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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

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Contra a maré

11
Ago25

Se calhar pus-me a jeito

Carina Martins

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Hoje, terminei o trabalho cedo e decidi ir até á frutaria comprar algumas coisas que me faltavam em casa, estava a tentar ligar á minha mãe pelo caminho quando um tipo com ar dos seus 20 e poucos e óculos de sol lembrou-se de me cumprimentar, eu nunca o tinha visto na minha vida, portanto não respondi. Pela postura percebi que ía insistir, dito e certo, arrancou do carro que estava no estacionamento e devagar quando chegou até mim perguntou se eu queria boleia, eu disse que não, perguntou uma segunda vez, eu desejei ter uma arma na bolsa mas em vez disso e comecei a digitar o numero da esquadra mais próxima, eles nao atenderam logo mas eu comecei a fingir que já tinham atendido, o gajo pirou-se e nem me disse mais nada.

Eu que ando cheia de pessoas e só saio de casa quando é absolutamente necessário suspirei e reforçei a minha teoria: sair só quando é necessário.

Á uns tempos estive a ver como funciona a lei em Portugal, gás pimenta não é permitido, digam isso a uma pessoa que viveu num bairro por 20 anos e quando era miúda era perseguida por ciganos com apetência a menores, obviamente que andava com o meu gás pimenta, a nossa lei é uma piada, mas preferia levar uma repreensão da polícia, pagar uma multa ou o que lá fosse a ser violada por um pervertido. Pelos vistos a lei prefere que andemos com uma navalha, isso já é permitido desde que não tenha mais que 10 centimetros de comprimento, eu não sou estúpida, dez centímetros causam danos, 10 centímetros matam, mas não sei manusear navalhas, não sou uma criminosa, sou apenas uma mulher que nunca se sentiu comfortável em andar sozinha na rua. Mas imaginemos só que eu era uma criminosa? A lei é fantástica, então, o gás pimenta que deixa alguém imobilizado por falta de visão durante alguns minutos é ilegal, mas perfurar alguém desde que sejam os benditos 10 centímetros está tudo bem, alguém confirma-me que  a lei foi feita por criminosos e para criminosos?

Mas a minha pesquisa pela lei não era por isso, ultimamente a zona onde vivo anda mais perigosa, ciganos que roubam casas e vá-se lá imaginar até animais domésticos, uma amiga do meu marido foi espancada por membros dessa gente de bem por apanhá-los a roubar, acolhi o Thor durante uma semana e descobri que o pobre bichinho tinha fugido de um acampamento deles, depois encontrei uma família para ele mas andava cheia de medo porque eles estão a poucos metros de mim e tinha medo que alguém me tivesse visto com o bichinho ao colo e lhes fosse meter aos ouvidos, sabem bem que esta malta nunca anda sozinha, quando ainda tinha o Thor um belo dia uma foi-me bater á porta, ouvi as batidas e escondi o bichinho no quintal que era o único sítio onde ninguém o ouviria, era uma cigana gordíssima mas suja e com um bebé no carrinho, daquelas que andam todas de preto, veio pedir dinheiro, tive o cuidado de abrir só o gradeamento da janela e não abrir mesmo a porta, mesmo assim abri pouco o suficiente para olhar para ela, falava com a gaja, dizia-lhe que nunca tinha dinheiro em casa e topei-a a olhar-me para dentro de casa e a observar tudo, a varrer tudo rapidamente com os olhos e portanto perguntei-lhe se precisava de alguma coisa, a gaja agradeceu e foi-se embora mas não gostei daquilo, passou-me vagamente pela cabeça que venham estas mulheres com a desculpa de pedir esmola para tirar a pinta á nossa casa e mandarem os maridos roubar.

As casas que tem sido assaltadas tem muros baixos, o que me vai safando é que tenho o muro de dois vizinhos ainda antes de conseguirem chegar ao meu, e os nossos muros são altos, portanto, dá-me um certo alívio mas mesmo assim tomamos todas as precauções. Estou a pensar seriamente em instalar umas câmaras de segurança no quintal, um dia aconteceu-nos algo muito estranho, chegámos a casa e demos de caras com um guarda sol bem robusto num quintal com um muro de 2 metros de altura, como é que aquele guarda sol tinha ido lá parar? Ok, estávamos num dia ventoso mas fomos bater á porta dos vizinhos e todos tinham os guarda sóis bem assentes no chão, temos uma casa que tem dois andares e ainda conseguimos ver do nosso quintal mas fica a uns bons 10 metros da nossa, não disse nada ao Bruno mas achei estranho.

Resumindo, o clima anda estranho, muito estranho por aqui, e começo sentir cada vez mais a necessidade de me proteger e resguardar, fui ver se havia alguma forma de obter porte de arma, bem, não havia, os bandidos não se importam muito com isso, e nós que levemos com o perigo de haver pouquissima polícia na nossa zona e fiscalização para esse tipo de coisas, só podia ter uma pressão de ar, mas pasmem-se, tinha que andar descarregada e dentro de um estojo, esperem lá que eu quando estiver com medo de um criminoso vou dizer-lhe: "dá-me um minuto, preciso de carregar a minha pressão de ar e tirá-la do estojo, se a policia vier, tu não viste nada disto porque eu não te podia mostrar"... Acabei por adquirir uma réplica bem realista de um 38, mas a frustração de não poder tê-la carregada faz-me rir da palhaça que me sinto neste sistema português.

Mas qual é a conclusão disto tudo?

Se calhar pus-me a jeito, a t-shirt larga e as calças de fato de treino que vesti hoje para ir á frutaria deveriam ser demasiado provocativas, eu é que já não sei vestir-me de forma decente, talvez da próxima leve burca, afinal os muçulmanos se calhar é que tem razão e mostrar a cara é demasiado chamativo, mas ironias á parte, que bonito, uma mulher vulnerável na rua que nem um gás pimenta pode usar, que nem a porcaria de uma pressão de ar pode levar carregada na rua, porque a lei, a lei está lá para os violadores, para os assediadores de plantão que só estão bem em causar-nos este espírito de insegurança, tirei a matrícula do gajo mas abanei a cabeça e pensei: para quê?....

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