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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

05
Ago25

Uma sombra

Carina Martins

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O corpo humano é impressionante, a mente humana é impressionante, porque ás vezes a dor de perder é tão grande que uma cala a outra, e hoje percebo a Rosi uma das poucas amigas que tive na vida, que se cortava para calar a dor, porque nunca tinha sentido isto desta forma.

Dizem que "deus" dá nos somente aquilo que podemos aguentar, "deus" rio, mas que Deus é esse que passa a vida a testar os nossos limites para ver até onde aguentamos, e se não aguentarmos? Há por aí tanta gente nova que não aguentou, que tem flores de mês a mês num espacinho de um ou dois metros, se a família não tiver ficado chateada, porque há pessoas que vêm o suicídio como um acto de cobardia e egoísmo, mas ninguém imagina o que é sentir uma dor tão grande que se perde a esperança no mundo e nas pessoas, sentir uma dor que dói e que trava o corpo e que já nada a pode acalmar, egoísmo, como o ser humano usa essa palavra tão levianamente, para mim egoísmo é a palavra que define a maior parte da sociedade hoje em dia, e falo dos vivos obviamente.

Kurt Cobain, por exemplo, era sensível demais, pensava "demais", pensar nunca devia ser demais, mas num mundo virado ao contrário pensar é um veneno que nos vai consumindo aos poucos.

A Rosi tinha inúmeros cortes espalhados pelos braços, mais do que eu pudesse contar, hoje em dia tem essas zonas tatuadas e nunca mais cortou por cima, para variar pessoas que tentam pôr um término á vida, são aquelas pessoas que não são capazes de fazer mal a ninguém, boa gente, raridade hoje em dia, pessoas que ficam genuinamente felizes com a nossa felicidade, sem competições, comparações ou inveja á mistura, ela foi das poucas mulheres com quem convivi e senti uma conexão genuína.

Não se preocupem, ocorreu-me vagamente cortar-me em pensamentos que se acumulavam rapidamente, mas eu nunca gostei muito de dor, seja ela qual for, acobardei-me e não o fiz.

Mas a dor da perda, é a maior dor que já vivi na minha vida, a de querer abraçar e sentir o quente, o coração, de querer proteger e não poder, de sentir que falhei de alguma maneira, que podia ter feito mais, a vontade ridícula de querer voltar atrás e fazer diferente, porque Deus dá-nos bem mais do que podemos aguentar, esse "deus" misericordioso de quem toda a gente fala...

Deus, sempre que penso nessa palavra rio de tristeza, e depois vem a raiva, Deus, digo eu em tom jocozo, vai-te foder com a tua "generosidade".

Tento varrer da minha mente a dor da perda, a toda a hora, e uns dias são melhores que outros, uns dias consigo fazê-lo mais facilmente que outros, mas independentemente disso, em meio a uma conversa, a uma chamada, a risos, há sempre aquela pequena sombra no nosso olhar que faz tudo desvanecer por um momento, a saudade dói, parece que o peito quer consumir o meu corpo e explodir para o chão, de tanto que dói, fecho os olhos, conto até 10, respiro fundo e continuo a fazer de conta que não estou, bem lá no fundo, triste, desiludida e cansada, feita em cacos que já não se colam, nunca mais.

28
Jul25

Domingos

Carina Martins

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"Anima-te" disse-me o Bruno ontem, em meio a algumas macacadas pelo caminho, ele está sempre feliz, não é um escudo, não é uma defesa, ele está apenas sempre feliz, o Bruno é uma pessoa boa e ama-me, mas faz mais ou menos parte do "rebanho", consegue abstrair-se das coisas e viver.

"Anima-te" diz-me ele e eu penso que não quero que ele seja como eu, ninguém que eu ame merece carregar esse peso, penso para mim "como se fosse fácil" mas não digo-lhe absolutamente nada, faço um sorriso forçado e sigo a sentir o vento que já se sente mais suportável ás 20h da noite á beira da praia.

Ainda há imensa gente na praia, as notícias "algas afastam turismo no Algarve" não me parece muito verídica já que são 20h e ainda vejo imensa gente no areal, nos restaurantes, nos passadiços... Imagino quão imcomportável estaria esta pequena praia a meio do dia, com o solo mais quente, gente aglomerada a morrer um pouco ao sol sem espaço para passar entre toalhas, o belo passatempo de nada fazer.

Desculpem-me mas se é para voltar a ter um blogue vou ser eu mesma, e de facto nunca percebi a lógica de ficar imóvel a tostar ao sol por todo um dia, sem um livro para ler, apenas o "dolce fare niente" que nunca foi algo que de facto apreciasse. As pessoas apenas estão ali, nem parecem reflectir sobre absolutamente nada, estão quietas, paralizadas, a apanhar sol para dizerem que estiveram no Algarve.

Por incrível que pareça não havia ninguém com uma coluna de música ligada ao máximo, que bom, ainda assim sinto a falta do inverno, ouvir o mar bravo, observar o movimento das ondas, as gaivotas, o silêncio... 

Seguimos caminho para o mesmo canto de sempre, descobrimos um lugar que nem toda a gente conhece e onde podemos soltar os cães para eles correrem livremente, todo ladeado de rochas por isso eles nem tem por onde fugir, seguro, tranquilo, mais nosso no inverno, quando não nos deparamos ninguém que tenha elegido o espaço para fumar erva...

A minha cadela foi resgatada de uma situação de abandono e violência e tem pavor a pessoas, por isso é que escolhemos estes espaços só para nós, para além de que não temos que lidar com a soberba humana de achar que os animais não fazem parte de um espaço natural, 15 minutos a sentir a areia nas mãos, a água fria do mar, a correr e a fazer de tudo para parecer feliz pelo menos para eles, é tudo tão curto para eles, quero-os felizes, ninguém tem que ser contagiado com a minha visão negra das coisas.

Há todo um areal extenso, enorme, onde os animais não são permitidos por norma e as pessoas podem estar, mas meia duzia de turistas seguiram-nos á descoberta e a nossa paz acaba num estalar de dedos, olham para nós antes de pular rochas a baixo para ficarem perto de nós, sorriem-me, mas desculpem, eu não devolvo, eu estou absolutamente cansada do ser humano no geral, e fizemos 15 minutos a pé para estar sozinhos, quando um grupo de acéfalos achou que podiam estar conosco sem nos conhecerem de lugar algum, obviamente que o ambiente estava intragável e acabaram por sair, eu sei que a praia é de todos, mas reparem, nós esperamos os concecionarios fecharem, tivemos o dia todo de folga e esperamos por uma hora precisa para que os caes se divertissem, percorremos 15 minutos entre rochedos e dunas para chegar aquele lugar para o momento para o qual esperamos o dia todo ser estragado por alemães curiosos, well done.

O Bruno disse-me, não prendas a cadela as pessoas tem que aprender a respeitar o espaço das outras, mas na minha cabeça imaginei a cadela morder um turista, ele a atacá-la e eu a transformar-me para defender a unica coisa em que ainda acredito na minha vida, a inocencia de um animal, é uma cadela de porte pequeno, 12 kilos, não tem porte para provocar grandes danos mas sou eu que quero salvaguardar o meu dia na medida do possivel, estou cansada, aliás, exausta de lutar.

Soltamos os cães novamente, deixamo-los desfrutarem de alguma liberdade, o Bruno entretido a fazer videos e eu a respirar ar puro e a observar a natureza, passado um pouco decidimos ir caminhando até ao carro á beira da água, para sentir o fresco da água do mar que sabe tão bem no meio deste calor, uma senhora sorri para nós, traz um cão ao colo envolto numa toalha, deve ter estado na água, há poucas pessoas de quem eu goste nesta vida, mas as que gostam de animais tem o meu sorriso de volta, deixo a Khaleesi socializar um pouco, o Mickey não é muito dado a socializar com outros animais, cheiram-se e estão ali as duas muito a medo, trocamos 3 dedos de conversa, agradáveis, a minha interacção saudável que não tinha em semanas, despedimo-nos e seguimos. Senti-me um pouco menos sozinha, alguns sorrisos são reais, poucos, mas ainda vai acontecendo...

Reparem, a minha depressão dura a uns 2 meses, voltou em força, não sou de me queixar de barriga cheia, cresci pobre, aprendi a dar valor a coisas pequenas, mas tantas coisas tem acontecido, e eu raramente consigo sorrir, mas na ausencia de sorrisos procuro por paz, migalhas de alguma calmaria que esse Deus de quem toda a gente fala ache que eu mereça...

 

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