico e o sonho acabou aí.
O ponto desta história é que não é totalmente mentira, á 12 anos passava pelo pior momento da minha vida, algo demasiado pesado para falar aqui, á 10 anos atrás apresentava uma queixa na polícia e pedia protecção pois tinha acabado de fugir, a polícia arromba a porta da minha casa onde todos os meus pertences de valor tinham sido recolhidos, dinheiro, computador, maquinas fotograficas, tudo o que servisse de prova, lembro-me do militar da PSP perguntar-me: ele está armado? Eu encolhi os ombros e respondi que não sabia.
Ao entrarmos em casa vimo-lo tranquilo, a beber como sempre, com uma mulher ao lado, soube disfarçar na perfeição a surpresa por a polícia estar ali, ligou para ela e devia ser um código para que ela mantivesse todas as minhas coisas num lugar seguro, sempre ela... Obrigaram-nos a entregar as chaves da minha casa e a polícia aconselhou-me a fugir dali pois iriam haver ameaças e repercursões enquanto o processo andava.
Ela não está presa, ela teve um filho e mantém uma vida de fachada típica, marido, casa, filho e rotinas, desejei do fundo do meu ser que o filho dela tivesse nascido mulher e que sempre que ela olhasse para ela se lembrasse de mim e do que pode acontecer a uma mulher, mas nasceu um rapaz. De tudo, tudo o que passei o que mais me dói até hoje é que eu seria incapaz de fazer isso a outra mulher, mas ela fez comigo, ela foi a capa de uma oferta de uma vida melhor, com sorrisos, bem vestida, bonita, meiga, até ao dia em que cheguei e comecei a ser pelas palavras dela a pessoa mais burra, mais feia e mais desprezível. Ela foi aquela que viu tudo encostada atrás de uma porta, a observar, a anuir, porque desde que ela estivesse bem tudo o resto não importava.
São sempre as mulheres, desde as questões mais leves até ás mais duras de se ouvir, como a minha, eu antes acreditava na palavra empatia, mas o ser humano é de facto o único ser vivo a destruir a própria espécie, são sempre mulheres na maioria até no próprio machismo, antes eu pensava que o machismo vinha dos homens, hoje eu sei que não é verdade, quero dizer, há uma grande fatia, mas os meus 37 anos já me permitem dizer que a maioria do preconceito contra as mulheres vem das próprias.
Fiz escolhas para a minha vida que para uns podem parecer controversas, e sofri bastante até chegar á conclusão que a opinião das pessoas não me importava mais, nunca quis ter filhos, nunca quis ter uma relação monógama, decidi trabalhar em casa e ser a minha própria chefe, calei bocas quando abri empresa e comecei a declarar tudo, sou vegan, fiz voluntariado por muitos anos, escolhi isolar-me, criar o meu ginásio em casa, apagar redes sociais até porque já tenho a minha dose com o trabalho remoto todos os dias, fiz o curso em segredo em pleno covid enquanto recebia lay off por baixo de críticas da família do Bruno que dizia que eu era uma falhada, diziam que trabalhar não era num computador, hoje calei essas bocas porque tenho uma vida estável e ganho 4 vezes mais do que cada um deles, não saio á noite e sim houve uma altura em que fumava como uma chaminé porque estava em fase de habituação á minha nova vida, cortei determinadas pessoas da minha vida, fiz uma limpeza á minha vida social, muita gente ficou chateada pelo caminho mas levo muito á letra a frase: "diz-me com quem andas e eu digo-te quem tu és", entrei no yoga e na meditação e passei a preferir a natureza a sitios lotados de gente, já ninguém vê-me em shoppings, compro tudo online, cortei o cabelo que me dava pelas costas num long bob, já não me visto como uma miúda, saio de casa e levo umas calças pretas clássicas, uma camisa e uns sapatos de salto médio e não ando a sorrir e a cruzar olhares com as pessoas porque estava farta de sair para qualquer lado e ter mulheres a olharem-me de soslaio, obviamente que isso continua a acontecer sempre que saio mas hoje em dia com a postura que tenho facilmente essas pessoas percebem que estão á procura de problemas com a pessoa errada, andar no Jujitsu ajudou a trabalhar a minha postura corporal, tive que sair porque lesionei-me, mas aprendi muito. Não vou a salões de estética, faço absolutamente tudo em casa, unhas, cabelo, pestanas, cortes de cabelo, pintar, e ganhei jeito, trabalho muito com a minha imagem e nunca ninguém notou.
O bom da vida que tive é que aprendi que temos que ser desenrascadas e facilmente as pessoas olham para mim e pensam que sou uma princesinha que passa a vida em salões de estética, bem, não, eu tenho duas mãos e tudo o que eu puder aprender a fazer sozinha, não só por uma questão financeira como de independência, eu faço, á dois meses antes deste caos eu andava a fazer obras em casa, fi-las sozinha, pinturas, fechar buracos na parede, arranjar aparelhos, mas adivinhem, passei a vida a ouvir que sou uma princesa frágil, que não podia trabalhar em limpezas que isso era feio para uma rapariga bonita como eu, os homens dizem o tempo todo que nós precisamos deles, da força deles, da capacidade para fazer arranjos em casa e para defender-nos fisicamente, e aqui vem a velha questão: do que é que eu precisaria de me defender se não existissem homens? (risos)
Sabem o que mais me choca na minha história, voltando um pouco atrás, é que os homens enchem a boca em plenos pulmões para dizer que precisamos deles, mas o engraçado é que se não existissem pervertidos prontos para explorar mulheres a bem do seu bel prazer eu nunca teria passado por isso, há mercado, há procura, e nós continuaremos a ser olhadas como produtos enquanto continuarem a existir homens absolutamente nojentos a quererem desesperadamente satisfazer as suas necessidades acima de qualquer coisa.
Quanto ás mulheres e ás decisões que tomei na minha vida, adivinhem quem mais criticou, sempre que dizia que não queria ter filhos diziam-me que era menos mulher por isso, ocultavam-me factos da gravidez e romantizavam a questão como se a informação não estivesse disponível em meia dúzia de cliques, quando eu e o Bruno abrimos a relação, os homens pensavam que as "regalias" eram só para ele e as mulheres criticavam-me, se por um lado supostamente eu era um corno manso, por outro eu era uma mulher vulgar por ter feito essa escolha, mas o engraçado é que quando descobriram que eu era bisexual e na maioria das vezes apenas estava com mulheres, a história mudou de figura, deixei de ser uma P porque não estava com homens, mas os homens vinham ter comigo e dizer que o que eu fazia era contra a vontade de Deus, que relações sexuais entre mulheres não deviam existir porque não podiam fazer filhos. Quando descobriu que eu era vegan a minha sogra perguntou-me como eu ía amamentar, sim, riam-se á vontade, talvez se eu ficasse grávida o meu leite fosse de origem animal e eu não sabia, não consigo deixar de rir-me a pensar nisto, sobretudo porque ela já sabia que nem eu nem o Bruno queriamos filhos. O Hugo e a Vanessa decidiram meter o nariz nessa decisão, acabou mal porque por essa altura já não engolia nada ou deixava nada a remoer cá dentro, portanto, os pedidos de desculpas depois de tudo o que me disseram para mim não valem absolutamente nada, desculparam-se e disseram que estavam a passar por uma fase má, descobri que o Hugo não pode ter filhos, mas eles esqueceram-se que não sabem absolutamente nada do que passei e bem podiam envergonhar-se se eu saísse por aí a descarregar nos outros todos os traumas que levo desta vida. O Rafa um belo dia viu-me a acender um cigarro e decidiu sair-se com a belíssima frase: "O Bruno vai ficar a saber disso porque eu sou amigo dele", bem, nesse dia eu disse-lhe: "tu és amigo do Bruno á 2 anos eu sou casada com ele a 8, quando souberes o que é manter uma relação vais descobrir que a nossa dura á tanto tempo porque não há mentiras nem ocultações, tanto para o bem como para o mal", emburrou e nunca mais me falou.
Foi assim que cortar com pessoas que já eram tóxicas na minha vida acabou por acontecer naturalmente, não foi difícil porque as pessoas continuavam a dar-me dia após dia razões para me afastar, e a minha vida melhorou desde que decidi que se fizesse amizades seria por haver conexão e amizade em vez de aceitar qualquer pessoa na minha vida por pura carência.
Talvez o meu aspecto de menina mesmo com 37 anos faça com que as pessoas se sintam livres de dar palpites sobre a minha vida, sem mais nem menos, mas a verdade é que á muito que deixei de ser uma pessoa acessível, á muito que comecei a usar a máxima: "quem diz o que não quer ouve o que não deve", foi assim que aconteceu com um ex colega meu que dizia que "uma mulher que não quer ter filhos não é mulher", e eu perguntei-lhe se um casamento onde havia sexo de 6 em 6 meses com sorte era um casamento, atirei para o ar, mas pelos vistos acertei, porque ele ficou vermelho como um tomate, o irónico é que uns meses depois apanhei-o com uma acompanhante a entrar na carrinha, não quero usar um nome mais reles, mas ela estava sempre na rua numa cadeira á beira da estrada, e portanto, reconheci-a logo, acenei-lhe com um sorriso: "então Paulo tudo bem? Como estão os teus filhos?", no dia a seguir ele veio pedir-me para não contar aquilo a ninguém e eu respondi que não tinha por hábito meter-me na vida dos outros.
Apesar de tudo o que passei, hoje sou um espirito livre e foi precisamente a privação de liberdade que me ensinou a gritar a minha liberdade, e agradeço por isso.
