Uma sombra

O corpo humano é impressionante, a mente humana é impressionante, porque ás vezes a dor de perder é tão grande que uma cala a outra, e hoje percebo a Rosi uma das poucas amigas que tive na vida, que se cortava para calar a dor, porque nunca tinha sentido isto desta forma.
Dizem que "deus" dá nos somente aquilo que podemos aguentar, "deus" rio, mas que Deus é esse que passa a vida a testar os nossos limites para ver até onde aguentamos, e se não aguentarmos? Há por aí tanta gente nova que não aguentou, que tem flores de mês a mês num espacinho de um ou dois metros, se a família não tiver ficado chateada, porque há pessoas que vêm o suicídio como um acto de cobardia e egoísmo, mas ninguém imagina o que é sentir uma dor tão grande que se perde a esperança no mundo e nas pessoas, sentir uma dor que dói e que trava o corpo e que já nada a pode acalmar, egoísmo, como o ser humano usa essa palavra tão levianamente, para mim egoísmo é a palavra que define a maior parte da sociedade hoje em dia, e falo dos vivos obviamente.
Kurt Cobain, por exemplo, era sensível demais, pensava "demais", pensar nunca devia ser demais, mas num mundo virado ao contrário pensar é um veneno que nos vai consumindo aos poucos.
A Rosi tinha inúmeros cortes espalhados pelos braços, mais do que eu pudesse contar, hoje em dia tem essas zonas tatuadas e nunca mais cortou por cima, para variar pessoas que tentam pôr um término á vida, são aquelas pessoas que não são capazes de fazer mal a ninguém, boa gente, raridade hoje em dia, pessoas que ficam genuinamente felizes com a nossa felicidade, sem competições, comparações ou inveja á mistura, ela foi das poucas mulheres com quem convivi e senti uma conexão genuína.
Não se preocupem, ocorreu-me vagamente cortar-me em pensamentos que se acumulavam rapidamente, mas eu nunca gostei muito de dor, seja ela qual for, acobardei-me e não o fiz.
Mas a dor da perda, é a maior dor que já vivi na minha vida, a de querer abraçar e sentir o quente, o coração, de querer proteger e não poder, de sentir que falhei de alguma maneira, que podia ter feito mais, a vontade ridícula de querer voltar atrás e fazer diferente, porque Deus dá-nos bem mais do que podemos aguentar, esse "deus" misericordioso de quem toda a gente fala...
Deus, sempre que penso nessa palavra rio de tristeza, e depois vem a raiva, Deus, digo eu em tom jocozo, vai-te foder com a tua "generosidade".
Tento varrer da minha mente a dor da perda, a toda a hora, e uns dias são melhores que outros, uns dias consigo fazê-lo mais facilmente que outros, mas independentemente disso, em meio a uma conversa, a uma chamada, a risos, há sempre aquela pequena sombra no nosso olhar que faz tudo desvanecer por um momento, a saudade dói, parece que o peito quer consumir o meu corpo e explodir para o chão, de tanto que dói, fecho os olhos, conto até 10, respiro fundo e continuo a fazer de conta que não estou, bem lá no fundo, triste, desiludida e cansada, feita em cacos que já não se colam, nunca mais.

