Pensar dói
Coloquei as minhas tristezas numa gaveta outra vez, não consigo, se continuar a sentir sei que posso acabar a fazer uma loucura, e esta é a minha escolha entre deixar-me afundar e egoistamente dar cabo da vida do Bruno e dos que dependem de mim, e continuar funcional.
Arrumar a nossa tristeza para dentro de uma gaveta não é saudável, mas há muito tempo que o faço. Eu preciso de respostas que nunca vou ter, não num mundo ao contrário, só elas podiam resolver a minha dor, e há quem não compreenda uma depressão e possa dizer que isso é causado por nós, bem não é, uma vez ouvi uma frase e ela ficou comigo para toda a vida "pessoas boas acabam a precisar de terapia para lidar com pessoas más que acham que não precisam de terapia", e é bem isto, já lidei com muitas perdas desde muito nova, a primeira foi o Miguel, um amigo meu que com 13 anos tirou a própria vida, o Miguel tinha tudo para ser um miúdo popular, e era, ele tinha bastante dinheiro, vestia-se bem, tinha excelentes notas na escola, era bom a desporto, praticava artes marciais, era bonito, mas o Miguel decidiu não se juntar aos bullys da escola, pelo contrário, ele era um miudo com 13 anos com uma sensibilidade enorme, eu conheci-o um dia quando no intervalo entre aulas fiquei do lado de fora da sala de convivio onde a maioria dos alunos ficava, eu ficava a observar e a rabiscar, ele veio ter comigo e perguntou-me se estava tudo bem, que tinha reparado que eu ficava sempre sozinha, eu que ainda não conhecia o Miguel fiquei assustada, nervosa e a pensar cá para mim: "oh nao, outro bully", respondi-lhe que estava tudo bem e estava melhor assim. Ele olhou para a sala de convivio e disse-me: "eu sei" na direcçao dos olhos dele estavam o Carlos, o Ulisses e outros de quem já não me lembro o nome, o grupo de miudos que me faziam a vida num inferno, a mim, aos miudos pobres, aos miudos que tivessem o infortunio de ser diferentes e ás vezes até aos professores. Baixei a cabeça e esbocei um sorriso triste: "está tudo bem", depois a partir desse dia começamos a falar de coisas comuns, gostos, talentos, musica, desporto, animais. Duas semanas depois entramos nas férias de páscoa e o Miguel morreu, e eu como o conhecia a duas semanas não me pude permitir chorar a frente de ninguém, apenas fiquei por um mes inteiro a dormir tudo o quanto pudesse, a chorar, tudo o quanto pudesse, obviamente que tudo isto era um pretexto para que o meu pai me batesse, mas ao final de um mês por fim vi que ele estava assustado e por fim veio ter comigo no quarto, cobri-me com os lençois e semicerrei os olhos com a luz porque mal saia do quarto, ele teve uma conversa comigo sobre morte, disse-me que ela fazia parte da vida e coisas por aí fora, só não me disse porque é que "Deus" levava as pessoas boas em vez das más, acho que foi das poucas vezes em que o meu pai pediu-me desculpas, mas a ultima frase foi a minha: "podia ter sido eu, toda a gente gostava do Miguel, eu faria menos falta."
Não se preocupem, uma semana depois o meu pai voltava ao normal, agressões e pancadaria pela coisa mais pequena e insignificante.
Passei dois meses com aquilo que foi a minha primeira grande depressão, essa dor não arrumei na gaveta, permiti-me chorar, sentir e sofrer, mas de que me valeu? Nunca tive respostas ás minhas perguntas o que significa que mais tarde ou mais cedo acabamos mesmo por colocar as dores numa gaveta.
Deve ter sido aí que percebi que não vale a pena chorar, não vale a pena pensar, mas sabem qual é o problema de colocarmos as dores numa gaveta? É que ás vezes um pequeno abalo abre todas as gavetas, e ao longo da vida vamos acumulando muitas gavetas, muitas divisórias, e ás vezes a vida dá-nos um soco no estômago e abre todas as gavetas de uma vez.
Foi isso que me aconteceu, não tinha uma depressão desde 2017 I guess, ou melhor, ela estava controlada, foi o periodo de tempo mais longo em que consegui colocar a cabeça no lugar, o facto de já não trabalhar para ninguém ajuda, trabalho 3 vezes mais do que essa altura, mas faço o que gosto, e ao menos isso da-me alguma paz.
Claro que ás vezes dou por mim a deambular, quem me dera ter muito dinheiro, ganhar a lotaria, criava um santuário com todos os animais vitimas da maldade humana e era feliz só com isso.
Por falar nisso, no dia dos meus anos aconteceu uma coisa muito bonita, havia um senhor espanhol á porta de um supermercado, com um cão, a pedir esmolas, o cão de pelo brilhante, bem alimentado, ao lado dele, sem trela, e ele cabisbaixo, magrissimo, não pedia, limitava-se a estar ali. O Bruno foi comprar algumas coisas e ligou-me a pedir conselhos sobre o que dar, e eu disse-lhe compra comida ao cão e umas sandes para o senhor, eu era mais a favor de raçao seca pois sempre durava mais uns dias, mas o Bruno quis oferecer uma lata de 1k de humidos, pegou em duas baguetes prontas uma com pasta de atum e outra com ovo, uma garrafa de agua e foi entregar ao senhor: "peço desculpas, se calhar dinheiro dava-lhe mais jeito mas eu nunca ando com dinheiro", o senhor começou a chorar e disse-lhe que aquilo que ele tinha acabado de fazer era melhor do que dinheiro, eu comecei a chorar junto, o Bruno começou a chorar e senti o meu coraçao um pouco mais quente, mais vivo.
Não, o senhor não tinha alcool nem tao pouco cheirava a alcool, tambem nao estava a fumar, mas sabem, lá se foi o tempo em que eu criticava vicios, já não consigo, para mim é o suficiente ele estar ali com um rafeiro enorme e mesmo sem um teto para viver leva-lo com ele para todo o lado, quantas pessoas vivem em mansoes e casas enormes e rodeadas de luxos e nunca fizeram uma unica boa acçao? Além disso, eu própria já me refugiei em cigarros, mas trabalho com a minha imagem e fiquei com receio de perder o meu ganha pão, de começar a definhar, então parei.
O próprio Kurt Cobain está ali, agarrado a um cigarro a resumir a minha luta num video de poucos segundos, acho que as minhas almas gémeas morreram todas ou acabaram por tirar a própria vida, ser sensível num lugar tão negro é uma maldição, eu sei disso, mas não me quero juntar á "manada", eu sei que isto soa arrogante, mas ainda ontem conversava com o Bruno sobre isto, de facto deve ser uma sensação muito boa ser-se alienado, não sentir empatia, não nos preocuparmos, vivermos para o nosso próprio umbigo, mas eu não quero e nunca hei de ser assim, prefiro acabar por tirar a minha própria vida a fazer parte da psicopatia que abunda na nossa sociedade, porque das poucas coisas que ainda posso sentir orgulho é a certeza que tenho de que sou uma pessoa boa, e se é para ter vergonha de mim própria, mais vale cá não estar.
Mas como dizia, depois do Miguel tudo ficava guardado em gavetas, absolutamente tudo, as agressões do meu pai, a violação que sofri com 9 anos, o bullying, os traumas, eu ia para a escola com uns olhos tristes mas serena, quando o bullying começou a terminar e as pessoas começaram a sentir pena de mim (nunca gostei da pena de ninguém mas era melhor do que estar em modo alerta 24/7), começaram a chamar-me da menina dos olhos tristes, eu não sorria, não chorava, apenas observava as pessoas no meu canto, falar era abrir uma porta para que me pudessem fazer sofrer então foi assim que eu aprendi a tornar-me uma pessoa observadora.
Obviamente que como não chorava, não falava sobre isso, não desabafava a escrita começou a fazer parte da minha vida como uma espécie de terapia desde os meus 9 anos, diários enormes todos preenchidos e escondidos que acabaram por ser deitados fora pelos meus pais, e obviamente que guardar as dores em gavetas trás consequências, uma delas era chegar ao trabalho a tremer, não conseguir ouvir a voz de um homem a falar mais alto e ter um subito ataque de pânico, tive a sorte de que a gerente da primeira loja onde trabalhei tornou-se acima de tudo uma amiga, e esperou pacientemente que os meus traumas se fossem curando, quando eu chegava ao trabalho a tremer a Cláudia já sabia o que se passava, dava-me um copo de água, abraçava-me e chorava e dizia-me: tem calma, tudo vai melhorar, um dia de cada vez.
Eu era como um animal ferido, desconfiado, e o atendimento ao publico apesar de ser o que é ajudou-me a saber lidar com pessoas, percebi que tinha que ser forte para parar de ser íman para pessoas maldosas, guardei as minhas dores em gavetas e transformei-as em ódio tantas vezes, zangada com "Deus" com o mundo e com as pessoas, descontei no desporto, na escrita e sempre fui capaz de amar apenas os animais, os unicos seres neste mundo que matam apenas para poder comer, enquanto que o ser humano mata e fere por inveja, ganancia, maldade, os animais são puros, sem o "raciocinio" do qual tanto o ser humano se gaba, mesmo a fazer um uso vergonhoso dele.
O que me vai salvando a vida é isso, a capacidade de arrumar a minha dor, de escondê-la de mim, de dizer com muita força: "chega, não vais pensar mais nisso" e conseguir, isso não faz de mim um melhor ser humano, mas é a unica coisa que posso fazer se me quero manter viva, eu nunca vou encontrar respostas para esta sociedade doentia. Já não tenho medo de morrer, sei que quando isso acontecer vou por fim poder descansar em paz, fechar os olhos e nunca mais pensar.
Pensar dói.
No meu dia de anos arrumei por fim as minhas dores numa gaveta, um dia terei as minhas gavetas a transbordar e sei que a depressão irá voltar, mas por agora sobrevivo neste mundo de loucos.
