Quando o medo se desgasta

Foram anos a viver com o medo como companhia. Ele acordava comigo, adormecia comigo, respirava no silêncio dos dias.
Por muito tempo acreditei que era ele quem me segurava, como se a vigilância constante fosse proteção. Mas o medo não protegia: consumia o meu corpo, esgotava a minha mente, secava a minha alegria.
Passei anos a olhar o futuro como um terreno minado. Antecipava desastres, inventava abismos, construía prisões dentro de mim. Como se não houvesse saída, como se não houvesse alternativa.
Mas no fundo havia: havia sempre chão debaixo dos meus pés, havia sempre escolhas, havia sempre em mim uma força que não se deixava calar. Eu não estava presa. O medo é que queria convencer-me disso.
Vivi também escondida do julgamento alheio. Durante anos temi ser descoberta, olhada de cima a baixo, reduzida a um estigma. Mas esse medo também se gastou.
Descobri que as pessoas julgam de qualquer forma. E que esse julgamento não muda quem eu sou, nem apaga a vida que construí. Eu já não tremo mais.
Não foi vitória súbita. Não foi iluminação espiritual. Foi cansaço. Depois de repetir tantas vezes a mesma angústia, percebi: a vida é curta demais para ser entregue ao medo. Eu não vou viver outra vez, não vou ter esta oportunidade outra vez. Então, por que desperdiçar?
Hoje olho para trás e vejo: o medo não desapareceu numa batalha heroica. Ele simplesmente se desgastou, de tanto me perseguir, até perder as garras.
E nesse esvaziamento nasceu a clareza: eu posso viver, eu posso escolher, eu posso ser quem sou — sem pedir desculpa, sem me encolher.
Que o medo exista em algum lugar, mas não mais em mim.
