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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

15
Ago25

Entre o Calor das Chamas e o Frio Humano

Carina Martins

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Os fogos fazem-me chorar, dá-me a ligeira sensação que este ano começaram mais tarde, certo? Vamos a meio de Agosto, vejo pessoas a lutar sozinhas, sem bombeiros em redor, penso no meu Simba quando era vivo, no medo que senti porque morrer queimado deve ser das piores coisas, e vejo a natureza a arder, obra do "ser humano" e apetece-me chorar, é das poucas notícias que ainda tem algum impacto em mim.

Olho para as florestas densas envoltas em vermelho e cinzas e penso em quantos animais não estarão desesperados por ali a lutar pela vida, o ser humano é um lixo, desculpem, mas é, sim, os incêndios acontecem por mão dos incendiários mas a preocupação ambiental dos portugueses é nula, eu lembro-me de fazer a reciclagem desde as campanhas de incentivo, devia ter uns 13 anos, mesmo sem ser ainda vegan, com essa idade comecei a reduzir na carne e no peixe, porque comecei a ter a noção do impacto da pecuária no nosso meio ambiente e obviamente também do sofrimento dos animais completamente desnecessário para satisfazer os nossos requintes de prazer.

Tenho 37 anos, e desde os meus 13 que levo uma vida consciente que tenho que proteger o planeta, a maioria das pessoas não ganha consciência uma única vez ao longo das suas vidas, limita-se a aceitar aquilo que foi imposto socialmente sem aprofundar absolutamente nada, sem questionar absolutamente nada, estudar, de preferência na área que os paizinhos escolheram, casar, ter filhos porque é o que dita a lei, comprar casa e ficar a pagá-la até morrer, e é isto, com umas cervejas e tascas pelo caminho enquanto a "Maria" faz a janta, no meio de tudo isso não há espaço para pensar, segue-se tudo em modo automático, ninguém é genuinamente feliz e quando digo que os portugueses têm um QI estupidificado, não quero dizer que as pessoas são naturalmente burras, quero dizer que as pessoas gostam de ser burras e por isso viram costas ao conhecimento.

Eu já me preocupava com os fogos mas desde que vivi no interior e vi de perto o medo, e senti o calor das chamas a aproximarem-se fiquei mais consciente, mais consciente ainda da chacina que é um fogo, pessoas que acham que podem chorar quando acabaram de deixar o cão acorrentado sem possibilidade de fugir, lágrimas de gente oca que só chora pelo próprio umbigo, chorem á vontade porque não comovem a mais pequena célula do meu corpo ou alma, choram porque sentiram medo mas esqueceram-se do medo, da dor, do abandono e sofrimento que causaram deliberadamente a outro ser vivo porque vivem na bolha de um espécismo de que vocês são os mais importantes, viva ao ser humano que é mais digno e importante, e vejam lá o tamanho da sua nobreza que foge com o rabo entre as pernas de um fogo sem dispender 5 segundos para desacorrentar um cão que não soube o que é liberdade a vida toda e que agora vai ter a sua alma livre não sem antes passar pela dor mais atroz. Viva o ser humano que julga-se tão importante e nem é capaz de sentir empatia pela dor alheia, a ciência criada pelo próprio comprova que os animais sentem dor, dor física mas também dor da alma, que bom que o ser humano é racional, mas esperem, onde está a aplicação da razão num puro acto de cobardia?

No reino animal, até as formigas, o mais pequeno dos insectos anda em bando, organizadamente, constroem filas, seguem pelo seu destino, umas quantas com comida as costas 3 vezes maior do que os seus pequenos corpos, entreajudam-se, não há hierarquias, não precisam porque entendem que o bem de uma é o bem de todas, fazem pontes com os seus corpos para outras passarem se for preciso, mantém-se vivas e unidas, e portanto, não posso chamar o ser humano de forma alguma de formiga, o ser humano não passa de uma maçã podre que foi crescendo e corroendo com o resto da árvore, e hoje é uma praga que está descontrolada. Porque aí está até as irracionais formigas sem ter a tão aclamada razão humana, entendem o básico dos básicos, entreajuda e empatia, enquanto que o ser humano é o único que até á própria espécie ataca e prejudica.

Há anos que vemos incendiários a colocar fogo ás florestas e qual é a pena de prisão? 2 ou 3 anos? Onde estão as pessoas mortas no combate ao fogo, a morte de centenas de animais, a destruição de espécies, mais um roubo da fauna e da natureza que nos dão o precioso oxigénio, onde está responsabilização por isso? Por famílias que demoraram anos para construir algum conforto e de repente vêm-se sem abrigo?

Para mim um incendário deveria levar pena perpétua, para mim a acusação é de tentativa de homício, pela tentativa de matar mais um pedaço de um mundo que pertence a todos mas do qual poucos cuidam, para mim, pessoas que deixam animais á espera da morte deveriam ser igualmente condenadas, e sim, eu já vi um fogo de perto, sei que dá medo, mas a minha própria mãe doente, sem mal conseguir caminhar foi capaz de pegar nos animais que tinha que não eram poucos, meter-se numa carrinha e fugir, portanto não há desculpas, eu não sei onde está a consciência e o raciocínio do qual esta gente tanto se gaba, porque eu era incapaz de encostar a minha cabeça na almofada á noite e adormecer sabendo que deixei alguém para trás para morrer porque não me apeteceu.

Na Serra da Estrela, lembro-me de o João arranjar forma de evacuar todos os animais, cavalos, cães, porcos, galinhas, cabras, todos evacuados, as pessoas uniram-se e conseguiram, há poucos casos, mas existem uns quantos casos de pessoas que não julgam do alto do seu nariz que o corpo delas é o único que sente e importa.

Estes fogos são culpa dos incendiários? Sim. Mas também alastram-se com esta facilidade tal devido ao aquecimento global, quando eu tinha 15 anos os verões não eram assim, e não eram mesmo porque da minha infância lembro-me eu bem, haviam picos de calor? Sim, mas não a estes extremo em que todos os dias tenho que ligar á minha mãe para lembrá-la de andar sempre com água fresca e a bomba da asma. 

Tal como já disse uma vez, o Mundo não é uma merda, uma merda são as pessoas que que o destróem e tornam esta vida pesada por conta sempre do mesmo, ganância, egoísmo e ás vezes apenas pura maldade.

28
Jul25

Domingos

Carina Martins

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"Anima-te" disse-me o Bruno ontem, em meio a algumas macacadas pelo caminho, ele está sempre feliz, não é um escudo, não é uma defesa, ele está apenas sempre feliz, o Bruno é uma pessoa boa e ama-me, mas faz mais ou menos parte do "rebanho", consegue abstrair-se das coisas e viver.

"Anima-te" diz-me ele e eu penso que não quero que ele seja como eu, ninguém que eu ame merece carregar esse peso, penso para mim "como se fosse fácil" mas não digo-lhe absolutamente nada, faço um sorriso forçado e sigo a sentir o vento que já se sente mais suportável ás 20h da noite á beira da praia.

Ainda há imensa gente na praia, as notícias "algas afastam turismo no Algarve" não me parece muito verídica já que são 20h e ainda vejo imensa gente no areal, nos restaurantes, nos passadiços... Imagino quão imcomportável estaria esta pequena praia a meio do dia, com o solo mais quente, gente aglomerada a morrer um pouco ao sol sem espaço para passar entre toalhas, o belo passatempo de nada fazer.

Desculpem-me mas se é para voltar a ter um blogue vou ser eu mesma, e de facto nunca percebi a lógica de ficar imóvel a tostar ao sol por todo um dia, sem um livro para ler, apenas o "dolce fare niente" que nunca foi algo que de facto apreciasse. As pessoas apenas estão ali, nem parecem reflectir sobre absolutamente nada, estão quietas, paralizadas, a apanhar sol para dizerem que estiveram no Algarve.

Por incrível que pareça não havia ninguém com uma coluna de música ligada ao máximo, que bom, ainda assim sinto a falta do inverno, ouvir o mar bravo, observar o movimento das ondas, as gaivotas, o silêncio... 

Seguimos caminho para o mesmo canto de sempre, descobrimos um lugar que nem toda a gente conhece e onde podemos soltar os cães para eles correrem livremente, todo ladeado de rochas por isso eles nem tem por onde fugir, seguro, tranquilo, mais nosso no inverno, quando não nos deparamos ninguém que tenha elegido o espaço para fumar erva...

A minha cadela foi resgatada de uma situação de abandono e violência e tem pavor a pessoas, por isso é que escolhemos estes espaços só para nós, para além de que não temos que lidar com a soberba humana de achar que os animais não fazem parte de um espaço natural, 15 minutos a sentir a areia nas mãos, a água fria do mar, a correr e a fazer de tudo para parecer feliz pelo menos para eles, é tudo tão curto para eles, quero-os felizes, ninguém tem que ser contagiado com a minha visão negra das coisas.

Há todo um areal extenso, enorme, onde os animais não são permitidos por norma e as pessoas podem estar, mas meia duzia de turistas seguiram-nos á descoberta e a nossa paz acaba num estalar de dedos, olham para nós antes de pular rochas a baixo para ficarem perto de nós, sorriem-me, mas desculpem, eu não devolvo, eu estou absolutamente cansada do ser humano no geral, e fizemos 15 minutos a pé para estar sozinhos, quando um grupo de acéfalos achou que podiam estar conosco sem nos conhecerem de lugar algum, obviamente que o ambiente estava intragável e acabaram por sair, eu sei que a praia é de todos, mas reparem, nós esperamos os concecionarios fecharem, tivemos o dia todo de folga e esperamos por uma hora precisa para que os caes se divertissem, percorremos 15 minutos entre rochedos e dunas para chegar aquele lugar para o momento para o qual esperamos o dia todo ser estragado por alemães curiosos, well done.

O Bruno disse-me, não prendas a cadela as pessoas tem que aprender a respeitar o espaço das outras, mas na minha cabeça imaginei a cadela morder um turista, ele a atacá-la e eu a transformar-me para defender a unica coisa em que ainda acredito na minha vida, a inocencia de um animal, é uma cadela de porte pequeno, 12 kilos, não tem porte para provocar grandes danos mas sou eu que quero salvaguardar o meu dia na medida do possivel, estou cansada, aliás, exausta de lutar.

Soltamos os cães novamente, deixamo-los desfrutarem de alguma liberdade, o Bruno entretido a fazer videos e eu a respirar ar puro e a observar a natureza, passado um pouco decidimos ir caminhando até ao carro á beira da água, para sentir o fresco da água do mar que sabe tão bem no meio deste calor, uma senhora sorri para nós, traz um cão ao colo envolto numa toalha, deve ter estado na água, há poucas pessoas de quem eu goste nesta vida, mas as que gostam de animais tem o meu sorriso de volta, deixo a Khaleesi socializar um pouco, o Mickey não é muito dado a socializar com outros animais, cheiram-se e estão ali as duas muito a medo, trocamos 3 dedos de conversa, agradáveis, a minha interacção saudável que não tinha em semanas, despedimo-nos e seguimos. Senti-me um pouco menos sozinha, alguns sorrisos são reais, poucos, mas ainda vai acontecendo...

Reparem, a minha depressão dura a uns 2 meses, voltou em força, não sou de me queixar de barriga cheia, cresci pobre, aprendi a dar valor a coisas pequenas, mas tantas coisas tem acontecido, e eu raramente consigo sorrir, mas na ausencia de sorrisos procuro por paz, migalhas de alguma calmaria que esse Deus de quem toda a gente fala ache que eu mereça...

 

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