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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

01
Ago25

Pensar dói

Carina Martins

Coloquei as minhas tristezas numa gaveta outra vez, não consigo, se continuar a sentir sei que posso acabar a fazer uma loucura, e esta é a minha escolha entre deixar-me afundar e egoistamente dar cabo da vida do Bruno e dos que dependem de mim, e continuar funcional.

Arrumar a nossa tristeza para dentro de uma gaveta não é saudável, mas há muito tempo que o faço. Eu preciso de respostas que nunca vou ter, não num mundo ao contrário, só elas podiam resolver a minha dor, e há quem não compreenda uma depressão e possa dizer que isso é causado por nós, bem não é, uma vez ouvi uma frase e ela ficou comigo para toda a vida "pessoas boas acabam a precisar de terapia para lidar com pessoas más que acham que não precisam de terapia", e é bem isto, já lidei com muitas perdas desde muito nova, a primeira foi o Miguel, um amigo meu que com 13 anos tirou a própria vida, o Miguel tinha tudo para ser um miúdo popular, e era, ele tinha bastante dinheiro, vestia-se bem, tinha excelentes notas na escola, era bom a desporto, praticava artes marciais, era bonito, mas o Miguel decidiu não se juntar aos bullys da escola, pelo contrário, ele era um miudo com 13 anos com uma sensibilidade enorme, eu conheci-o um dia quando no intervalo entre aulas fiquei do lado de fora da sala de convivio onde a maioria dos alunos ficava, eu ficava a observar e a rabiscar, ele veio ter comigo e perguntou-me se estava tudo bem, que tinha reparado que eu ficava sempre sozinha, eu que ainda não conhecia o Miguel fiquei assustada, nervosa e a pensar cá para mim: "oh nao, outro bully", respondi-lhe que estava tudo bem e estava melhor assim. Ele olhou para a sala de convivio e disse-me: "eu sei" na direcçao dos olhos dele estavam o Carlos, o Ulisses e outros de quem já não me lembro o nome, o grupo de miudos que me faziam a vida num inferno, a mim, aos miudos pobres, aos miudos que tivessem o infortunio de ser diferentes e ás vezes até aos professores. Baixei a cabeça e esbocei um sorriso triste: "está tudo bem", depois a partir desse dia começamos a falar de coisas comuns, gostos, talentos, musica, desporto, animais. Duas semanas depois entramos nas férias de páscoa e o Miguel morreu, e eu como o conhecia a duas semanas não me pude permitir chorar a frente de ninguém, apenas fiquei por um mes inteiro a dormir tudo o quanto pudesse, a chorar, tudo o quanto pudesse, obviamente que tudo isto era um pretexto para que o meu pai me batesse,  mas ao final de um mês por fim vi que ele estava assustado e por fim veio ter comigo no quarto, cobri-me com os lençois e semicerrei os olhos com a luz porque mal saia do quarto, ele teve uma conversa comigo sobre morte, disse-me que ela fazia parte da vida e coisas por aí fora, só não me disse porque é que "Deus" levava as pessoas boas em vez das más, acho que foi das poucas vezes em que o meu pai pediu-me desculpas, mas a ultima frase foi  a minha: "podia ter sido eu, toda a gente gostava do Miguel, eu faria menos falta."

Não se preocupem, uma semana depois o meu pai voltava ao normal, agressões e pancadaria pela coisa mais pequena e insignificante.

Passei dois meses com aquilo que foi a minha primeira grande depressão, essa dor não arrumei na gaveta, permiti-me chorar, sentir e sofrer, mas de que me valeu? Nunca tive respostas ás minhas perguntas o que significa que mais tarde ou mais cedo acabamos mesmo por colocar as dores numa gaveta.

Deve ter sido aí que percebi que não vale a pena chorar, não vale a pena pensar, mas sabem qual é o problema de colocarmos as dores numa gaveta? É que ás vezes um pequeno abalo abre todas as gavetas, e ao longo da vida vamos acumulando muitas gavetas, muitas divisórias, e ás vezes a vida dá-nos um soco no estômago e abre todas as gavetas de uma vez.

Foi isso que me aconteceu, não tinha uma depressão desde 2017 I guess, ou melhor, ela estava controlada, foi o periodo de tempo mais longo em que consegui colocar a cabeça no lugar, o facto de já não trabalhar para ninguém ajuda, trabalho 3 vezes mais do que essa altura, mas faço o que gosto, e ao menos isso da-me alguma paz.

Claro que ás vezes dou por mim a deambular, quem me dera ter muito dinheiro, ganhar a lotaria, criava um santuário com todos os animais vitimas da maldade humana e era feliz só com isso.

Por falar nisso, no dia dos meus anos aconteceu uma coisa muito bonita, havia um senhor espanhol á porta de um supermercado, com um cão, a pedir esmolas, o cão de pelo brilhante, bem alimentado, ao lado dele, sem trela, e ele cabisbaixo, magrissimo, não pedia, limitava-se a estar ali. O Bruno foi comprar algumas coisas e ligou-me a pedir conselhos sobre o que dar, e eu disse-lhe compra comida ao cão e umas sandes para o senhor, eu era mais a favor de raçao seca pois sempre durava mais uns dias, mas o Bruno quis oferecer uma lata de 1k de humidos, pegou em duas baguetes prontas uma com pasta de atum e outra com ovo, uma garrafa de agua e foi entregar ao senhor: "peço desculpas, se calhar dinheiro dava-lhe mais jeito mas eu nunca ando com dinheiro", o senhor começou a chorar e disse-lhe que aquilo que ele tinha acabado de fazer era melhor do que dinheiro, eu comecei a chorar junto, o Bruno começou a chorar e senti o meu coraçao um pouco mais quente, mais vivo.

Não, o senhor não tinha alcool nem tao pouco cheirava a alcool, tambem nao estava a fumar, mas sabem, lá se foi o tempo em que eu criticava vicios, já não consigo, para mim é o suficiente ele estar ali com um rafeiro enorme e mesmo sem um teto para viver leva-lo com ele para todo o lado, quantas pessoas vivem em mansoes e casas enormes e rodeadas de luxos e nunca fizeram uma unica boa acçao? Além disso, eu própria já me refugiei em cigarros, mas trabalho com a minha imagem e fiquei com receio de perder o meu ganha pão, de começar a definhar, então parei.

O próprio Kurt Cobain está ali, agarrado a um cigarro a resumir a minha luta num video de poucos segundos, acho que as minhas almas gémeas morreram todas ou acabaram por tirar a própria vida, ser sensível num lugar tão negro é uma maldição, eu sei disso, mas não me quero juntar á "manada", eu sei que isto soa arrogante, mas ainda ontem conversava com o Bruno sobre isto, de facto deve ser uma sensação muito boa ser-se alienado, não sentir empatia, não nos preocuparmos, vivermos para o nosso próprio umbigo, mas eu não quero e nunca hei de ser assim, prefiro acabar por tirar a minha própria vida a fazer parte da psicopatia que abunda na nossa sociedade, porque das poucas coisas que ainda posso sentir orgulho é a certeza que tenho de que sou uma pessoa boa, e se é para ter vergonha de mim própria, mais vale cá não estar.

Mas como dizia, depois do Miguel tudo ficava guardado em gavetas, absolutamente tudo, as agressões do meu pai, a violação que sofri com 9 anos, o bullying, os traumas, eu ia para a escola com uns olhos tristes mas serena, quando o bullying começou a terminar e as pessoas começaram a sentir pena de mim (nunca gostei da pena de ninguém mas era melhor do que estar em modo alerta 24/7), começaram a chamar-me da menina dos olhos tristes, eu não sorria, não chorava, apenas observava as pessoas no meu canto, falar era abrir uma porta para que me pudessem fazer sofrer então foi assim que eu aprendi a tornar-me uma pessoa observadora.

Obviamente que como não chorava, não falava sobre isso, não desabafava a escrita começou a fazer parte da minha vida como uma espécie de terapia desde os meus 9 anos,  diários enormes todos preenchidos e escondidos que acabaram por ser deitados fora pelos meus pais, e obviamente que guardar as dores em gavetas trás consequências, uma delas era chegar ao trabalho a tremer, não conseguir ouvir a voz de um homem a falar mais alto e ter um subito ataque de pânico, tive a sorte de que a gerente da primeira loja onde trabalhei tornou-se acima de tudo uma amiga, e esperou pacientemente que os meus traumas se fossem curando, quando eu chegava ao trabalho a tremer a Cláudia já sabia o que se passava, dava-me um copo de água, abraçava-me e chorava e dizia-me: tem calma, tudo vai melhorar, um dia de cada vez.

Eu era como um animal ferido, desconfiado, e o atendimento ao publico apesar de ser o que é ajudou-me a saber lidar com pessoas, percebi que tinha que ser forte para parar de ser íman para pessoas maldosas, guardei as minhas dores em gavetas e transformei-as em ódio tantas vezes, zangada com "Deus" com o mundo e com as pessoas, descontei no desporto, na escrita e sempre fui capaz de amar apenas os animais, os unicos seres neste mundo que matam apenas para poder comer, enquanto que o ser humano mata e fere por inveja, ganancia, maldade, os animais são puros, sem o "raciocinio" do qual tanto o ser humano se gaba, mesmo a fazer um uso vergonhoso dele.

O que me vai salvando a vida é isso, a capacidade de arrumar a minha dor, de escondê-la de mim, de dizer com muita força: "chega, não vais pensar mais nisso" e conseguir, isso não faz de mim um melhor ser humano, mas é a unica coisa que posso fazer se me quero manter viva, eu nunca vou encontrar respostas para esta sociedade doentia. Já não tenho medo de morrer, sei que quando isso acontecer vou por fim poder descansar em paz, fechar os olhos e nunca mais pensar.

Pensar dói.

No meu dia de anos arrumei por fim as minhas dores numa gaveta, um dia terei as minhas gavetas a transbordar e sei que a depressão irá voltar, mas por agora sobrevivo neste mundo de loucos.

 

27
Jul25

Dias

Carina Martins

Alguma vez sentiram vontade de morrer?

Eu já, inúmeras vezes ao longo da minha vida, algumas vezes tentei mesmo levar ávante, outras, limitei-me a viver com uma tristeza que transbordava e que muitas vezes culminava com ataques de choro e desespero.

Ultimamente, a unica coisa que acalma a dor que sinto, á noite, quando todos os pensamentos surgem, é pedir a Deus que me leve, que me leve numa noite de sono, sem que eu perceba, e prolongue o unico momento do meu dia que me dá alguma paz. Ultimamente tenho dormido mal, tenho pesadelos que só reforçam os pensamentos, as preocupações e as angústias que me deixam desperta até que as lágrimas me cansem, acordo cansada, sem vontade de tomar um banho, de me arranjar ou de fazer o que quer que seja.

Já não preciso de despertador para acordar, durmo pouco, acordo sobressaltada, são 6h da manhã e penso que podia aproveitar que ainda não há quase ninguém na rua para levar os cães a dar um passeio, com sorte, ainda há uma brisa fresca, ainda vou sentir o vento e ver o mundo sem que as pessoas despontem mais um dia para tornar tudo escuro e envolto em negrume.

Não acredito em Deus, e francamente tenho inveja de quem acredita, isso deve dar alguma motivação para viver, alguma esperança, mas é por não acreditar nele que lhe peço tantas vezes que me leve, afinal, é isso que ele sabe fazer não é? Levar os bons.

Também não acredito nas pessoas, e talvez tenha sido isso em primeiro lugar que me tenha feito deixar de acreditar em Deus, chamamos-lhe de forma arrogante, aos seres humanos, a espécie dominante, queria ver um homem enfrentar um leão sem artefactos, queria vê-lo a sobreviver no meio de uma selva, despido de lamborguinis, ferraris, roupas de marca, relógios de nixo, perfumes caros, despido sobretudo de soberba, queria vê-lo do alto do seu nariz a ser a espécie dominante.

O ser humano, aquele que se gaba de ser racional, de ter o poder de pensar, mas pensa? Será  que uma dona de casa pensa quando um dia numa ida ao shopping lança um esgar de raiva para uma miúda mais nova? Será que um homem que nunca deu um chute numa bola mas que é fanático por futebol pensa quando diz que o Cristiano Ronaldo é a pessoa mais importante do mundo, será que ele pensa no que diz enquanto a mãe dele que se sacrificou para que ele hoje tivesse uma vida estável convalece no quarto ao lado cansada e doente? Será que algum homem que assobia para uma adolescente que vai a falar ao telemóvel com a CPCJ porque a irmã fugiu da instituiçao pensa? Perdoem-me, mas raciocinio para que? Pensam? Ou apenas usam o minimo da capacidade de raciocinio para fazer o minimo no mundo?

Acordam, tomam banho, bebem café, lavam os dentes, vão para o trabalho, desempenham meia duzia de tarefas em modo automatico durante 8 horas, chegam a casa, se forem homens sentam-se, se forem mulheres continuam tudo em modo automatico, até chegar o momento de dormir, e ignorar, porque pensar cansa, e esquecer, o cao que atropelaram e deixaram á berma  de uma estrada, a colega que ficou a trabalhar a dobrar para poderem fumar um cigarro,  mas lembram-se de falar, sobretudo de falar mal, de falar da vizinha que discutiu com o marido outra vez, da colega que trouxe roupas impróprias para o trabalho, e assim dormem, poucos minutos depois, com vidas vazias, olhares ocos, corpos em modo automatico, almas apodrecidas...

Então talvez, só hoje, eu aventure-me a sair de casa e levar os cães que me mantém viva ao longo destes anos a passear, mas, respiro fundo, t-shirt larga, auscultadores nos ouvidos sem nada ligado porque isso significa que as pessoas pensam que eu não as posso ouvir, e os homens acham que nós temos que os ouvir quando eles despejam lixo em meia duzia de palavras sobre o nosso corpo, que na verdade, eles pensam que é deles, não sorrio, não olho nos olhos, não como fazia antes, coloco um escudo que me protege de um mundo negro, sinto o vento, vejo o sol a nascer e pergunto mais um dia a olhar bem no fundo dos olhos dos meus cães, onde está Deus porque eu não o vejo, acho que nunca o vi...

E talvez, só talvez, um dia eu perca a cabeça e grite para as pessoas, voces ganharam, o meu corpo é todo vosso para desdenharem, de voces mulheres que me olham feio, de voces homem que me querem á força, do homem que me violou, das pessoas que me quiseram forçar a ser mãe, do mundo que me quis dizer com quem eu deveria ter sexo, o meu corpo morto, desfalecido, vazio, é vosso, porque a minha alma já foi, algures perdida no tempo, tomem-no, fiquem com ele, não foi isso que sempre quiseram?

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