Ciclos
Eu não consegui salvar a minha mãe.
A minha mãe é infelizmente um exemplo da violência doméstica, mas antes de chegar ao ponto em que estamos, deixem-me explicar-vos quem era a minha mãe. A minha mãe era uma mulher linda, de cortar a respiraçao, se eu não estivesse a falar de uma mulher que existiu no mundo a 30 anos atrás a maioria das pessoas pensariam que ela submeteu-se a procedimentos estéticos, rosto bonito, angelical, olhos redondos negros e grandes, pestanas fartas e curvas, um cabelo negro, longo e forte, pela naturalmente morena, alta, esguia, cintura fina, angelical, a mulher mais generosa que eu conheci em toda a minha vida. O problema é que a minha mãe caiu no mundo e foi preza, atraiu os piores seres humanos que farejam a ingenuidade de qualquer ser humano que se atravessasse a sua frente, sanguessugas que não contentes por espalhar o mal sugam a alegria de viver do mais bonito dos sorrisos, esta é resumidamente, a história de vida da minha mãe.
Violada pelo meu avô repetidas vezes em Angola e nas restantes tratada como uma escrava, sem poder viver a juventude, acurrentada aos afazeres domésticos de alguém que não cansa de ser servido, menosprezada e despejada mais tarde para um casamento arranjado com o meu pai, carregado de traumas por causa da guerra, levado de Cuba á força e obrigado a cumprir serviço, á primeira vista um homem contido, reservado, até timido mas com um sorriso bonito... Dentro de casa outra história.
A primeira vez foi em Angola ainda, o meu pai estava a pintar a casa nova, eu tinha 4 anos, a minha mãe ainda era bonita e tinha luz, e eu queria entrar nessa memória e arrancá-la dali e ser e a melhor amiga dela, guiá-la, fazê-la feliz, mas como dizia o meu pai pintava a casa, entretanto faz uma pausa para beber um café e deixa as latas de tinta abertas, azul do mar, eu gostei da cor e fiquei a olhar para ela deslumbrada, peguei num pincel e comecei a pincelar as paredes, a achar que agora estava tudo a ficar ainda mais bonito naquelas pinceladas incertas, foi essa a primeira vez que vi o esgar de raiva do meu pai, que vi aquele homem doce e contido transformar-se num monstro, ele agrediu-me, bateu-me, até o braço se cançar, a minha mãe começou a chorar desesperada e foi espancada logo em seguida, corremos para o hospital e a seguir para casa dos meus avós, que pouco tempo depois descartaram-se de nós como se fossemos lixo, "as desculpas do homem sao sinceras, coitado, ele esta traumatizado com a guerra".
Tiraste-me a minha mãe, e mais do que todas as vezes em que me agrediste, essa é a unica coisa que eu nunca te vou perdoar, eu conhecia o brilho da minha mãe, e vi o coração mais bondoso que alguma vez conheci despedaçar-se e partir-se para sempre, vi aqueles olhos ficarem tristes, as costas curvarem-se e a cabeça baixar para toda uma existencia passada a servir os outros.
O meu sonho sempre foi levar a minha mãe comigo, mal pude saí de casa e comecei a perceber o que era uma vida normal, mas a minha mãe não quis vir comigo, a minha irmã também não, apenas passados uns anos em que perdi o contacto percebi que eles tinham-se divorciado, e entretanto, já era tarde para tentar intervir porque ela já estava com outro homem miserável que mais uma vez arrancou a minha mãe dos meus braços.
É engraçado que todos os homens que fizeram parte da vida da minha mãe me odiavam, todos, um por um, tenho o coração perto da boca e á minha frente nunca mais, nem uma palavra contra a mulher que ela é, mas hoje, estou cansada, tenho 37 anos feitos daqui a dois dias, e sao 37 anos a lutar e a dizer a minha mae: vem viver comigo, ainda ha tempo. Ela ja nao tem saude, nem energia, nem coragem, nem vontade, a minha irmã não quer saber, ninguém quer saber, e eu adoeço, dia após dia.
