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Contra a maré

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

O blogue de alguém que se cansou de lutar contra quem é, de alguém que depois cansou-se de lutar contra o mundo e que agora apenas deambula num mundo imperfeito á procura de respostas

Contra a maré

20
Ago25

O estigma com a líbido feminina

Carina Martins

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Há não sei quantos anos, um gajo machista ao quadrado decidiu inventar que as mulheres tinham menos libido do que os homens, e colou, colou porque provavelmente quando esse boato foi lançado ao acaso as mulheres tinham de obedecer aos homens, levar porrada era normal, contraceptivos eram obra do diabo e empregadas a dias para quê, mais valia casar. Obviamente que colou até com as próprias mulheres porque que mulher quer ter relações sexuais nessas condições? Mas aos homens colou porque dava jeito, primeiro, porque elas não podiam dizer que não, depois porque assim eles tinham uma desculpa, não que precisassem dela, para traí-las sem consequências para nada.

Entretanto as coisas mudaram, mas num Portugal pequenino a grande maioria das mulheres ainda são, e muito, submissas; dentro da maioria das casas, são elas que cuidam de tudo, cozinhar, limpar, cuidar dos filhos, ainda trabalham para além de tudo isso porque os homens, coitados, são uns aleijados, ou então vêm com a desculpa dos trabalhos braçais e de força. Bem, eu nunca vi uma mulher usar-se do “pequeno” pormenor da gestação e do parto para aproveitar-se e ficar no sofá a ver a bola, porque isso seria claramente aquilo que um homem faria. Aos neandertais do século XXI dá-lhes jeito falar dos trabalhos braçais, da força requerida; se forem a reparar, a maior parte, ironicamente, não tem fôlego para subir um vão de escadas sem ficar exausta, tem um perímetro abdominal maior do que o de uma grávida graças à diária cervejinha, são os mesmos que mandam bitaites nos jogos de futebol sem nunca terem encostado o pé numa bola, ou cujo exercício físico mais extenso que fizeram foi empurrar o carro quando ele avariou. Dito isto, haja libido que sobreviva a um ambiente de terror destes.

Claro que lhes continua a dar jeito dizer que as mulheres têm menos libido; na maioria das famílias de “bem” e com uma grande reputação, os machos alfa (sarcasmo) fazem uma chamadinha 5 minutos antes de terminar o trabalho para darem um pulo ao motel mais próximo, pagam 200 ou 300 euros por uma hora, apesar de terminarem o serviço em 5 minutos, e vão para casa a dizer: “desculpa lá, Maria, trânsito, já sabes, agosto”. A “Maria” muito provavelmente sabe, mas até compreende que alguém cobre 300 euros ao “Zé”, já que nem ela tem vontade de lhe meter as mãos.

A “Maria” caiu no velho conto: estudar, namorar, casar, trabalhar e ter filhos; na família dela não se falava de sexualidade e ficou chocada quando uma amiga lhe disse que se masturbava. Respondeu com um: “Eu? Ai, eu não preciso cá dessas coisas.” A amiga riu-se, abanou a cabeça e seguiu, e a Maria respeitou as regras sociais, que são sempre mais impositoras para mulheres do que para homens.

A questão, aqui, agora fora de sarcasmos, é que, para a mulher explorar a própria sexualidade, até para os dias de hoje, é precisa uma certa dose de rebeldia, porque rótulos de “putas” até as Marias desta vida têm, basta respirar, mas nós, aquelas que decidiram ser livres e não seguir padrões, nós somos as loucas, as tresloucadas, para variar, claro. Tal como acontecia há 200 anos, um orgasmo feminino é comparado à histeria, e o primeiro vibrador não surgiu porque algum homem nos quis fazer feliz, mas sim porque ele o viu como a cura para a dita “histeria”.

Histeria é um termo usado muito frequentemente por homens e às vezes pelas próprias “mulheres”, aquelas que são contra o nosso próprio progresso, para descrever as nossas emoções, porque, claro, sentir é algo que é inerente às mulheres e, quando demonstramos que sentimos, estamos a ser “mulherzinhas”. Exemplos? Reparem num jogo de futebol (btw, detesto futebol, mas acho que é uma excelente maneira de reunir energúmenos e fazer-lhes um teste de QI): homens aos berros, aos uivos, a vaiar, com cervejas na mão, frustrados, alguns até choram, outros festejam aos pulos; tudo muito bonito e ninguém critica. Agora substituam a bancada e coloquem público feminino num concerto, exatamente com o mesmo tipo de comportamento. Já sabem o que vão dizer sobre isso, certo? “Olhem-me para aquela cambada de histéricas aos pulos, não têm uma loiça para lavar?”

Triste, certo?

Mas reparem nisto: enquanto as coisas estão longe de estar evoluídas, como tanto se diz, por outro lado têm surgido mulheres na nossa sociedade que há muito perceberam que serem felizes era mais importante e seguiram essa máxima, rejeitando imposições sociais, enquanto “homens” com H pequeno, do alto dos seus narizes, continuam a não querer ou a esforçar-se minimamente para satisfazer as mulheres, julgando que elas não precisam de ser satisfeitas. Esquecem-se de que todos os estigmas sociais têm um preço a pagar, e por isso, de facto, as estatísticas mostram que as mulheres traem cada vez mais!

Não consigo deixar de me rir pela ironia que isto carrega: ora, a soberba da ala masculina (não generalizando) é tanta que acham que as mulheres não traem porque não têm vontade; os programas de incentivo à natalidade continuam a distorcer as coisas e a tentar aparentar que as mulheres só fazem sexo por questões meramente de procriação (excitante… só que não); tudo o resto é pecado, mas silêncio, só para as mulheres.

Era preciso fazer um estudo social, porque estas aves raras que criam leis, que regulamentam x, mudam aqui e permanecem acolá, ou seja, o governo, esquece-se de que o fruto proibido é o mais apetecido; pelo menos é assim que se rege o desejo. Não podemos controlar as nossas vontades, desejos, não podemos controlar pensamentos vagos que nos surjam pela cabeça; podemos controlar o que fazemos com eles. O problema é que já não queremos controlar esses desejos, até porque era só o que faltava; os homens nunca o fizeram, porque é que nós haveríamos de o fazer?

Retiram a educação sexual das escolas — irónico. Quando eu tinha 13 anos, há muitos anos, mais precisamente há 24 anos, tive educação sexual, formação cívica e, de toda a inutilidade que é o nosso ensino, foram das poucas aulas úteis que tive; fizeram-me compreender muitas coisas. Não fiquei uma miúda depravada, perdi a virgindade com 22 anos, dei o meu primeiro beijo pouco antes disso; sim, de facto, tocava-me todos os dias (detesto a palavra masturbar, parece que só está associada aos homens), em segredo. Tive poucas amigas para falar sobre o assunto, mas sabia bem falar abertamente sobre o prazer feminino, sempre soube que tinha bastante libido, mas, para minha surpresa, muitas amigas minhas também. Mas, como dizia, é irónico retirarem a educação sexual das escolas, sobretudo quando as miúdas estão tão desenvolvidas aos 13 hoje em dia, algumas até parecem maiores de idade; quando sabemos que os miúdos começam a atividade sexual mais cedo e que a infância deles não foi nem nunca mais será, infelizmente, como foi a nossa: uma verdadeira infância e não uma entrada precoce na idade adulta. E os pais, ainda assim, querem retirar a educação sexual? Resta-me rir; nem me vou alongar muito nesse assunto, vou ficar à espera das consequências do facto de os portugueses serem todos uns púdicos daqui a uns 5 anos; acho que é tempo suficiente para voltarmos a falar deste assunto e comprarmos bilhetes para o circo.

Eu dizia que o fruto proibido é o mais apetecido, certo?

Ora, tirem o cavalinho da chuva, porque as mulheres traem, e muito, e cada vez mais; as mulheres são mais discretas, pensam mais com a massa encefálica e depois deixam o desejo comandar. E não é porque tenham menos desejo, sabem? É porque são inteligentes, porque percebem cada vez mais o seu potencial, a independência e os estigmas que lhes quiseram colocar forçosamente na cabeça. Relógio biológico, menos libido, instinto materno — desculpem-me, mas isso são tudo conversas de chacha inventadas por barrigudos de cerveja na mão, no seu sofá quentinho; é que uma mulher que acredite que tem opções dá muito trabalho, é preciso conquistar!

16
Ago25

Um coração bom que precisa de ser contrariado

Carina Martins

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Trabalhei o dia todo, estava aqui  pronta para escrever sobre um tópico completamente diferente, até que de repente noto uma mensagem da Gabi no meu telemovel, nomes diferentes para proteger toda a situação, abro a mensagem e vejo: "Hello girl, do you know anything about Daniela, she's not reading me since 1 August", e de repente, tenho vontade de ir a correr para a rua e pedir que alguém dê-me um estalo com a maior força possível, aquela miúda fez-me mal, ajudei-a de todas as formas possíveis e imaginárias, caí numa depressão, deixei de acreditar nas pessoas definitivamente, e de repente, dá-me uma facada nas costas e ainda assim, aqui estou eu, passados 3 meses, preocupada com alguém de quem francamente cheguei a ter medo.

Mas que grande estúpida que tu és Carina, que grandessíssima burra, pega já no teu coração e deita-o fora porque estás avariada, és demasiado boa pessoa para este mundo de merda, para estas pessoas alheias a tudo, mas desta vez não vais deixar, desta vez NÃO!

Depois de estar 30 minutos á procura da Daniela, desisti, respirei fundo e pensei: desta vez NÃO! Ela não merece, segue a tua vida, já perdeste um ano inteiro a tentar ajudá-la e ela cuspiu em tudo o que fizeste por ela! Larguei o computador, decidi não responder á Gabi, com uma pessoa como a Daniela todo o cuidado é pouco e infelizmente esta foi uma daquelas situações que me doeu tanto, que não quero se quer que ela se lembre que eu existo, que a Daniela esteja bem mas que esqueça o meu nome e que eu existi na vida dela, a dor ainda existe, esta ferida é uma das tais, que eu nem se quer vou deixar sarar, para que esta burra não se esqueça que neste mundo virado do avesso, não há amigos.

O meu coração bom ás vezes precisa de algum controlo

07
Ago25

A beleza

Carina Martins

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A beleza, a estética, sempre foi algo com muita influência na minha vida.

Em Angola, era a menina bonita de olhos claros e pele bronzeada, cheguei a Portugal e no meu bairro fiz logo imensos amigos, toda a gente dizia que era uma maria rapaz com o rosto de um anjo, a minha mãe sempre fez questão que eu tivesse os cabelos longos e eu arranjava sempre maneira que ele não me atrapalhasse com uma longa trança. Passava tanto tempo na rua que as pontas ficavam douradas, isso agora está na moda, na escola serviam-me isso e mais coisas para o bullying.

Enquanto na rua era a menina bonita do bairro, na escola era a miúda pobre que não tinha dinheiro para roupas ou sapatilhas de marca, por isso começaram a chamar-me de tudo, palito, piolhosa, juba de leão, tudo muito engraçado pensam vocês mas era uma escola violenta e as ofensas verbais vinham sempre com as ameaças físicas que eram reais. Havia uma ambulância dia sim dia não naquela escola, mais para os rapazes, ás raparigas os bullys limitavam-se a dar uns pontapés ou puxar os cabelos e deixá-las estar. Detesto quando as gerações anteriores á minha ou muitas vezes até a minha geração (tenho 37 anos) fala do bullying com desdém "no meu tempo isso nem se chamava bullying" dizem pessoas cheias de anos ás costas mas com pouca sabedoria para verbalizar opiniões ocas, e de facto, nessa altura não se usava o termo bullying, mas isso era real e quase levou-me a acabar com a minha vida.

A única amiga que tive nessa altura chamava-se Ana, a Ana estava num processo complicado da vida dela, uma miúda com 13 anos violada pelo padrasto, a mãe obviamente separou-se do anormal e ficou só com a miúda e estava com imensas dificuldades, eu e a Ana andávamos sempre juntas, ela acabou por contar-me, a mãe ía buscá-la á escola e parecia muito feliz que a filha tivesse por fim uma amiga, até ao dia em que um grupo de miúdos encostou-me contra uma parede e começaram a bater-me para eu contar coisas sobre a miúda nova, eu não contei absolutamente nada, aqueles aprendizes de rufias não sabiam que eu levava porrada todos os dias de alguém bem mais assustador que eles. Infelizmente alguém de alguma forma ficou a saber e depois espalhou-se o boato de que tinha sido eu, maldade, e a Ana infelizmente não acreditou em mim e semanas depois estava a mudar de escola porque meia dúzia de pirralhos sem educação em casa resolveram que era muito engraçado uma miúda ter sido violada pelo padrasto, eles diziam que ela era mentirosa e demasiado feia para que alguém quisesse tocar nela.

Não condeno a Ana, ela tinha uma maturidade enorme para a idade mas também já sabia que as pessoas não eram confiáveis, fiquei triste e segui sozinha pela saga do bullying.

Uma cambada de miúdos que desde cedo foram ensinados a entrar no mundo do crime ameaçavam-me que iriam apanhar-me no caminho para casa e violar-me, eu era demasiado feia para tudo mas pelos vistos não para ser violada, o caminho para casa eram 20 minutos a pé mas passaram a ser 40 porque já não podia ir pelo atalho que ía antes, nunca senti-me feia, nunca o bullying afectou-me ao ponto de eu achar que eu era tudo aquilo que eles diziam, mas afectou a minha vida na medida em que andava sempre com medo, triste e desmotivada para ser uma adolescente normal e ter uma vida normal como envolver-me em actividades de grupo, fazer amigos, andar em zonas comuns nos intervalos...

Eu já sabia por essa altura que a beleza era muito subjectiva, mas aos meus olhos eu era bonita, eu adorava o facto de poder comer tudo e não engordar, eu adorava a minha cintura fina, o meu rosto, o meu cabelo, eu sentia-me bem na minha pele, eu só não me sentia bem no mundo. Nunca fui uma pessoa influenciável e talvez seja por isso que as palavras deles não tenham tido grande efeito na forma como eu me via, mas sim na forma como eu me comportava.

Imaginem o que é para uma miúda com pouco mais que 13 anos que foi violada aos 9 e que tinha acabado de descobrir que o que tinha acontecido não estava certo, passar diariamente pela dicotomia de ser humilhada, ameaçada e desprezada e ao mesmo tempo assediada, isso sim fazia-me confusão, se eu era tão desprezível porque é que não me deixavam em paz? Atacada muitas vezes com apalpões no refeitório da escola, a apropriação do corpo feminino a começar conosco mulheres desde cedo sem que muitas de nós se quer nos apercebamos disso, como se o nosso corpo lhes pertencesse, para humilhar, desprezar e usar também a seu bel prazer, isso provocava-me nojo, raiva, revolta, mas facilmente podia ser um desses miúdos que acabariam numa ambulância se respondesse. Mas muitas vezes respondi, confrontava-os exactamente com isso, comecei a ser sarcástica: "o que se passa na tua cabeça? Odeias-me, mas tens que me tocar?" os outros miudos prontamente começavam a rir-se  e a dizer "éh, a juba de leão gozou contigo" e rapidamente aconteciam então as ameaças, ás vezes a violência, mas eu nunca fugia, eu ficava ali, a encarar os mesmos anormais que anos depois faziam-me um pedido de desculpas oco e com interesse em nada mais do que sexo... É engraçado como meia dúzia de trocos no bolso, um trabalho e independência de repente nos tornam mais "bonitas".

Quando cheguei á vida adulta pensei que o bullying iria acabar, mas o bullying na vida adulta é mais hipócrita, mais dissimulado, mais politicamente correcto, o meu primeiro emprego a sério foi na Zara, explicaram-me que tinha que andar maquiada e foi nessa altura que aprendi a maquiar-me, antes disso só tinha trabalhado onde conseguia, atl's de férias, trabalhos muito mal pagos porque éramos menores. Começando na Zara e começando a entender o que era o atendimento ao público, nunca mais me arranjaram trabalho em o que quer que fosse diferente, eu queria fugir do atendimento ao publico, trabalhar num escritório, varrer ruas, fazer limpezas, eu nunca liguei a aparências, cortava as unhas, tirava a maquiagem e ía ás entrevistas: " a menina é muito bonita e demasiado qualificada para estar num trabalho destes" e eu pensava, claro, sou demasiado bonita para ter um trabalho decente e digno, tenho é que ser assediada todos os dias por clientes e ser desrespeitada pela minha chefe que quer que eu venda um rim ou levante a tshirt para conseguir fazer vendas!

Eu fui mais feliz a cuidar de crianças com necessidades especiais do que a atender qualquer snob arrogante que quisesse gastar muito dinheiro num par de calças, mas as pessoas não entendem mesmo que a beleza ás vezes é um grande entrave para sermos felizes.

A vida toda ou fui assediada ou desprezada, tive dificuldades no trabalho por ninguém ouvir o que eu dizia mas consegui destacar-me várias vezes, por mérito próprio, claro que haviam bocas de fundo que diziam que não era por mérito, o que só me entristecia pois se já tinha a vida complicada por visões distorcidas pela sociopatia social ainda tinha que lidar com a língua amarga das pessoas a retirarem todo o mérito das minhas batalhas.

Houveram alturas em que só queria um amigo, e alguém explique a neandertais que as amizades existem, tive um amigo, o Igor, ninguém acreditava que éramos amigos, mas por essa altura já tinha aprendido a ligar o botão do foda-se, a nossa amizade fazia-me bem, eu não era meramente uma cara bonita para o Igor, ele foi a primeira pessoa que leu de facto o blogue que tinha na altura, ele lia tudo e as nossas conversas no café depois de sairmos dos nossos trabalhos eram muitas vezes sobre isso, nessa altura ele dava-me motivação para continuar a escrever porque o entusiasmo com que ele falava de cada texto meu faziam-me sentir especial. 

O erro das pessoas está aí, pensarem que pessoas bonitas ou atraentes estão sempre á espera da validação dos outros, que tudo na vida delas é mais fácil e superficial, quando todos somos apenas seres humanos e queremos ser vistos.

Sabem, na altura que conheci o Bruno eu já tinha desistido de relacionamentos, tinha aceito que ía ficar solteira até ao fim dos meus dias mas estava tudo bem, eu tinha feito a minha paz com isso, eu tinha auto cuidado, auto estima e isso bastava-me, nunca precisei de muitos amigos, tinha a Isabel, e chegava-me. O Bruno conseguiu chegar até mim porque não foi apressado e notou-se que não vinha com malícia, não era um desses anormais convencidos que são engatatões de primeira cheios de ego, veio humilde, bem disposto, as piadas secas e ingénuas faziam-me rir, não me ofereceu mundos e fundos, não me pressionou nem veio com conversas cliché. Eu que já tinha os pés no chão e mesmo depois de o conhecer não fazia questão de uma relação disse-lhe que tinha um passado e que as coisas comigo tinham que ir com muita calma e sem pressões, e para os dias de hoje de facto as coisas foram indo bastante devagar, ele beijou-me apenas passados dois meses, mas mesmo depois desse beijo eu disse-lhe: eu sou uma pessoa complicada, sabes que eu não estou apaixonada por ti, gosto de ti e por isso estou disposta a tentar.

O mal de todos os relacionamentos é as pessoas acreditarem que uma vida em conjunto tem que ser construida em cima de uma paixoneta fugaz, eu nessa altura já tinha percebido que a minha mente cheia de traumas só se apaixonava fugazmente por imbecis, e por isso tinha aprendido a pensar mais com a cabeça, eu não andava a perder noites a sonhar com o Bruno ou a suspirar pelos cantos, mas vi um companheiro de uma vida á minha frente e não me queria arrepender por não lhe ter dado essa oportunidade. Uns meses depois nem sei quando me apercebi, lembro-me que foi numa ocasião banal, um jantar, um café, qualquer coisa banal e rotineira, recordo-me de olhar para o Bruno e perceber que amava-o e que já não via a minha vida sem ele, olhei para ele e sorri, e aqui estamos até hoje, 10 anos depois.

Costumo dizer ao Bruno que se um dia terminarmos nunca terei mais ninguém porque de facto foi no minímo uma sorte gigante que nós nos tenhamos cruzado, eu sei que não sou uma pessoa fácil, e digo-o de verdade, se algum dia as coisas acabarem não quero mais ninguém, e vocês pensam assim, uma mulher que se diz bonita e é relativamente nova dizer uma coisa destas? Já entendi á muito tempo que não preciso de relacionamentos para ser feliz, que o Bruno faz-me bem não tenho dúvidas nenhumas, mas são poucas as pessoas neste mundo que agregam em vez de retirar mais um pedaço de nós.

Mas a beleza como estava a comentar, é um entrave para tantas coisas, tantas, perdi a conta das vezes em que me faltaram ao respeito no meu posto de trabalho, numa sapataria cheguei a ter um empresário a convidar-me para ir viajar com ele por um mês, um anormal com uma aliança no dedo, dizia-me que ia pagar-me bem, prometeu-me mundos e fundos, nessa altura apenas fazia um sorriso forçado e mostrava a conta porque facilmente um pervertido que acha que qualquer mulher numa função pública está á venda se torna num anormal que decide humilhar-nos e fazer perder o trabalho por levar uma tampa.

Eu nunca mais pararia de escrever se fosse para relatar todas as situações que já vivi por causa da minha aparência, se por um lado o que penso não conta, por outro toda a gente acha que pode odiar-me ou assediar-me, mulheres no shopping que me olham com desprezo, homens que sussurram baixinho coisas absolutamente nojentas e adivinhem, eu não uso decotes, mini saias, calções, ando sempre com as minhas jeans e uma tshirt, oiço vezes sem conta que nós é que nos pômos a jeito, bem, eu deixei de me "pôr a jeito", hoje em dia faço as compras toda online, só saio de casa para o que é necessário, prefiro estar na natureza do que num lugar lotado de gente, os animais não olham para mim pelo tamanho do meu peito ou cor dos meus olhos, eles olham para a minha alma como nunca um ser humano foi capaz de fazer.

 

04
Ago25

Relacionamentos

Carina Martins

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Entre marido e mulher não se mete a colher, diz a maioria das pessoas, e levam isto tão á letra que a minha mãe foi espancada e maltrada por anos e toda a gente fazia vista grossa, ninguém a tentou ajudar, ninguém mostrou saídas, hoje eu sou adulta, na altura obviamente era uma criança e não sabia como fazê-lo, quando tinha por volta dos meus 13 anos comecei a perceber que haviam saídas e a conversar com a minha mãe sobre isso, "vamos alugar uma casa e sair daqui mãe, levas me a mim e á Jéssica, nós ajudamos-te, fazemos tudo em casa, tu trabalhas e nós cooperamos, vamos ser felizes e sair deste ambiente", a minha mãe começava imediatamente a chorar porque não tinha coragem, e foi assim que permanecemos anos a acumular traumas e histórias para contar.

Eu já fui traída e também já traí, não se preocupem, a pessoa em questão mereceu, foi mais uma vingança depois de ele tê-lo feito, mas acho no mínimo engraçado que tantas traições mundo fora que eu tenha visto ao longo dos anos, muitas delas toda a gente sabe que acontecem menos a pessoa envolvida, sejam muito mais bem aceites do que o relacionamento aberto que levo á quase quatro anos. Somos casados, amamo-nos, existem regras, mas continuo a ficar surpreendida com o facto de que era muito mais aceitável que o Bruno desse-me um estalo do que o facto de termos uma relação aberta, pelos vistos só não se mete a colher quando se envolvem actos não consentidos de violência, quando uma mulher é submetida a um acto de covardia por parte de um homem, aí está tudo bem "não nos vamos meter" dizem os cobardes com medo de prejudicar as suas miseráveis vida, afinal, dá tanto trabalho fazer uma queixa anónima, ou oferecer apoio, ou saídas...

Mas amar a pessoa que está ao nosso lado e não acreditar em monogamia? Que crime ultrajante, meu deus, que pecado, deviamos todos seguir a mesma linha, olhar para outras mulheres enquanto vamos com a nossa mulher ao shopping, ou inventar uma reunião tardia no trabalho para ir a um Motel pagar por duas horas com uma acompanhante com quem fazemos coisas que jamais fariamos com a nossa mulher, porque não falamos com ela, porque a nossa sexualidade é um taboo no meio de um casamento para a vida, onde devia haver sinceridade e abertura em vez de se transformar numa prisão. Mas que ultrajante explorar a nossa sexualidade com a pessoa que amamos, que porcaria, meu deus, deviamos todos ocultar o facto de que somos animais racionais e esquecer que não fomos criados para a monogamia, vamos todos fingir que somos felizes e cuidar da felicidade dos outros. Vamos todos ser politicamente correctos e meter o nariz na vida dos outros, que a felicidade faz comichão, e muita.

03
Ago25

Gente que de gente tem pouco

Carina Martins

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Todos sofremos, mais ou menos, eu acho que a dor até certo ponto humaniza-nos, ultrapassando os limites que todos temos, acaba por nos arrancar o coração peito fora e deixar-nos um pouco mais distantes do mundo, como uma protecção.

A primeira vez que percebi que as pessoas são traiçoeiras e temos que manter-nos alerta em sociedade foi com a Sónia, estávamos em aula, eu não gostava muito de participar mas sabia as respostas, a professora fez uma pergunta e a Sónia sussurrou para mim: sabes a resposta? E eu disse: sim, é uma Cartola. A Sónia prontamente disse que sabia a resposta e ficou com os louros por sabe-se lá o quê. Claro que estamos a falar do ensino básico e de crianças mas lembro-me quão frustrada fiquei na altura e prometi para mim mesma que nunca mais iria dar respostas a ninguém, elas que descobrissem pelo próprio mérito.

Claro que os bullys da escola mais tarde no secundário só se interessavam por mim para copiar e tirar uma nota minimamente decente, por isso é que eu ía para a mesa á frente do professor, não que ajudasse em alguma coisa, as escolas do bairro eram violentas, os professores em grande maioria duravam 6 meses naquela escola, haviam ambulâncias todos os dias a entrar escola adentro e ás vezes essas ambulâncias eram para os próprios professores, portanto, claramente que os professores faziam vista grossa para os copianços. Eu sei que ser professor não é tarefa fácil sobretudo num lugar como aquele mas se não tinham capacidades para lá permanecer ao menos pusessem-se a andar, eu ficava revoltada como toda a gente fazia vista grossa, como os adultos, o próprio director faziam de conta que não viam nada do que ali se passava. Eu não tinha a possibilidade de mudar de escola e portanto continuava a ser assediada pelos outros miudos e a sonhar com o dia em que pudesse por fim ter uma vida normal.

Mas não estou aqui para falar dos tempos da escola hoje, estou aqui para falar da minha experiência ao longo da vida com os seres humanos, e o que me levou até ao ponto em que estou hoje.

Eu já sofri muito, e isso levou-me a hoje preferir estar longe de tudo e todos, o meu sonho é ter uma casa no meio do nada, com animais e natureza á minha volta, quero ir para Espanha. 

Sou muito critica mas no meu pequeno mundo, sempre aprendi que se não temos nada de bom para dizer mais vale estarmos calados, e muitas vezes aquilo que eu tenho para dizer ás pessoas não é bom.

No bairro onde vivia existia muita pobreza e sempre observei com espanto como as pessoas mesmo assim continuavam a reproduzir-se, aparentemente despreocupadas com o futuro dos filhos.

No bairro onde vivia os meus vizinhos ouviam o meu pai bater em mim e na minha mãe todos os dias, 1996, tempos diferentes, as pessoas nem sentiam vergonha disso, apenas eram indiferentes. Havia uma dicotomia estranha, enquanto que o meu sofrimento e o da minha mãe parecia ser indiferente, eu chegava a pedir socorro na esperança que alguém chamasse a polícia até ao dia em que parei de chorar e aceitei que passaria por aquilo até sair de casa, por outro lado esses mesmos vizinhos vinham-nos deixar panelas de comida á porta de casa, brinquedos, roupas dos netos que já estavam mais crescidos, todo o tipo de coisas para termos mais condições.

É no mínimo irónico dar brinquedos a uma criança que não pôde ter uma infância, que ficava em casa a tratar da lida doméstica, a cuidar do irmão acabado de nascer, a adormecê-lo, embalá-lo, a cozinhar, quando tinha tempo para olhar para eles e por fim pensar em brincar, eles já estavam todos destruídos pela minha irmã, eu nunca fui miúda de destruir brinquedos porque sabia que eles eram poucos.

Habituei-me a passar tardes inteiras no sótão onde escondia os meus brinquedos e os meus diários, quando podia passava lá o meu tempo, nessa altura era muito habitual as casas terem um sótão, a nossa tinha dois, e aquele era o meu refugio, havia uma pequena claraboia que iluminava todo o espaço. O meu pai também guardava lá os pertences dele, um espaço com baús, roupas de inverno, uma televisão mais pequena do que o computador onde escrevo agora, livros, cds, discos de vinil, entre outras coisas. Foi um dia que encontrei um livro sobre educação sexual, eu tinha por volta dos meus 13 anos, já tinham passado 4 anos desde que tudo aconteceu e eu sabia que era algo estranho, mas nessa altura tinha mais perguntas que respostas então foi algo que sempre mantive numa zona cinzenta da qual sabia que não podia falar com ninguém. 

Eu já tinha atravessado um momento em que os meus pais quase se divorciavam então tinha medo que contar pudesse fazê-lo novamente.

Comecei a folhear o livro, era um livro básico que explicava o que eram os nossos órgãos reprodutores, como funcionavam as relações sexuais e como as pessoas se reproduziam basicamente. Num outro capítulo explicava problemas de fertilidade de forma muito básica, tinha as típicas dicas para as mulheres levantaram as pernas no alto e deixarem-se assim por 10 minutos para conseguirem engravidar, mais á frente explicavam o que era o abuso sexual, nesse capítulo explicavam que as crianças não tinham relações sexuais com adultos e após perceber o que era uma relação sexual por fim fez-se luz na minha cabeça e comecei a chorar, chorei a tarde inteira, fiquei na cave a refolheá-lo vezes sem conta, um lado de mim sentia alívio pois já tinha respostas, mas por fim vinha a questão que permaneceria para o resto da minha vida: porque é que me fizeste mal?

Passei a sentir desprezo, nojo e repulsa por homens, não sentia inveja das minhas amigas que conseguiam os primeiros namoricos, era agressiva sempre que algum miudo tentava aproximar-me de mim, eu sentia nojo puro e genuino, a possibilidade de dar um beijo a um rapaz dava-me voltas ao estômago, um grupo de miúdas na escola começaram a espalhar que eu era lésbica, porque um dia a cumprimentar uma amiga sem querer demos um beijo no canto dos lábios, espalhou-se o boato 10 vezes mais exagerado, mas os miudos afastaram-se de mim, e eu agradeci.

Tive a minha primeira relação sexual, o meu primeiro beijo, todos no mesmo dia, tinha 23 anos, um anormal que trabalhava no shopping onde eu trabalhava fazia-me olhinhos discretamente porque tinha vergonha de mim, fui para a cama com ele mais porque queria por fim perder este trauma, não estava apaixonada, não sentia-me atraída por ele, nada, e fui directa com ele, era apenas isso, ele tinha mais 10 anos que eu, comprei uma lingerie bonita, arranjei-me, preveni-me até que percebi que o Rui ia levar-me para a cave dele com a desculpa de que a mãe estava em casa, e depois de dores agonizantes em que o meu corpo rejeitava toda aquela situaçao por fim consegui, tivémos sexo uma vez mais depois disso mas percebi que ele era péssimo, destrui-lhe o ego, e desculpem-me, mas a muito gosto, quando disse que podia folhear um livro inteiro sem dar-me conta que ele estava ali enquanto ele tentava fazer algo comigo que se assemelhasse a sexo, ele finalmente caiu do alto do seu egocentrismo e passou a respeitar-me.

Um lado de mim sentia-se feliz por finalmente ter conseguido, mas outro percebeu que aquilo tinha sido apenas um ser humano a usar outro, contudo, ele podia ter sido sincero comigo, tal como eu fui, eu contei-lhe dos meus traumas para que ele não achasse nada estranho, falei que não queria nada sério, fui firme e directa e ele limitou-se a manter a capa de "galã" e o nariz no alto sem mostrar a minima vontade de transformar aquele momento em algo minimamente especial, naquela altura fiz uma ginastica financeira para conseguir comprar uma simples lingerie em condições, e o acéfalo leva-me para uma cave, e não ele não foi agressivo nem bruto, mas as instruções mecânicas dele deram-me nojo, mais parecia que estava a folhear um livro de relações sexuais outra vez.

De qualquer forma percebi que relações sexuais não eram nada do outro mundo e que afinal eu era apenas uma mulher com traumas que nunca tinham sido resolvidos.

A partir daí comecei a relacionar-me mais facilmente, apaixonei-me, e tenho saudades de ter a capacidade de me apaixonar, é das melhores sensações que senti na minha vida, mas obviamente que percebi que a maioria dos homens são neandertais com pouca capacidade cognitiva e o fascínio, paixão ou o que quer que fosse começaram a desvanecer.

Obviamente que tive dificuldades em quebrar ciclos, cresci numa casa com violência doméstica e o meu pai era o único homem que tinha tido como exemplo na minha vida, não é preciso pensar muito para chegar lá, claro que os meus primeiros relacionamentos foram desastres autênticos com réplicas do meu pai.

Paixão é diferente de amor, paixão é fugaz, mas faz-nos sentir vivos, amor é real, dói e trás paz. O meu primeiro namorado ao final de dois meses começou a falar de filhos, eu tive um ataque de riso, e saiu-me disparado: eu não quero ter filhos, para além disso vês que mal consigo pagar as contas e vens com planos irresponsáveis ao final de dois meses?! Ele ficou pálido e a partir daí começaram as discussões, eu tinha ânsia de viver nessa altura, por isso já sabia desde esse momento que a nossa pseudo relação tinha os dias contados, então apenas desfrutei disso enquanto durou e segui o meu caminho quando percebi que ele tinha-me traído, não claro sem antes traí-lo de volta, antes de acabarmos disse-lhe: vai fazer filhos com a drogadita que comeste no algarve. Obviamente que na cabeça de um homem trair é algo banal mas ser traído afectou-lhe a auto estima, ainda que tenha sido mais uma vingança, o homem ficou com o ego afectado e de que maneira, nunca mais me dirigiu a palavra.

Nessa altura mudei, comecei a praticar desporto, a cuidar de mim, mudei a minha imagem, a menina que sofreu de bullying outrora agora chamava a atençao por onde passava, também tornei-me mais fria e comecei a pagar a toda a gente com a mesma moeda, quando saí da casa dos meus pais pensava que a maldade estava dentro de casa, caí no mundo e percebi que a maldade estava em todo o lado.

Ao longo destes anos passei por muito, muito mesmo, e por isso estes anos tem sido uma mudança em mim que para mim é mais do que óbvia, eu sou a menina bonita, misteriosa que passou a ser fria, a não ter cara de muitos amigos e a não levar desaforos para casa. Vou ao ginásio de boné e fones gigantes, sorrio a pouca gente, a rapariga da recepção é simpática mas os colegas, os homens para variar, esses nunca me viram os dentes, querem saber demais, olham para mim de forma diferente.

A vida dá-nos um sexto sentido apurado, aprendemos a defender-nos e a ler as pessoas.

Eu sei a causa da minha depressão, estes meses, tem sido um acumular de situações desagradáveis e algumas tristes, desilusões e recomeços, tal como foi a minha vida toda, e a esta altura já vi tanta maldade que comecei a evitar lugares com aglomerados de gente, á um ano apaguei as redes sociais, mudei de número, mudei de comportamento e aparência, cortei o meu cabelo longo, quis ter uma imagem mais assertiva, foquei-me nos treinos, comecei a trabalhar na minha postura e relacionamentos, e certo é que hoje, não tenho amigos, mas fiz a minha paz com isso.

Na verdade, eu nunca tive amigos durante este tempo todo, tive pseudo amizades, não permiti o desrespeito porque respeito-me e isso acabou com as "amizades", a minha vida resume-se ao trabalho, ao ginásio e a levar os meus cães á praia quando ela é só nossa, a ultima vez que decidimos sair á tarde em pleno verão no Algarve, deparamo-nos com musica alta, aglomerados de ciganos a provocar medo ás pessoas e decidimos ir embora.

Estou ansiosa pelo inverno, pelo tempo frio e é aí que parto em descoberta da natureza, sem a pobreza do ser humano a poluir os lugares de todas as maneiras possiveis.

A verdade, é que não gosto da maioria das pessoas, e elas também não gostam de mim. Desculpem-me, podem pensar que é arrogância, eu estou habituada a ser julgada a está tudo bem.

Eu sou uma pessoa boa, que trabalha, faz voluntariado, pago as minhas contas, tenho os meus impostos em dia, não gosto de mexericos nem de falar da vida de ninguém, quando deparo-me com um grupo de mulheres ou homens que querem falar mal de alguém eu sou aquela pessoa que se retira, não sonho com lamborguinis ou ferraris nem fico deslumbrada com isso, não compro roupas de marca e faço as minhas unhas, corto o cabelo e faço absolutamente tudo em casa, não vou a salões de estética porque detesto o ambiente, não sonho com exibicionismos e excentricidades, sou ambiciosa porque quero paz e recuso-me a trabalhar para alguém, passo a grande maioria do tempo a pensar em como fazer mais dinheiro e impulsionar o meu negócio, mas não para os outros, para mim. As pessoas olham para mim e tiram as suas conclusões rasas desde sempre, vêm a beleza, o auto cuidado, o amor próprio e ficam enraivecidas, a minha vida toda sempre que fui para lugares públicos fui assediada por homens e olhada de soslaio por mulheres, o Bruno comenta isso comigo a toda a hora, a inveja, a inveja descabida e ignorante. É engraçado que as pessoas olham para mim com esse desprezo, arranjo-me, maquio-me, uso roupas maioritariamente discretas, clássicas e nada exuberantes, tenho o cabelo cuidado e não vivo para comer, como para viver, por isso o meu  corpo está no lugar, e isso rende-me olhares de desprezo e eu só penso para mim, suem como eu suo todos os dias, parem de odiar-me por finalmente amar-me.

A verdade é que eu não gosto da maioria das pessoas porque elas ensinaram-me que não são confiáveis, não me sinto parte da manada, detesto futebol, detesto alcool, detesto festas populares com aglomerados de gente e fogos de artificio, não gosto de comer até arrebentar, adoro dançar mas é dificil como mulher dançar onde quer que seja sem ser mal interpretada então faço-o sozinha, em casa.

Não lambo as botas de ninguém para subir na vida, onde quer que eu vá sou eu, para mim o Cristiano Ronaldo não é mais importante do que a minha vizinha do lado que passa os dias a cuidar do jardim e a sorrir a toda a gente, na minha vida não existem elitismos e adorações patéticas por pessoas que nem sabem da nossa existência. Se passar por uma pessoa conhecida na rua, vou tratá-la como alguém normal, já conheci pessoas famosas  e sinceramente a maioria são egocêntricas e terrivelmente alheias a existencia de outros seres humanos.

No topo dessa lista para mim estão aquelas pessoas superficiais que nunca tiveram grandes tropeços na vida e vivem nas suas casas grandes, luxuosas e imaculadas, pessoas que nunca pensaram em fazer um gesto de generosidade e não olham para o lado, pessoas que detestam pelos de animais caídos pelo chão e fogem do contacto com a natureza porque tem pavor a insectos, pessoas que vivem dentro de bolhas impenetráveis e esquecem-se que somos matéria que um dia será consumida pela terra e por bichos, a exuberância é algo que me faz rir, todos nascemos de um útero de uma mãe em sofrimento, envoltos em sangue e fluidos, e todos morreremos e vamos nos decompor, esquecidos dentro de um caixão, e por essa altura os luxos, os egos, os exibicionismos não passarão de pura ignorância e desprezo pela vida. 

 

01
Ago25

Pensar dói

Carina Martins

Coloquei as minhas tristezas numa gaveta outra vez, não consigo, se continuar a sentir sei que posso acabar a fazer uma loucura, e esta é a minha escolha entre deixar-me afundar e egoistamente dar cabo da vida do Bruno e dos que dependem de mim, e continuar funcional.

Arrumar a nossa tristeza para dentro de uma gaveta não é saudável, mas há muito tempo que o faço. Eu preciso de respostas que nunca vou ter, não num mundo ao contrário, só elas podiam resolver a minha dor, e há quem não compreenda uma depressão e possa dizer que isso é causado por nós, bem não é, uma vez ouvi uma frase e ela ficou comigo para toda a vida "pessoas boas acabam a precisar de terapia para lidar com pessoas más que acham que não precisam de terapia", e é bem isto, já lidei com muitas perdas desde muito nova, a primeira foi o Miguel, um amigo meu que com 13 anos tirou a própria vida, o Miguel tinha tudo para ser um miúdo popular, e era, ele tinha bastante dinheiro, vestia-se bem, tinha excelentes notas na escola, era bom a desporto, praticava artes marciais, era bonito, mas o Miguel decidiu não se juntar aos bullys da escola, pelo contrário, ele era um miudo com 13 anos com uma sensibilidade enorme, eu conheci-o um dia quando no intervalo entre aulas fiquei do lado de fora da sala de convivio onde a maioria dos alunos ficava, eu ficava a observar e a rabiscar, ele veio ter comigo e perguntou-me se estava tudo bem, que tinha reparado que eu ficava sempre sozinha, eu que ainda não conhecia o Miguel fiquei assustada, nervosa e a pensar cá para mim: "oh nao, outro bully", respondi-lhe que estava tudo bem e estava melhor assim. Ele olhou para a sala de convivio e disse-me: "eu sei" na direcçao dos olhos dele estavam o Carlos, o Ulisses e outros de quem já não me lembro o nome, o grupo de miudos que me faziam a vida num inferno, a mim, aos miudos pobres, aos miudos que tivessem o infortunio de ser diferentes e ás vezes até aos professores. Baixei a cabeça e esbocei um sorriso triste: "está tudo bem", depois a partir desse dia começamos a falar de coisas comuns, gostos, talentos, musica, desporto, animais. Duas semanas depois entramos nas férias de páscoa e o Miguel morreu, e eu como o conhecia a duas semanas não me pude permitir chorar a frente de ninguém, apenas fiquei por um mes inteiro a dormir tudo o quanto pudesse, a chorar, tudo o quanto pudesse, obviamente que tudo isto era um pretexto para que o meu pai me batesse,  mas ao final de um mês por fim vi que ele estava assustado e por fim veio ter comigo no quarto, cobri-me com os lençois e semicerrei os olhos com a luz porque mal saia do quarto, ele teve uma conversa comigo sobre morte, disse-me que ela fazia parte da vida e coisas por aí fora, só não me disse porque é que "Deus" levava as pessoas boas em vez das más, acho que foi das poucas vezes em que o meu pai pediu-me desculpas, mas a ultima frase foi  a minha: "podia ter sido eu, toda a gente gostava do Miguel, eu faria menos falta."

Não se preocupem, uma semana depois o meu pai voltava ao normal, agressões e pancadaria pela coisa mais pequena e insignificante.

Passei dois meses com aquilo que foi a minha primeira grande depressão, essa dor não arrumei na gaveta, permiti-me chorar, sentir e sofrer, mas de que me valeu? Nunca tive respostas ás minhas perguntas o que significa que mais tarde ou mais cedo acabamos mesmo por colocar as dores numa gaveta.

Deve ter sido aí que percebi que não vale a pena chorar, não vale a pena pensar, mas sabem qual é o problema de colocarmos as dores numa gaveta? É que ás vezes um pequeno abalo abre todas as gavetas, e ao longo da vida vamos acumulando muitas gavetas, muitas divisórias, e ás vezes a vida dá-nos um soco no estômago e abre todas as gavetas de uma vez.

Foi isso que me aconteceu, não tinha uma depressão desde 2017 I guess, ou melhor, ela estava controlada, foi o periodo de tempo mais longo em que consegui colocar a cabeça no lugar, o facto de já não trabalhar para ninguém ajuda, trabalho 3 vezes mais do que essa altura, mas faço o que gosto, e ao menos isso da-me alguma paz.

Claro que ás vezes dou por mim a deambular, quem me dera ter muito dinheiro, ganhar a lotaria, criava um santuário com todos os animais vitimas da maldade humana e era feliz só com isso.

Por falar nisso, no dia dos meus anos aconteceu uma coisa muito bonita, havia um senhor espanhol á porta de um supermercado, com um cão, a pedir esmolas, o cão de pelo brilhante, bem alimentado, ao lado dele, sem trela, e ele cabisbaixo, magrissimo, não pedia, limitava-se a estar ali. O Bruno foi comprar algumas coisas e ligou-me a pedir conselhos sobre o que dar, e eu disse-lhe compra comida ao cão e umas sandes para o senhor, eu era mais a favor de raçao seca pois sempre durava mais uns dias, mas o Bruno quis oferecer uma lata de 1k de humidos, pegou em duas baguetes prontas uma com pasta de atum e outra com ovo, uma garrafa de agua e foi entregar ao senhor: "peço desculpas, se calhar dinheiro dava-lhe mais jeito mas eu nunca ando com dinheiro", o senhor começou a chorar e disse-lhe que aquilo que ele tinha acabado de fazer era melhor do que dinheiro, eu comecei a chorar junto, o Bruno começou a chorar e senti o meu coraçao um pouco mais quente, mais vivo.

Não, o senhor não tinha alcool nem tao pouco cheirava a alcool, tambem nao estava a fumar, mas sabem, lá se foi o tempo em que eu criticava vicios, já não consigo, para mim é o suficiente ele estar ali com um rafeiro enorme e mesmo sem um teto para viver leva-lo com ele para todo o lado, quantas pessoas vivem em mansoes e casas enormes e rodeadas de luxos e nunca fizeram uma unica boa acçao? Além disso, eu própria já me refugiei em cigarros, mas trabalho com a minha imagem e fiquei com receio de perder o meu ganha pão, de começar a definhar, então parei.

O próprio Kurt Cobain está ali, agarrado a um cigarro a resumir a minha luta num video de poucos segundos, acho que as minhas almas gémeas morreram todas ou acabaram por tirar a própria vida, ser sensível num lugar tão negro é uma maldição, eu sei disso, mas não me quero juntar á "manada", eu sei que isto soa arrogante, mas ainda ontem conversava com o Bruno sobre isto, de facto deve ser uma sensação muito boa ser-se alienado, não sentir empatia, não nos preocuparmos, vivermos para o nosso próprio umbigo, mas eu não quero e nunca hei de ser assim, prefiro acabar por tirar a minha própria vida a fazer parte da psicopatia que abunda na nossa sociedade, porque das poucas coisas que ainda posso sentir orgulho é a certeza que tenho de que sou uma pessoa boa, e se é para ter vergonha de mim própria, mais vale cá não estar.

Mas como dizia, depois do Miguel tudo ficava guardado em gavetas, absolutamente tudo, as agressões do meu pai, a violação que sofri com 9 anos, o bullying, os traumas, eu ia para a escola com uns olhos tristes mas serena, quando o bullying começou a terminar e as pessoas começaram a sentir pena de mim (nunca gostei da pena de ninguém mas era melhor do que estar em modo alerta 24/7), começaram a chamar-me da menina dos olhos tristes, eu não sorria, não chorava, apenas observava as pessoas no meu canto, falar era abrir uma porta para que me pudessem fazer sofrer então foi assim que eu aprendi a tornar-me uma pessoa observadora.

Obviamente que como não chorava, não falava sobre isso, não desabafava a escrita começou a fazer parte da minha vida como uma espécie de terapia desde os meus 9 anos,  diários enormes todos preenchidos e escondidos que acabaram por ser deitados fora pelos meus pais, e obviamente que guardar as dores em gavetas trás consequências, uma delas era chegar ao trabalho a tremer, não conseguir ouvir a voz de um homem a falar mais alto e ter um subito ataque de pânico, tive a sorte de que a gerente da primeira loja onde trabalhei tornou-se acima de tudo uma amiga, e esperou pacientemente que os meus traumas se fossem curando, quando eu chegava ao trabalho a tremer a Cláudia já sabia o que se passava, dava-me um copo de água, abraçava-me e chorava e dizia-me: tem calma, tudo vai melhorar, um dia de cada vez.

Eu era como um animal ferido, desconfiado, e o atendimento ao publico apesar de ser o que é ajudou-me a saber lidar com pessoas, percebi que tinha que ser forte para parar de ser íman para pessoas maldosas, guardei as minhas dores em gavetas e transformei-as em ódio tantas vezes, zangada com "Deus" com o mundo e com as pessoas, descontei no desporto, na escrita e sempre fui capaz de amar apenas os animais, os unicos seres neste mundo que matam apenas para poder comer, enquanto que o ser humano mata e fere por inveja, ganancia, maldade, os animais são puros, sem o "raciocinio" do qual tanto o ser humano se gaba, mesmo a fazer um uso vergonhoso dele.

O que me vai salvando a vida é isso, a capacidade de arrumar a minha dor, de escondê-la de mim, de dizer com muita força: "chega, não vais pensar mais nisso" e conseguir, isso não faz de mim um melhor ser humano, mas é a unica coisa que posso fazer se me quero manter viva, eu nunca vou encontrar respostas para esta sociedade doentia. Já não tenho medo de morrer, sei que quando isso acontecer vou por fim poder descansar em paz, fechar os olhos e nunca mais pensar.

Pensar dói.

No meu dia de anos arrumei por fim as minhas dores numa gaveta, um dia terei as minhas gavetas a transbordar e sei que a depressão irá voltar, mas por agora sobrevivo neste mundo de loucos.

 

31
Jul25

Eu só preciso do mar

Carina Martins

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Ontem, o Bruno tentou animar-me, afinal, foi o meu dia de anos, e eu tentei parecer feliz por ele, mas, no fundo de mim há uma parte de mim que precisa de fingir se está tudo bem, e não dizer-lhe sempre o estado em que estou agora obriga-me a parecer bem e a fazer o possível para estar bem. Eu falo com o Bruno sim, muito abertamente, enquanto o blogue for desenvolvendo vocês vão perceber que saiu-me a lotaria depois de tantos azares, eu sou muito complicada e nunca pensei que fosse ter alguém com quem partilhar a minha vida, mas a nossa relação é muito honesta, muito simples.

Há cerca de duas semanas fui espairecer, precisava de chorar, coloquei uns fones, o calor é enorme e por isso sabe-me muito bem sair de casa com os cães mais a partir das 20h/21h, fui apanhar ar, isso é vital para mim já que trabalho tantas horas ao computador. Fiz o caminho habitual, deixei os cães cheirar, parar, o passeio era para eles também, na zona onde vivo são a grande maioria pessoas de idade, e confesso-vos que eu gosto disso, gosto da calmaria, cresci num bairro complicado, com drogas, tiros, policia, conflitos, violência, e sabia que precisava de sair dali mal começasse a trabalhar. Viver num lugar com pessoas que passam a vida a cuidar dos jardins, a cozinhar, a passar o tempo com os netos ou simplesmente a estar ali é uma das coisas que gosto, podem pensar que sou uma pessoa envelhecida mentalmente, mas não é isso. Comecei a sair á noite com 13 anos, envolvi-me com malta pesada quando era miúda, grande parte disso era por levar porrada todos os dias do meu pai e ver a minha mãe a ser agredida á minha frente, rebelei-me, quis juntar-me aos revoltados como eu, áqueles que tinham dores escondidas atrás de capas de valentões, foi a única fase da minha vida em que tive verdadeiros amigos.

Não, nunca usei drogas, nunca fiz mal a ninguém, limitava-me a estar com eles, e com o tempo, ganhei um estatuto, comecei a ser a protegida, aquela em quem  ninguém podia tocar, isso aconteceu porque começaram a reparar que eu era uma preza frágil, baixinha, muito magra, dócil, sorridente, frágil mentalmente, com medo até da minha própria sombra. Claro que o bullying fez parte da minha vida, claro que de vez em quando apareciam miudas ou miudos a quererem bater-me por coisa nenhuma, o grupo lá do bairro onde eu vivia começou a ver isso e a ficar revoltado, eu tinha duas realidades, na escola era a feiosa, com o cabelo frizado e roupas feias, na minha rua eu era tratada como uma princesa, e sim, essa realidade de inicio confundiu-me como adolescente mas depois percebi como o conceito da beleza era tão subjectivo. Mas de qualquer forma, os miudos do bairro vinham de lugares como o meu, pais violentos, muitos deles na droga, muitos deles também tinham pais que batiam nas mães, que tinham vicios, negócios duvidosos, e por aí fora, mas eram miúdos que como eu tinham crescido muito depressa, cuidavam dos irmãos, trabalhavam, estudavam, e tinham problemas de gente adulta, problemas que a maioria dos adultos "normais" não tem. Foi por isso que os "bullys" da escola começaram a ter medo de se meter comigo e recuaram, de repente ninguém mais me podia tocar, e eu que muitas vezes não contava nada a ninguém para evitar confusões acabava por ter sempre alguém que visse e lhes fosse meter aos ouvidos. 

A Sara era uma amiga, achava eu, até ao dia em que decidiu juntar-se a um grupo de outras raparigas, com mais dinheiro, mais populares, mais obcecadas com rapazes... Um dia do nada criou-se um murmurio que eu andava a falar mal dela, e pronto meio caminho andado para ser espancada a porta da escola, ou andar sempre com uma sombra atrás de mim, isto durou meses, eu ia para a escola e sabia que ia apanhar, já não queria saber, entre levar porrada em casa e na escola, nunca nada seria mais assustador do que o meu pai bater-me... Claro que a Sara nunca estava sozinha e juntava sempre um "valente" grupo para me ameaçarem, até que um dia a Sara deixou de aparecer na escola, eu só soube uns dias depois que a Marta a tinha encontrado numa das discotecas que íamos e tinha tido uma pequena "conversa" com ela, uma daquelas que fez com que uma ambulância estivesse a porta da discoteca meia hora depois, tenham calma, a Sara está bem, já se passaram mais de 20 anos, levou apenas uns pontos na cabeça e nunca mais foi se quer capaz de olhar-me nos olhos.

Todos sabemos que os adolescentes são maldosos uns com os outros, mas muito poucos aqui sabem o que é viver num bairro pesado, voltando ao meu raciocinio, eu posso parecer uma mentalidade envelhecida, mas na verdade vivi muito durante esses anos, foi uma montanha russa, mudanças, reviravoltas, histórias pesadas, tristes e outras felizes. Cansei-me por isso cedo de sair á noite, hoje o que gosto é de estar na praia, ver o sol nascer de preferência, os fins dão-me angústia e ver o sol a pôr-se para mim tem sabor a final, se sair é para conhecer um lugar no meio da natureza onde possa estar com os cães, fazer um piquenique, sentir o vento no rosto e ouvir os passarinhos, gosto de música mas o meu gosto musical não ajuda, não há discotecas tipicas com anos 80, as que existem passam eletrónica, pelo menos que eu conheça, e francamente também já não tenho pachorra para ficar em lugar nenhum até as 2h da manhã. O ribombar da musica nos ouvidos enquanto tento adormecer na cama foi algo que nunca me deu prazer.

Voltando ao momento então lá estava eu a passear os cães, a rua tranquila, silenciosa, o recolher das pessoas dentro de casa e a noite para mim, livre para eu poder pensar,  achava eu, tinha acabado de fazer algo muito dificil do qual ainda sou incapaz de falar abertamente sem me desfazer em lágrimas, por isso ia a chorar, aquele choro tranquilo, calmo, sem soluçar, apenas triste, pensava no quanto as coisas andam viradas do avesso, no egoismo das pessoas, na maldade, quando de repente eu e um senhor que estava mais a frente e quase era atropelado deparamo-nos com um animal a fazer derrapagens bem a nossa frente, havia um TVDE que teve que fazer inversao de marcha rapidamente e acho mesmo  que ele chamou a policia, eu que ja estava nervosa fiquei sem reacçao, a olhar para ele, incredula, sem perceber, qual era a intençao de andar a fazer manobras perigosas numa localidade cheia de crianças e idosos, o senhor com os seus 70 anos começou a acelerar até casa dele e eu que fiquei estatica por alguns segundos de repente lembrei-me que tinha que proteger os meus cães e por isso entrei por uma rua que dava um atalho para minha casa. Não tive a reacção instintiva de tirar a matricula, apenas senti aquele momento como um soco no estomago, e depois do choque, depois de estarmos seguros, aí sim sentei-me numa calçada encolhi-me e começei a soluçar, foi a vontade mais forte e mais impulsiva que tive ali de repente de morrer, porque precisamente ali enquanto vagueava e pensava na merda de mundo em que vivo de repente cruzo-me com um adolescente que achava que era mais homem por assustar meia duzia de pessoas. Na minha rua existem caes de rua que toda a gente alimenta, e só pensei na sorte que foi ele nao ter apanhado ninguem no caminho, mas mal consigo explicar o que senti naquele momento, desespero, desesperança, tristeza profunda, perdi as forças...

Nesse dia cheguei a casa lavada em lágrimas e dei um abraço ao Bruno daqueles apertados, daqueles que pedem em tom desesperado "por favor tira-me deste lugar", chorei e soluçei até ficar cansada, adormeci com uma ultima frase: estou cansada deste mundo de merda, estou  cansada de pessoas, eu nao pedi para estar aqui.

Ontem, no dia dos meus anos, nem os presentes que ele deu-me entusiasmaram-me e isso surpreendeu-me, não estava a espera de não sentir absolutamente nada, hoje já tenho algum entusiasmo em experimentar as coisas que ele me deu, mas ontem, nada fazia-me genuinamente sorrir. Não quis restaurantes caros, não quis absolutamente nada, a unica coisa que me deu animo foi por fim o momento em que pudessemos ir a praia com os cães, ver o mar e espairecer.

Sempre foi o mar, quando estava no bairro corria até á praia sempre que o meu pai me batia, e ficava ali a ouvir as ondas, a sentir a areia nos pés e a observar o mundo, as gaivotas, a natureza, isso acalmáva-me, manteve-me aqui.

 

 

28
Jul25

Domingos

Carina Martins

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"Anima-te" disse-me o Bruno ontem, em meio a algumas macacadas pelo caminho, ele está sempre feliz, não é um escudo, não é uma defesa, ele está apenas sempre feliz, o Bruno é uma pessoa boa e ama-me, mas faz mais ou menos parte do "rebanho", consegue abstrair-se das coisas e viver.

"Anima-te" diz-me ele e eu penso que não quero que ele seja como eu, ninguém que eu ame merece carregar esse peso, penso para mim "como se fosse fácil" mas não digo-lhe absolutamente nada, faço um sorriso forçado e sigo a sentir o vento que já se sente mais suportável ás 20h da noite á beira da praia.

Ainda há imensa gente na praia, as notícias "algas afastam turismo no Algarve" não me parece muito verídica já que são 20h e ainda vejo imensa gente no areal, nos restaurantes, nos passadiços... Imagino quão imcomportável estaria esta pequena praia a meio do dia, com o solo mais quente, gente aglomerada a morrer um pouco ao sol sem espaço para passar entre toalhas, o belo passatempo de nada fazer.

Desculpem-me mas se é para voltar a ter um blogue vou ser eu mesma, e de facto nunca percebi a lógica de ficar imóvel a tostar ao sol por todo um dia, sem um livro para ler, apenas o "dolce fare niente" que nunca foi algo que de facto apreciasse. As pessoas apenas estão ali, nem parecem reflectir sobre absolutamente nada, estão quietas, paralizadas, a apanhar sol para dizerem que estiveram no Algarve.

Por incrível que pareça não havia ninguém com uma coluna de música ligada ao máximo, que bom, ainda assim sinto a falta do inverno, ouvir o mar bravo, observar o movimento das ondas, as gaivotas, o silêncio... 

Seguimos caminho para o mesmo canto de sempre, descobrimos um lugar que nem toda a gente conhece e onde podemos soltar os cães para eles correrem livremente, todo ladeado de rochas por isso eles nem tem por onde fugir, seguro, tranquilo, mais nosso no inverno, quando não nos deparamos ninguém que tenha elegido o espaço para fumar erva...

A minha cadela foi resgatada de uma situação de abandono e violência e tem pavor a pessoas, por isso é que escolhemos estes espaços só para nós, para além de que não temos que lidar com a soberba humana de achar que os animais não fazem parte de um espaço natural, 15 minutos a sentir a areia nas mãos, a água fria do mar, a correr e a fazer de tudo para parecer feliz pelo menos para eles, é tudo tão curto para eles, quero-os felizes, ninguém tem que ser contagiado com a minha visão negra das coisas.

Há todo um areal extenso, enorme, onde os animais não são permitidos por norma e as pessoas podem estar, mas meia duzia de turistas seguiram-nos á descoberta e a nossa paz acaba num estalar de dedos, olham para nós antes de pular rochas a baixo para ficarem perto de nós, sorriem-me, mas desculpem, eu não devolvo, eu estou absolutamente cansada do ser humano no geral, e fizemos 15 minutos a pé para estar sozinhos, quando um grupo de acéfalos achou que podiam estar conosco sem nos conhecerem de lugar algum, obviamente que o ambiente estava intragável e acabaram por sair, eu sei que a praia é de todos, mas reparem, nós esperamos os concecionarios fecharem, tivemos o dia todo de folga e esperamos por uma hora precisa para que os caes se divertissem, percorremos 15 minutos entre rochedos e dunas para chegar aquele lugar para o momento para o qual esperamos o dia todo ser estragado por alemães curiosos, well done.

O Bruno disse-me, não prendas a cadela as pessoas tem que aprender a respeitar o espaço das outras, mas na minha cabeça imaginei a cadela morder um turista, ele a atacá-la e eu a transformar-me para defender a unica coisa em que ainda acredito na minha vida, a inocencia de um animal, é uma cadela de porte pequeno, 12 kilos, não tem porte para provocar grandes danos mas sou eu que quero salvaguardar o meu dia na medida do possivel, estou cansada, aliás, exausta de lutar.

Soltamos os cães novamente, deixamo-los desfrutarem de alguma liberdade, o Bruno entretido a fazer videos e eu a respirar ar puro e a observar a natureza, passado um pouco decidimos ir caminhando até ao carro á beira da água, para sentir o fresco da água do mar que sabe tão bem no meio deste calor, uma senhora sorri para nós, traz um cão ao colo envolto numa toalha, deve ter estado na água, há poucas pessoas de quem eu goste nesta vida, mas as que gostam de animais tem o meu sorriso de volta, deixo a Khaleesi socializar um pouco, o Mickey não é muito dado a socializar com outros animais, cheiram-se e estão ali as duas muito a medo, trocamos 3 dedos de conversa, agradáveis, a minha interacção saudável que não tinha em semanas, despedimo-nos e seguimos. Senti-me um pouco menos sozinha, alguns sorrisos são reais, poucos, mas ainda vai acontecendo...

Reparem, a minha depressão dura a uns 2 meses, voltou em força, não sou de me queixar de barriga cheia, cresci pobre, aprendi a dar valor a coisas pequenas, mas tantas coisas tem acontecido, e eu raramente consigo sorrir, mas na ausencia de sorrisos procuro por paz, migalhas de alguma calmaria que esse Deus de quem toda a gente fala ache que eu mereça...

 

27
Jul25

Dias

Carina Martins

Alguma vez sentiram vontade de morrer?

Eu já, inúmeras vezes ao longo da minha vida, algumas vezes tentei mesmo levar ávante, outras, limitei-me a viver com uma tristeza que transbordava e que muitas vezes culminava com ataques de choro e desespero.

Ultimamente, a unica coisa que acalma a dor que sinto, á noite, quando todos os pensamentos surgem, é pedir a Deus que me leve, que me leve numa noite de sono, sem que eu perceba, e prolongue o unico momento do meu dia que me dá alguma paz. Ultimamente tenho dormido mal, tenho pesadelos que só reforçam os pensamentos, as preocupações e as angústias que me deixam desperta até que as lágrimas me cansem, acordo cansada, sem vontade de tomar um banho, de me arranjar ou de fazer o que quer que seja.

Já não preciso de despertador para acordar, durmo pouco, acordo sobressaltada, são 6h da manhã e penso que podia aproveitar que ainda não há quase ninguém na rua para levar os cães a dar um passeio, com sorte, ainda há uma brisa fresca, ainda vou sentir o vento e ver o mundo sem que as pessoas despontem mais um dia para tornar tudo escuro e envolto em negrume.

Não acredito em Deus, e francamente tenho inveja de quem acredita, isso deve dar alguma motivação para viver, alguma esperança, mas é por não acreditar nele que lhe peço tantas vezes que me leve, afinal, é isso que ele sabe fazer não é? Levar os bons.

Também não acredito nas pessoas, e talvez tenha sido isso em primeiro lugar que me tenha feito deixar de acreditar em Deus, chamamos-lhe de forma arrogante, aos seres humanos, a espécie dominante, queria ver um homem enfrentar um leão sem artefactos, queria vê-lo a sobreviver no meio de uma selva, despido de lamborguinis, ferraris, roupas de marca, relógios de nixo, perfumes caros, despido sobretudo de soberba, queria vê-lo do alto do seu nariz a ser a espécie dominante.

O ser humano, aquele que se gaba de ser racional, de ter o poder de pensar, mas pensa? Será  que uma dona de casa pensa quando um dia numa ida ao shopping lança um esgar de raiva para uma miúda mais nova? Será que um homem que nunca deu um chute numa bola mas que é fanático por futebol pensa quando diz que o Cristiano Ronaldo é a pessoa mais importante do mundo, será que ele pensa no que diz enquanto a mãe dele que se sacrificou para que ele hoje tivesse uma vida estável convalece no quarto ao lado cansada e doente? Será que algum homem que assobia para uma adolescente que vai a falar ao telemóvel com a CPCJ porque a irmã fugiu da instituiçao pensa? Perdoem-me, mas raciocinio para que? Pensam? Ou apenas usam o minimo da capacidade de raciocinio para fazer o minimo no mundo?

Acordam, tomam banho, bebem café, lavam os dentes, vão para o trabalho, desempenham meia duzia de tarefas em modo automatico durante 8 horas, chegam a casa, se forem homens sentam-se, se forem mulheres continuam tudo em modo automatico, até chegar o momento de dormir, e ignorar, porque pensar cansa, e esquecer, o cao que atropelaram e deixaram á berma  de uma estrada, a colega que ficou a trabalhar a dobrar para poderem fumar um cigarro,  mas lembram-se de falar, sobretudo de falar mal, de falar da vizinha que discutiu com o marido outra vez, da colega que trouxe roupas impróprias para o trabalho, e assim dormem, poucos minutos depois, com vidas vazias, olhares ocos, corpos em modo automatico, almas apodrecidas...

Então talvez, só hoje, eu aventure-me a sair de casa e levar os cães que me mantém viva ao longo destes anos a passear, mas, respiro fundo, t-shirt larga, auscultadores nos ouvidos sem nada ligado porque isso significa que as pessoas pensam que eu não as posso ouvir, e os homens acham que nós temos que os ouvir quando eles despejam lixo em meia duzia de palavras sobre o nosso corpo, que na verdade, eles pensam que é deles, não sorrio, não olho nos olhos, não como fazia antes, coloco um escudo que me protege de um mundo negro, sinto o vento, vejo o sol a nascer e pergunto mais um dia a olhar bem no fundo dos olhos dos meus cães, onde está Deus porque eu não o vejo, acho que nunca o vi...

E talvez, só talvez, um dia eu perca a cabeça e grite para as pessoas, voces ganharam, o meu corpo é todo vosso para desdenharem, de voces mulheres que me olham feio, de voces homem que me querem á força, do homem que me violou, das pessoas que me quiseram forçar a ser mãe, do mundo que me quis dizer com quem eu deveria ter sexo, o meu corpo morto, desfalecido, vazio, é vosso, porque a minha alma já foi, algures perdida no tempo, tomem-no, fiquem com ele, não foi isso que sempre quiseram?

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